sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Netzer, o primeiro playboy da Alemanha

Foto: Vebidoo.de
Günter Netzer foi um dos primeiros playboys que o futebol produziu. Em pleno auge da era das discotecas, o talentoso meia que foi revelado no Borussia M´gladbach desfrutou de imenso sucesso na Alemanha e se consolidou como estrela da Bundesliga.

Se você fosse adorado pelo seu povo, idolatrado pela torcida e ainda respeitado pelos adversários, provavelmente se comportaria como Günter Netzer. O meia nascido em M´gladbach e que ficou famoso jogando pelo time de sua cidade natal provou de tudo que os anos 70 poderiam oferecer. Popstar, craque e com pinta de astro do cinema americano: ele não poderia querer mais nada da vida além de badalação.

Dono de discoteca, sempre bem vestido, vaidoso e desfilando com carros caros pelas ruas de Mönchengladbach, Günter carregava consigo a imagem de um atleta absolutamente bem sucedido, referência da sua geração e que também foi precursor do estilo boleiro, de ostentação.

Depois de jogar 10 anos no Bökelberg Stadion e de fazer do M´gladbach sair da condição de um time de segunda divisão para ser campeão alemão e ainda bater de frente com o Bayern, Netzer abandonou a braçadeira de capitão e rumou para a Espanha, onde defenderia o Real Madrid.

Seu currículo era respeitável: bicampeão da Bundesliga, campeão da Copa da Alemanha e vice da Copa UEFA. De 1963 a 73, foi o maestro regente da orquestra que ainda tinha Berti Vogts, Allan Simonsen, Jupp Heynckes, Rainer Bonhof e outros dinossauros dos anos 70.

Foto: NDR.de
Chefe do próprio chefe
Em campo, foi um excelente passador e um jogador decisivo pelos times que jogou. Tão decisivo que era praticamente o dono da equipe do M´gladbach que venceu a Copa da Alemanha em 73 diante do Köln. foi barrado do jogo pelo técnico Hennes Weisweiler, que o deixou no banco para aquela decisão, alegando que seu pupilo tinha problemas físicos.

Revoltado, Netzer se recusou a entrar em campo e pediu para ser vendido. Uma longa conversa com o plantel o convenceu de que deveria ao menos ficar no banco. Depois do intervalo, foi chamado pelo professor, mas sinalizou que não o faria. Quando viu que a partida iria para a prorrogação (estava empatada em 1 a 1), simplesmente tirou seu agasalho e comunicou Weisweiler que entraria. Assim mesmo, mandando no próprio chefe. No seu segundo toque na bola, marcou o gol da vitória dos Potros.

A verdade é que Günter nunca foi lá um cara muito de grupo, sempre encarou os seus interesses particulares antes do coletivo. O que não quer dizer que ele não tenha sido importantíssimo para o M´gladbach nesse caminho até a glória.

Foto: Bild
A latinha da discórdia
Outra história que envolve Netzer (no caso, a sua maior frustração) aconteceu em 1971-72, nas oitavas de final da Copa dos Campeões da Europa, contra a Internazionale. No Bökelberg, um atropelamento: 7 a 1 para os alemães, com dois gols de Netzer, dois de Heynckes, dois de Le Fevre e um de Sieloff. Boninsegna marcou o gol de honra dos nerazzurri e foi atingido por uma latinha de Coca-cola. Esse ato fez com que a UEFA anulasse a vitória do Borussia e invertesse o mando para o Giuseppe Meazza, uma semana depois. A Inter venceu por 4 a 2. Na volta, outra vez no Bökelberg, um empate por 0 a 0 classificou os italianos. Malditos vândalos.

De malas prontas para o Real Madrid, Günter viajou para ganhar mais uma bolada de dinheiro ao lado do compatriota Paul Breitner, que chegaria no ano seguinte, em 1974. No Bernabéu, venceu dois campeonatos espanhóis e duas Copas do Rei. Encerrou sua carreira no Grasshopper, em 77.

Depois de sua aposentadoria, o futebol alemão ainda demorou vários anos para se desvencilhar do estigma de sério, metódico e quase matemático. Se alguém saiu desse mundo engessado e tedioso foi Netzer, ao posar com seus carros e tomar conta de suas boates em M´gladbach. Nada como ser pioneiro.



Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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