quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Orgulho

Time do Bayern faz reunião antes da final
Amigo leitor da Total Football, permita-me fazer algo um pouco diferente dos meus colegas. É claro que falarei da minha equipe, o Bayern de Mairinque. Conquistamos o troféu Vasco da Gama de Vice Campeão e o que foi a Copa Trifon Ivanov para nós, o que alcançamos, o que deixamos a desejar, etc. 

Mas quero ir além também. Como um dos cérebros da equipe de organização, quero falar um pouco do que foram os últimos meses, todo o desenvolvimento da ideia do campeonato desde a conversa inicial até o apito final. Portanto esta peça será dividida em 2 capítulos, sendo o 1º sobre o torneio e o 2º sobre o Bayern.

Um abraço, Thom.

CAPITULO I – Cara, vai rolar!
Tudo começou meses atrás, em junho. Parece que foi ontem, mas já são 5 meses. Na verdade, a ideia é bem mais antiga, lembro-me de conversar com o Portes deste assunto há quase 2 anos, porém em junho que ela veio forte, muito em decorrência da participação do pseudo ex-iugoslavo na ImpedCopa, campeonato de futebol organizado pelo Impedimento.org que quase todos aqui conhecem e já tiveram vontade de jogar. Ele ficou todo empolgado e voltamos a discutir a possibilidade de montarmos um campeonato em São Paulo, nossa terra, inspirado na ImpedCopa.

Não queríamos fazer uma ImpedCopa Paulista. Partindo disso, começamos a desenhar o que poderíamos fazer. Chamamos mais alguns amigos, outros se meteram na conversa e acabou que montamos um grupo de organizadores para discutir todos os pensamentos.

Ideia daqui, ideia dali, e se fizermos tal?, BOA!... Muitas mensagens trocadas, muitas ideias debatidas, muitas outras descartadas por diversas razões ou motivações. Chegamos a um consenso: montemos um campeonato com alusão a times do interior paulista mas com temática na Copa de 1994, a mais nonsense de todas. Nasceu a Copa Trifon Ivanov, uma homenagem ao búlgaro que se destacava no álbum de figurinhas daquele mundial.

Não me lembro agora quem teve a primeira ideia, acho que foi o Julio com o seu América do Soul, em alusão ao América de Rio Preto, aí veio o CPTM Moscou (que tinha outro nome que não revelarei), o Rad Ourinhograd, o Bayern de Mairinque. Inicialmente falamos em montar 8 times com 8 jogadores.

De cara a ideia fez sucesso e o número de interessados explodiu, então fizemos algumas manobras e aumentamos o numero de times para 10, com 7 jogadores a principio. E depois finalizamos o formato do campeonato ao acrescentar mais um jogador a cada time e liberar um pouco a lista de espera que estava bem grande. 80 jogadores, sem contar a lista dos sem-vaga. OITENTA! Na primeira edição, sem muito alarde. E não eram 80 primos, irmãos, amigos. Eram pessoas que iam da Bahia até aquele outro país, o Rio Grande do Sul (ou Uruguai do Norte, sempre me confundo)

Não acreditávamos nisto. Era até surreal. Começamos a nos perguntar porque não fizemos antes. Ao mesmo tempo, iniciou-se uma pressão interna por fazer aquilo valer a pena, algo que afetou a todos que participaram, embora nunca tenhamos falado isso entre nós.

Quanto será a taxa de participação? Tem que ser algo suficientemente alto para pagar a estrutura que queremos montar e suficientemente baixo para não desencorajar ninguém que queira participar, principalmente levando em conta que há vários “estrangeiros” na parada.

Acabei assumindo toda a frente financeira da Copa, talvez por ser economista, provavelmente por ser o mais experiente da turma (ou o contrário). “Passem para mim todos os orçamentos” “Que orçamentos???” “Porra, quadra, camisa, juiz, comida, bebida, prêmios...”

“Onde faremos?” “No Playball” “Mas só dá pra fazer lá? Vamos cotar pelo menos mais 5 quadras. Quem conhece quadra?” ”Eu! Deixa comigo”. Começa a correria por quadra. “Quanto tempo?” “Sei lá! Faz as contas ai, umas 8 horas.”

