terça-feira, 8 de maio de 2012

Craques: Iván Zamorano

A Copa Chile de 87, alavancou a carreira de Zamorano. (La Redó!)
Bruno Núñez, @BrunoNunez
De São Paulo-SP

Seus primeiros passos no mundo da bola se deram em campos de terra cheios de pedras em Maipú, um bairro de classe baixa de Santiago, poucos que jogavam com o menino franzino de origem humilde, poderiam apostar que naqueles campos estaria surgindo um dos maiores jogadores da história do futebol chileno. No mesmo patamar de lendas, como Elías Figueroa, Leonel Sanchez, George Robledo e seu contemporâneo Marcelo Salas.


Zamorano começou jogando como zagueiro central, mas logo demonstrou que seu ofício era o gol, e como atacante chamou a atenção de muitos, sendo o principal jogador do Benito Juárez, clube onde jogou durante sua infância. O menino já era um homem, tinha perdido seu pai com apenas 13 anos de idade, tendo que assumir a responsabilidades em casa, ajudando sua mãe e irmã. O sonho de ser jogador era uma obrigação, seu pai sempre o apoiou muito e antes de morrer sempre dizia a sua mulher – ‘’O menino vai ser muito bom’’.

O sonho de virar jogador profissional se tornou realidade em 1985, Iván desembarcou no acampamento mineiro de El Salvador, o Cobresal pagou uma merreca para ter o jovem em seu elenco. Logo chamou a atenção, mas o técnico Manuel Rodríguez preferiu emprestar o garoto para ganhar experiência em um clube de uma divisão inferior. Com isso Zamorano jogou em mais um time de mineiros, o Cobreandino (atual Trasandino de Los Andes). A passagem dele pelos gramados maltratados da segunda divisão do país andino foi mais do que positiva, foram 27 gols em 29 jogos no campeonato de 1986.

Após a temporada que mostrou ao Chile sua capacidade goleadora, Zamorano voltou ao Cobresal, que graças ao dinheiro vindo da mineração de cobre, conseguiu montar um time de respeito. Iván ajudou o clube a conquistar o troféu mais importante da história do clube, a Copa Chile de 1987, seus 14 gols em 14 jogos levaram o clube a final contra o Colo Colo, que foi derrotado por 2 a 0 pelo clube do acampamento mineiro.

Coroado rei na Suíça, Zamorano começou a chamar a atenção dos grandes da Europa (blick.ch)
Seus gols logo chegaram ao conhecimento do futebol europeu, 350 mil dólares foram suficientes para Zamorano chegar ao Bologna, aonde não chegou a jogar nenhum jogo, rapidamente sendo emprestado para o St. Gallen da Suíça. No pontual (?) futebol suíço, o franzino jogador ganhou força para enfrentar as duras marcações europeias, as três temporadas no St. Gallen (88-89, 89-90 e o começo de 90-91) foram prolíferas, o atacante se sagrou artilheiro da Liga Suíça com 23 gols na temporada 1989-90 e de quebra ganhou o prêmio o melhor estrangeiro daquela mesma temporada.

Zamorano ficou famoso pela Europa graças aos seus gols em terras suíças, principalmente pelos gols feitos de cabeça, a especialidade de Iván, o Terrível, apelido dado pelos jornais europeus. O técnico chileno-argentino Vicente Cantatore, que dirigia o Sevilla em 1990, precisava de um atacante para fazer dupla com o croata Davor Suker, tentando achar o jogador ideal para seu ataque, foi até a Suíça ver Zamorano jogar, e se decepcionou, já que o atacante não fez gols nos jogos em que esteve por lá. A sorte de Zamorano foi que seu companheiro de ataque no St. Gallen, o também chileno Hugo Rubio, conhecia muito bem Cantatore, ambos haviam estado juntos no Cobreloa, uma longa conversa entre os dois ajudou na decisão do técnico, que acabou requerendo Zamorano nos Sevillistas, que desembolsou 2.5 milhões de dólares para ter o atacante.

A mudança dos Alpes para a terra das touradas não foi fácil, Zamorano não começou nada bem no Sevilla, na primeira temporada fez apenas nove gols, nem perto dos seus números de costume, a titularidade não era garantida, e para piorar sua situação, se machucou e ficou de fora por uma boa parte da temporada 1990/91.

