segunda-feira, 24 de março de 2014

Isso é Copa: Os 22 minutos mais camaroneses dos Mundiais

Foto: Daily Mail
No jogo mais importante da história da seleção camaronesa em Copas, a Inglaterra sofreu para retomar a vantagem nas quartas de final do Mundial de 1990. Entre o gol de Ekéké até o empate e a virada por Lineker, o jogo foi alucinante para os africanos.

Favoritíssima no San Paolo no dia 1º de julho de 1990, a Inglaterra tinha Camarões pela frente, já tendo em vista o passaporte para as semifinais. O problema é que os Leões Indomáveis não estavam dispostos a vender a vaga com tanta facilidade. Para quem já tinha derrotado Argentina, Colômbia e Romênia, eliminar os campeões de 1966 parecia só mais uma traquinagem.

Com a diversão que só um grupo de crianças arteiras poderia proporcionar, os africanos desfilaram sua irreverência para peitar a seriedade e a tradição dos ingleses. Devendo há muito, a equipe treinada por Bobby Robson precisava apresentar resultados naquele torneio. 

Eles só não esperavam que os camaroneses reagissem de forma tão agressiva, usando de sua velocidade, dribles e ousadia. Muitas chances criadas até que David Platt foi às redes aos 25 minutos de jogo, deixando a situação de Robson e seus pupilos consideravelmente mais tranquila. A inocência da defesa de Camarões era tamanha, que qualquer cruzamento ou chegada com espaço na área de Thomas N'Kono seria letal. 

Foto: Daily Mail
O início de uma saga
O chão se abriu para os europeus quando depois de tanta pressão, a reviravolta tornou o passeio em pesadelo na cidade de Nápoles. De repente, após o intervalo, o técnico dos Leões, Valeri Nepomniashchi encontrou um discurso que mexesse com o brio de cada um dos 11 em campo. Os reis  africanos  da selva entraram para devorar os adversários. 

Camarões trocava passes entre os zagueiros da Inglaterra e brincava de bobinho. O ritmo estava demasiadamente feroz quando um defensor cometeu pênalti em Milla. Kundé converteu e o sonho pareceu possível. As batidas no bumbo marcavam o tempo, que corria desesperado tentando alcançar Makanaky, um dos mais atuantes em campo. Pois o tempo, como uma unidade de medida da resistência e da determinação das duas seleções, jogou a favor dos camaroneses.

Ekéké jogou em Makanaky, passou para buscar perto da intermediária esquerda. Eles tabelaram e Milla recebeu, carregou até a entrada da área e soltou na hora certa para Ekeké, que veio de trás. Com classe, o meia tocou por cima de Shilton e virou. Toda a África cantava no mesmo tom, empurrando seus irmãos camaroneses. E eles corresponderam a essa vibração agredindo os ingleses com a sua insolência, trocando passes como quem toma um chá ou joga uma pelada de churrasco.

Foto: AT Digital
Omam-Biyik quase fez um golaço quando em nova triangulação, recebeu de cara para Shilton e completou de calcanhar. O goleirão inglês salvou e tocou para escanteio. Na lateral, o Bobby Robson estava em pânico, sabia que pediriam sua cabeça na Inglaterra caso a eliminação viesse com esse requinte de humilhação.

Platt perdeu um gol feito ao sair na mesma condição de Biyik durante a virada dos Leões. A bola passou raspando na trave. Querendo mostrar o peso de sua camisa, a seleção inglesa reagiu e colocou a cabeça no lugar. Lineker achou um espaço na defesa e quando partiu para dominar a pelota, levou uma solada. Pênalti. Gol. 2 a 2, tudo igual, mais drama em Nápoles.

Só a prorrogação resolveria a situação tensa que se via em campo. Com o passar dos minutos, virou uma questão de vida ou morte, de atacar com todas as forças, defender como se qualquer vacilo fosse provocar o fim. Shilton teve grande atuação no tempo extra, salvando a Inglaterra em várias ocasiões. Camarões tinha aquele algo a mais para doar quando os oponentes estavam cansados da batalha.

Foto: Wired 868
Lineker puniu os camaroneses outra vez com o próprio veneno: as saídas em velocidade. Sozinho, o atacante invadiu a área e foi atropelado pelo goleiro e por Massing. Outro pênalti. Era o fim do brilho de Milla e seus companheiros. O mesmo Lineker ainda desperdiçou uma grande chance no segundo tempo da prorrogação.

Para quem já tinha chegado tão longe, perder para a tradicional seleção inglesa não foi de forma alguma motivo para se abater. A valentia dos Leões foi recompensada com um lugar na história como uma das melhores equipes africanas dos Mundiais. Quem viu N'Kono, Makanaky, Ekeké, Omam-Biyik, Libiih e Milla, sabe que aquele verão em 1990 não foi obra do acaso. E que se a Inglaterra perdesse, seria mais mérito de Camarões do que propriamente um fiasco. Mas a história, como bem sabemos, não terminou assim...

Felipe Portes ainda é estudante de jornalismo, tem 24 anos e é o dono e criador da Total Football

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.


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