“E as camisas? Cada um vai com a sua?” “Não, vamos tentar fazer um modelo personalizado. Vira recordação a todos que participaram ou, no pior dos casos, mais uma roupa pra usar nas peladas e academia” “Tá, vou cotar” “Caralho, tá tudo caro. Só a camisa ta mais alto que nosso teto de inscrição” “Fodeu, não vai rolar.” “Podemos fazer os organizadores subsidiar, ou então perguntar pros jogadores se eles topam pagar mais um pouco para ter a camisa” “Boa, vou mandar email” “Todo mundo topou. Cara, VAI ROLAR!”
Allan ao fundo, Vives, Thom e Portes antes da final

E assim foi se desenvolvendo, tomando corpo. Algumas discussões mais leves e unânimes, outras foram arranca rabo geral, mas conseguimos montar algo. Acho que a única coisa que não teve qualquer tipo de debate foi a escolha de Marcio Canuto para o pontapé inicial. Assim que surgiu a ideia, em menos de 3 minutos todos já haviam se empolgado com a possibilidade. Agradeço enormemente ao amigo Colombari pela persuasão.

Metódico que sou, na semana anterior ao campeonato havia preparado um arquivo em Excel que já calculava todos os resultados, ordenava os grupos, fazia os critérios de desempate, mostrava os cruzamentos das fases de mata mata e ainda servia como sumula jogo a jogo. Aqui, por uma desatenção, fiz os cruzamentos errados e os 1ºs colocados se enfrentaram já na semifinal. A ideia era levar o computador e ficar ali ao lado da quadra com uma mesa, organizando o campeonato de lá com o notebook e um megafone.

Chega o grande dia. Mal dormi na noite anterior, de ansiedade. Não consegui o megafone, mas levei o computador. O campeonato estava marcado para começar as 13h, mas queria chegar pelo menos 1h antes para fazer todos os preparativos. O campeonato TINHA que começar às 13h, e aí entende-se que com os times completos, as camisas separadas, o computador ligado, a churrasqueira acesa, o Canuto no local, etc. Peguei o Frodo e fomos para o Playball com as camisas e computador. Mais tarde chegariam o Leo Rossatto com o churrasco, o Bonsanti com o Canuto e o Portes com a cara feia dele.

Chegando ao Playball, cadê a quadra? É do lado de uma churrasqueira, disseram. Não era. Era perto, é verdade, mas quem estivesse comendo não conseguiria assistir o jogo. Primeira cagada nossa, na próxima temos que nos certificar exatamente da posição da quadra. Também não tinha tomada, o que inutilizaria meu computador, já que a bateria dele dura tanto quanto a França em uma guerra. Para nossa sorte, a Tati Girardi levou também seu computador e quebrou um galho pra gente ali atrás da quadra (CALMA CARA), fazendo as súmulas (Brigadão, Tati =*). Eram 13h, as camisas estavam separadas, as coisas do churrasco na primeira churrasqueira que vimos livre, a bola tinha chegado, o Canuto também. Vamos começar? Não. Um dos times que deveria começar o campeonato não tinha chegado. NINGUÉM do time, na verdade. Vamos trocar! O que seria o 3º jogo da 1º rodada passou a ser o 3º. “E cadê o Portes?” “Sei lá, porra.” Vamos fazer a cerimônia de abertura. Chama Canuto, chama todos para a grade da quadra, espera todos estarem posicionados, grita e interrompe para poder fazer um discurso. Entrega a camisa especial ao Canuto, abraço, um monte de foto com todo mundo, puta festa. Vai começar. Cadê juiz? Não chegou. “Eu apito” “Não, deixa que eu apito aqui, continua correndo aí fora organizando o resto”. E assim o Frodo ficou em campo, enquanto eu tentava por ordem no resto. Segundo jogo foi um repeteco do primeiro, sem a parte do Canuto. Corre, chama time, completa com outro cara ali, chegou o Vives e seu uniforme de salva vidas de piscina do clube - “já entra para apitar!”.

Quando faltavam 3 minutos para o fim do jogo eu já saia gritando pelo Playball para os próximos times se organizarem e ficarem na porta. Estávamos atrasados e precisávamos perder o mínimo de tempo possível entre os jogos sob o risco de não ter a final.

“Cadê o Portes?” “Sei lá, tá dando a bunda” “Só tem essa bola?” “Sim” “E cadê a carne?” “Tá lá na churrasqueira” “Mas acenderam?” “Ainda não” E toma o Frodo indo para lá, junto dos gaúchos do Bayern de Mairinque. Criticam a grelha, pedem um chimarrão, arriam a bombacha e acendem o fogo.