Na temporada seguinte, Zamorano evoluiu bastante, não foi um jogador fora de série, mas era bastante participativo, fez 12 tentos, mas jogava de uma maneira muito mais madura do que no seu início na Espanha. Seu futebol acabou interessando mais um, o técnico Benito Floro, que tinha acabado de chegar no Real Madrid em 1992 e não titubeou em desembolsar cinco milhões de dólares para ter o chileno, era o começo de uma bela história.

A raça de Zamorano no Real Madrid, deixava o sangue na camisa. (Real Madrid Fans)
Iván Zamorano chegava a um dos clubes mais importantes da história do futebol, era a solução para o problema do ataque madridista que sentia falta do mexicano Hugo Sanchez, que havia saído do clube na temporada anterior. Diferentemente do que pensaram, Zamorano não sentiu o peso da camisa, pelo contrário, nunca uma camisa tinha caído tão bem no chileno, 36 gols somando Campeonato Espanhol, Copas e Torneios Internacionais. Os gols mais importantes da primeira época de Zamorano foram contra o rival Barcelona, dois gols nos jogos da final da Supercopa Espanhola de 93, título que ficou com o Real Madrid. O mundo conhecia o salto imponente e o cabeceio mortal do chileno, que reinava soberano na grande área dos rivais dos merengues.

A temporada 1993-94 deveria ser esquecida, Iván Zamorano teve um péssimo desempenho, nem perto de sua temporada anterior que foi avassaladora. Foram meses sem marcar, os torcedores do Real davam todo tipo de amuleto para o chileno buscando uma solução para sua seca de gols. Só no fim do ano voltou ao encontro do gol, foi contra seu ex-clube, o Sevilla.

O péssimo desempenho em 1993-94 provocou a saída do técnico Benito Floro, que foi prontamente substituído por Jorge Valdano, jogador de passado glorioso no clube da capital espanhola. O futuro de Zamorano no clube madrilenho era incerto, Valdano declarou que achava o chileno dispensável no elenco, e sua saída era questão de tempo. Para alegria dos torcedores, Valdano teve engolir suas palavras a cada gol do centroavante chileno na decorrente época. O Terrível havia voltado, foram 28 gols no Campeonato Espanhol, o título da Liga Espanhola e o Trófeu de Pichichi (dado ao artilheiro do campeonato) eram seus.

Comemorando um gol, cena mais do que típica na temporada 1994/95 (Enchula el deporte)
Zamorano teve jogos memoráveis na temporada 1994-95, talvez o mais impactante foi a goleada do Real Madrid sobre o Barcelona por cinco a zero, o atacante chileno fez três gols no jogo e saiu aplaudido de pé. Outro jogo chave de Zamorano foi contra o Deportivo La Coruña, na antepenúltima rodada da Liga, ambos lutavam pelo título e uma vitória dava o título aos merengues, o jogo ganhou contornos dramáticos quando faltavam cinco minutos para acabar e o placar apontava um empate de um a um. Foi quando Amavisca viu Bam Bam livre de marcação, o cruzamento parou no peito do chileno, a bola se adiantou e o matador não perdoou o gol do Deportivo, uma bomba com o pé direito sacramentou o título merengue.

A última participação de Zamorano no Real Madrid foi modesta, 16 gols durante toda a competição, ainda assim, o cartel do jogador era vasto, e interessados não faltariam. Saiu como ídolo do Real Madrid, graças aos seus mais de 100 gols com a camisa merengue.

Massimo Moratti levou os gols de Bam Bam para o lado nerazurri de Milão. Zamorano não teve o mesmo protagonismo que teve no Real Madrid, e logo depois ganhou a companhia de um atacante que vinha em grande fase. Ronaldo chegou na Internazionale e o chileno teve que ceder a camisa 9 para ele. Não conseguia largar de vez sua camisa que lhe rendeu tantos gols e alegrias, deu um jeitinho pra continuar usando a 9, por isso passou a usar a camisa 18, ou melhor, a camisa 1+8. A maior glória de Iván na Inter veio na final da Copa UEFA de 1997-98 contra a Lazio, o primeiro gol da decisão foi seu, o jogo acabou em um estonteante 3 a 0 para os interistas.

