quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Enganche: produto de exportação argentina


Montillo: um dos maiores sucessos do Campeonato Brasileiro que vieram da Argentina (Cruzeiro Online)
Por Tiago de Melo Gomes
A presença crescente de enganches argentinos no futebol brasileiro tem aumentado bastante o respeito dos brasileiros em relação ao futebol argentino. Em particular chama a atenção o fato de que alguns desses atletas fizeram muito sucesso por aqui (Conca e Montillo, por exemplo). Muitos pensam: se esses talentosos nomes sequer são cogitados para a seleção de seu país, imagine o nível dos outros enganches do país!
Na verdade a coisa não funciona dessa maneira. A realidade é que a Argentina, ainda que produza esse tipo de jogador em grande quantidade, não tem dado muito espaço a eles nos últimos anos. Basta notar que Conca, Montillo, Bottinelli e Cañete mal conseguiram jogar por lá, jogando de fato no Chile antes de chegarem a clubes brasileiros. Escudero e Lanzini eram suplentes em Boca e River quando vieram para cá. Isso não diz respeito à qualidade desses atletas em especial, mas ao fato de que os enganches não têm tido muito espaço no futebol do país vizinho.
Quem observa o atual campeonato argentino pode comprovar isso. A maioria das equipes tem optado por uma linha de quatro meiocampistas, dois volantes centralizados e dois meias de características ofensivas abertos pelos lados, e dois atacantes. Esse é o sistema de jogo atual de equipes como River Plate, San Lorenzo, Vélez Sarsfield e Estudiantes.
Mesmo entre as equipes que mantém enganches, o jogador que desempenha a função frequentemente tem características de meia-atacante, e não alguém que pensa o jogo (ou seja, mais para Kaká do que para Riquelme). Um exemplo óbvio é o Racing, do colombiano Gio Moreno.
Dentre as equipes de ainda mantém enganches típicos, como o Tigre de Diego Morales e o Olimpo de Martin Rolle, esses jogadores têm tendido a atuar à frente de duas linhas de quatro, fazendo a ligação com um atacante único. Ou seja, quase como segundos atacantes, evidenciando o fato de que o sistema com linhas de quatro tende a predominar no país.


A grande exceção é o Boca Juniors, onde Riquelme é um enganche típico, solto entre uma linha de 3 meio campistas e outra de dois atacantes. Nesse espaço, o craque xeneize é livre para pensar o jogo. No entanto, há motivos para crer que o sistema sobreviva apenas pela presença desse jogador em particular. O Boca negociou recentemente todos os reservas possíveis de Riquelme (Diaz, Cañete, Escudero), e o substitui por jogadores de outras características quando seu dez está lesionado.


Infelizmente o futebol argentino parece agora estar tomando decisões muito semelhantes àquelas que o futebol brasileiro tomou entre os anos 1980 e 1990. Até ali nosso futebol tinha se destacado, entre outras coisas, pela existência de geniais meiocampistas (geralmente atuando com a camisa 8) que marcavam e organizavam o jogo, enquanto o camisa 10 (que aqui sempre teve mais características de meia-atacante, como Pelé e Zico) se juntava aos atacantes para infernizar as defesas adversárias.


Há 20 ou 25 anos esse ciclo se encerrou. Optamos por dois volantes defensivos e dois meias mais ofensivos, como os argentinos fazem agora. Nesse processo, os meias organizadores, que marcavam e pensavam o jogo sumiram. A brilhante linhagem de Didi, Gérson, Ademir da Guia e Dirceu Lopes se extinguiu com Cerezo e Falcão.

Muitos anos depois, percebemos o erro que havíamos cometido. Mas depois de tanto tempo, esse tipo de jogador não existia mais por aqui. E tivemos de buscar os camisas 10 argentinos para organizar o meio campo de nossas equipes. Mas se o futebol argentino continuar sem dar importância aos enganches, esse tipo de jogador deixará de existir. E de onde virá a vida inteligente das meia canchas das duas grandes potencias do futebol sul americano?

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