“Tati, qual o próximo jogo?” “América versus Bayern” “Puta merda, sou eu. MURA E BORGO (chupa) VENHAM CÁ: corre lá, faz isso, isso e isso pra mim que preciso jogar”

E assim foi indo o dia todo. Jogador se machuca, verifica se está bem, se precisa de algo, qual o próximo jogo? Grita com os próximos times, cumprimenta 5 vezes a mesma pessoa, sacaneia os amigos, passa na mulher para ver se precisa de algo, faz alguma observação com o time... Na primeira fase eu não vi jogo nenhum que não fosse os do Bayern. Foi uma correria, para todos os organizadores, mas o orgulho de ver aquilo tudo funcionando é algo indescritível. Todos com quem falei ao longo e após o campeonato vieram agradecer e elogiar a organização por ter feito aquilo e isso, camarada, vale mais do que toda a energia que gastamos, independente do resultado dos nossos times, das dores musculares que persistem e pela voz que foi embora por 2 dias (volta Megafone!). Ao fim do jogo fiz questão de ir falar com cada um dos organizadores e mostrar os sorrisos no rosto dos participantes daquele sábado frio e falar que tudo aquilo que fizemos tava refletido ali e quão valioso era isso. Um enorme OBRIGADO a todos, organizadores, juízes, jogadores, torcedores e amigos. E vem mais por aí!

A final antecipada entre Bayern e Rad aconteceu
no segundo jogo da primeira fase

CAPÍTULO II – Vamos vencer esta merda!
O Bayern de Mairinque era um time estranho entre si, mas que de cara vimos que daria certo. Quando saiu o sorteio, não conhecia ninguém exceto o Edmilson, grande amigo da vida, juventino, sem arroba. Pego email de todos e me apresento. Descubro que 2 deles já jogaram juntos, que temos um argentino marrento mas gente boa, um conhecido de amigo. Começamos a debater as posições de cada um e tivemos sorte de ter mais de 1 peça para cada posição. O sorteio foi bom para nós. Rapidamente definimos como o time poderia jogar e algumas variações de escalação usando banco de reserva e posicionamento em campo. Com 2 zagueiros de formação e fixos, Flavio e eu, o time poderia se retrancar. Sem um de nós, ficar mais leve e rápido e ficar bem ofensivo.

Mas vocês sabem como a realidade prega peças. Papel é uma coisa, campo é outra (alô Flamengo 1995!). No primeiro jogo, fomos absolutamente dominados pelo América do Soul. Via-se que o time tinha potencial, mas pelo desentrosamento as jogadas simplesmente não funcionaram. Porém vimos como cada um sabia jogar, suas características. Vimos que não precisaríamos de 2 zagueiros, então deixamos o Flavio preso, eu fui pra volância, com Gui Rocha ou Edmilson ao meu lado e lá na frente o Amarelo e Silvio. Ao fim do jogo, 2x0 para eles.

Allan organiza a ofensiva do Bayern
Precisávamos mudar a tática e disposição do time. Obede, que era o atacante de oficio só chegaria para o 3 jogo, até lá o Silvio quebrava galho. Como Amarelo era de longe o mais técnico do time (e depois recompensado como melhor jogador do campeonato, merecidíssimo), recuamos o argentino para jogar logo à frente do Flavio e fazer a ligação, o passe de qualidade ou carregar a bola até o ataque. Toda vez que ele subia, Gui voltava. E esses 2 na hora se entenderam e foi impressionante como o time funcionou bem assim.

Contra o Rad, segundo jogo, 0x0. O time evoluiu muito, acertamos 2 bolas no travessão na mesma jogada, mas não ganhamos. O medo começou a bater, confesso. Mas não adiantava ficar nervoso. Debatemos, desenhamos, posicionamos e decidimos que jogaríamos cadenciado, sem correria.

Flavio dribla Leopoldo no jogo entre Bayern x Canabi
O próximo jogo era contra o Canabi, com o Ciro no gol. Ciro que até aquele momento fazendo mil milagres. E então chegou o Obede. E foi incrível como encaixou na hora. Resultado do jogo? 6x0 incontestáveis, a maior goleada do campeonato. O time fluiu muito bem nesta partida, ouso até dizer que o melhor desempenho do campeonato inteiro foi o nosso neste jogo.

Então faltava o jogo com o XV de Paranapiacaba, pela 4º rodada. Era empatar para garantir a classificação, dependendo somente dos resultados da 5º rodada (em que teríamos folga) para ver em qual posição passaríamos. E a zebra começou a rondar, com eles abrindo o placar. Mas não perdemos a cabeça e buscamos a virada no fim e terminamos a primeira fase com 7 pontos e saldo de +5.

O melhor do nosso time era a calma. Em nenhum momento nos afobávamos, mesmo quando perdíamos. Esta força psicológica certamente nos ajudou muito a chegar onde chegamos. Fim da primeira fase, passamos em 2º e enfrentaríamos o Ferrorama Putinesco. Para mim, do pouco que tinha visto até ali, o time a ser temido.

VOOOOA, STEIN!
O jogo foi muito pegado, aguerrido. Chances para os 2 mas ao mesmo tempo nenhum efetivamente conseguiu ter algo de concreto. 0x0 e pênaltis. E aí entra aquele fator psicológico. Cara ou coroa, venci o arremesso (eu perdi TODOS os cara e coroa de inicio de jogo, um feito inédito). Silvio chamou a responsa, bateu e entrou. Chiorino, o jogador que em qualquer dividida vai reclamar de pé alto foi o escolhido pelo lado deles. Fabinho é velho conhecido meu, juventino também, então criei aquele clima de Rua Javari. Fiquei parado a 2 metros dele xingando de tudo que existe nessa terra, para ele se lembrar onde fomos criados. E deu certo, para mim. Fabio perdeu o pênalti e o Bayern avançou. Desculpa, cara.

Nas semifinais, o forte União Agrícola Palmarense, do igualmente incompetente capitão Moret. Jogo começou na mesma toada do CPTM, mas conseguimos abrir uma vantagem na metade final e acabou 3x1, em grande exibição de Flavio, o nosso monstro na zaga.

Silvio cola em Luccas
Quis o destino que enfrentássemos na final novamente o Rad. Conhecíamos o time, sabíamos os pontos fortes e fracos. Como eu acho isso uma puta frescura, fui ali ficar gritando e xingando em volta deles, exatamente como fiz no jogo contra a União Agrícola. Tentar desestabilizar, encher o saco ou simplesmente me distrair. A final seria disputada em 2 tempos de 10 minutos, então poderíamos diminuir a blitzkrieg inicial que vínhamos fazendo nos outros jogos. Vamos nos poupar. “Silvio, você fica fixo no Luccas, não deixa o cara solto”. E Silvio realmente foi um enorme cão de guarda. No último lance do 1º tempo, fizemos o gol. Bateu o arrependimento de não ter só um tempo.

Veio o segundo, o Rad vindo para cima e o Bayern se segurando, com 2 zagueiros. Com o Luccas bem anulado, eles variaram muito o jogo, deixando a partida bem interessante. Tomamos um gol besta mas logo em seguida voltamos a marcar. Faltavam uns 3 minutos. Vamos segurar - eu gritava. Valoriza a bola, não reponha rápido! Aí veio uma falta. Vou pra barreira com o Amarelo, eu fico de costas olhando pro posicionamento e avisando Stein e Flavio de onde tinham que ir. 

Vi o Luis chegando junto do Stein. Precisava virar. O Luccas correu e bateu. A bola passou a meio metro da minha perna esticada, viro a cabeça e vejo o Stein já caído e a bola chegando e passando por ele. O Luis ao lado, meio caído. FOI FALTA! FALTA CLARA NO NOSSO GOLEIRO! Eu vi, o Stein reclamou de monte, A TORCIDA RECLAMOU. O juiz disse que não viu e não marcaria. “COMO NÃO VIU, PORRA? O CARA SOFREU UM TACKLE!!!!!!!” “Desculpa, mas não vi. Se não vi, não marco.” E validaram o gol, sob protesto geral (depois do fim do jogo fui falar com o Renato do Rad e ele me confessou que também viu a falta no lance). Paciência.
Thom, após as penalidades
Mas não havia tempo para nada mais. E lá vamos nós para os pênaltis. E perdemos ali. Chegamos tão perto, mas tão perto... Mas não deu. E nossa primeira reação, qual foi? Engana-se quem diz que foi protestar. 

Antes mesmo de irmos cumprimentar o Rad nos juntamos e começamos a aplaudir um ao outro, reconhecendo o valor do time e a batalha de todos ali.

O Rad foi muito bem, assim como nós. Eles talvez tenham tido um desempenho individual melhor, mas não tenho dúvidas de que o melhor coletivo da Copa foi o Bayern. Uma pena, mas só de chegarmos à final e não perdermos já valeu muito.

Sou um cara de sorte por ter tido grandes caras ao meu lado. Meu muito obrigado pelo orgulho proporcionado a: Stein, Flavio, Edmilson, Gui, Silvio, Amarelo e Obede. Espero que possamos jogar juntos muitas outras vezes (e na próxima dar uma bicuda bem no meio do Portes).

Veja a disputa de pênaltis na íntegra e a reação do Bayern ao fim em http://t.co/YoHRaTDOUE

Um comentário:

Blog do Zago disse...

Cara, muito bom!!

Na próxima vez eu aceito convocação!!

Abraço!!