Poucos gols na Inter, mas sua entrega em campo conquistou a torcida. (Daily Mail)
Foram cinco temporadas na Internazionale, Zamorano não foi o goleador dos tempos de Real Madrid, foram poucas vezes em que balançou as redes, o que ficou marcado foi sua entrega em campo e garra, aquele homem com feições indígenas conquistou a torcida graças a sua raça dentro das quatro linhas. Após 14 temporadas na Europa, Zamorano achou que era hora de voltar ao continente dos seus primeiros passos como jogador.

O jogador que dominava nas cabeçadas na área, graças a sua impulsão, encontrou uma cidade à sua altura, os 2.240 metros de altura da Cidade do México iriam albergar os gols do atacante chileno. O América do México era seu novo lar. Os gols surgiram rapidamente, assim como as lesões, que atrapalharam um pouco sua passagem pelas Águilas. No fim, sua passagem foi satisfatória, 36 gols em 3 temporadas, além do título do Torneio de Verão de 2002, que significou a nona estrela de campeão mexicano do América.

Em 2003, já com seus 36 anos, Zamorano resolveu atender um sonho do seu finado pai, vestir a camisa do Colo Colo, que também era seu time do coração. Zamorano chegou brincando, dizia que o índio do escudo parecia com ele, e era verdade, Bam Bam era a cara do clube, vindo da periferia, e vencendo com muita garra, raça e coragem, como eram os seus antepassados araucanos, inclusive o índio que deu inspiração ao nome do clube.
O jogador do povo, no time do povo, pena que durou pouco. (Tarapacá Online)
Todos acharam que Zamorano iria triunfar no albo, que preferiu não receber salário, já que o clube passava por uma grande crise econômica. Os 14 jogos e 8 gols foram trocados pela decepção da atitude do ídolo, que agrediu um árbitro e foi suspenso do campeonato, o atacante preferiu encerrar a carreira depois daquela atitude. Com o fim da sua carreira, Zamorano colecionou 327 gols, sendo o segundo maior artilheiro chileno da história, atrás apenas de Osvaldo ‘’Pata Bendita’’ Castro, com 358 gols. Acabava o jogador, mas nascia a lenda.

Capitão e ícone da seleção no caminho a Copa do Mundo de 1998 (AFP)
A camisa que mais caiu bem no atacante foi a da seleção chilena de futebol, pela Roja de Todos, Zamorano marcou época, principalmente na campanha rumo a Copa do Mundo de 1998. Fazia a dupla ‘’Za-Sa’’ com Marcelo Salas no ataque, que ficou famoso nas eliminatórias, impondo respeito e voltando a dar uma boa impressão do futebol chileno que tinha sido excluído das competições FIFA desde o escândalo no Maracanã protagonizado por Roberto Rojas. Inclusive não permitindo a seleção tentar a vaga para a Copa de 1994.

Na Copa de 1998, Zamorano era o grande ícone daquele elenco dirigido por Nelson Acosta, chamava muita atenção à intensidade com que o capitão da seleção cantava o hino nacional. A seleção chilena fez bonito, Zamorano também, o empate polêmico contra a Itália, mostrou que a seleção poderia vencer qualquer um, empates contra Áustria e Camarões abaixaram os ânimos, que foram pro espaço após a goleada contra o Brasil, nas oitavas de final da competição. Mas o povo ficou orgulhoso de todos, e principalmente do seu capitão, que não fez nenhum gol, mas impôs um espirito de liderança único, típico de um índio araucano.

Outra grande participação de Bam Bam pela seleção foi nas Olímpiadas de 2000, em Sydney, na Austrália. A seleção ganhou pela primeira vez uma medalha na competição olímpica, a medalha de bronze tinha grande participação de Zamorano, que fez 6 gols e se consagrou o artilheiro daqueles Jogos Olímpicos.

Sua despedida da seleção foi no dia 1º de setembro de 2001, no Estadio Nacional lotado, em um amistoso contra a França, vencido pelo Chile por 2 a 1, a Roja nunca mais seria vestido por aquele bravo homem, que botava tudo em campo pelo país, o capitão nunca mais vestiria vermelho.


Nenhum comentário: