quinta-feira, 20 de março de 2014

O menino de ouro

Foto: Gazeta
Ao assinar com o Palmeiras em 1997, Alex deu um grande salto para entrar no grupo dos maiores jogadores do clube paulista. Deixando o Coritiba com status de promessa do futebol brasileiro, se tornou realidade nos anos seguintes. Cresceu demais, e com o tempo, passou a ser chamado para a Seleção. 

Injustiças à parte, Alex poderia muito bem ter jogado um Mundial, mas isso é bem mais uma falha do torneio e de quem convocou o Brasil em 2002 do que do atleta, que estava em grande fase e participou de quase todos os compromissos nas Eliminatórias naquele período.

Em 1995, quando ainda engatinhava como profissional pelo Coritiba, Alex já despontava com seus chutes, dribles e passes milimétricos. Na equipe principal do Coxa, não demorou para ser cobiçado por outros times do país. O Palmeiras ofereceu um contrato e levou, enxergando no meia um grande valor para o futuro. A aposta no jogador seria compensada em curto espaço de tempo. 

Foto: Salto Alto Futebol Clube
Logo o casamento com o Verdão engrenou e os seus gols ganharam o Brasil e a América. Ergueu uma Copa Mercosul, uma Copa do Brasil, uma Libertadores e conquistou definitivamente o carinho da torcida palmeirense. Vez ou outra era acusado de sumir em campo, mostrando sua mortalidade como atleta.

Conseguia ser genial, fazia esquecer em poucos lances a corneta de quem nunca estava satisfeito com o seu desempenho. No geral, fica difícil contestar o trabalho do paranaense num período tão glorioso no Parque Antarctica.

Apesar de ter decidido o duelo contra o River Plate na semifinal da Libertadores de 99, o seu momento mais memorável com a camisa alviverde aconteceu no dia 20 de março de 2002, contra o São Paulo, pelo Torneio Rio-São Paulo: chapelou um zagueiro e Rogério Ceni para marcar um gol de placa, a única denominação possível para a sequência de movimentos que culminaram na vitória de 4 a 2 sobre o Tricolor, em pleno Morumbi.

Foto: Bloguerreiro
Anos celestes
Já em 2000, Alex ameaçava deixar o clube. Com passagem breve no Flamengo antes da despedida final no Verdão em 2002, o meia ficou alguns meses no Parma até que recebeu novo convite do Cruzeiro, que já havia defendido em 2001 e dispensado pelo técnico Marco Aurélio. Ficou dois anos na Toca da Raposa, onde virou capitão em 2003 e conduziu a equipe mineira até a Tríplice Coroa com a conquista do Brasileirão, Copa do Brasil e Campeonato Mineiro. 

Foto: Jornalismo FC
O maestro em Istambul
Respeitadíssimo em Minas Gerais pela façanha com o Cruzeiro, o carequinha não ficou até o segundo semestre de 2004 e acertou com o Fenerbahçe, para ser um dos maiores ídolos da história dos turcos. Ganhou até estátua ao fim dos oito anos gastos no estádio Sukru Saracoglu. Foram 185 gols pelos Canários até 2012, quando o meia se desentendeu com o técnico Aykut Kocaman. 

Ainda hoje se fala na Turquia que a desavença entre os dois era ciúme do comandante, que temia ter sua marca de artilheiro ultrapassada pelo brasileiro. Durante quase uma década, Alex foi o cérebro do Fener. Ganhou três vezes a Liga turca, teve atuações boas na Liga dos Campeões e ajudou a consolidar a equipe em competições europeias, aparecendo sempre no cenário internacional e por algum tempo roubando o lugar que era do Galatasaray.

Quando vestia a camisa azul e amarela, era como se estivesse dando uma aula. A maturidade com a bola nos pés impressionava. Era um especialista em fazer a torcida ir ao delírio, vibrava e mostrava aos adversários a maneira correta de marcar um gol ou dar uma assistência. Era sempre muito fácil jogar ao seu lado. 

Foto: De Dentro do Gol
Primeiro e último amor
Disputado por vários clubes brasileiros em 2012, quando anunciou a tão esperada rescisão de contrato com o Fenerbahçe, Alex não teve dificuldade em escolher o Coritiba, onde tudo começou. Entre Cruzeiro, Coxa e Palmeiras, ouviu o seu lado sentimental. Sua primeira competição foi o Paranaense de 2013, vencido em cima do Atlético Paranaense e resultando numa taça que ele não tinha conseguido em sua primeira passagem pela agremiação.

Atrapalhado por lesões, o camisa 10 não teve uma temporada tão incontestável quanto era esperado. Quando esteve presente, fez a diferença, mas sofreu com a maratona de jogos e o desfecho quase foi trágico para o Coxa, que lutou até o fim para evitar o rebaixamento no Brasileirão. Os problemas internos quase implodiram o time do Alto da Glória, cenário que persiste até hoje.  

Engajado na causa do Bom Senso Futebol Clube, que luta por melhores condições no futebol brasileiro, Alex é voz ativa no movimento. Ele pode não ser o primeiro e provavelmente não será o último atleta a utilizar sua imagem e ideologia para provocar uma mudança na estrutura do esporte no país, mas certamente é um dos mais notáveis.

Alex em ação pelo Palmeiras na semifinal sul-americana contra o River, em 1999
Foto: Estadão
Em 2014, chegou ao seu milésimo jogo na carreira, carregando o Coritiba nas costas durante o Estadual. Grande responsável por armar e concluir as ofensivas da equipe, traz consigo a esperança de um ano menos turbulento para a torcida coxa branca. Conforme a caminhada se aproxima do fim, uma grande pergunta segue no ar: por que Alex nunca disputou uma Copa do Mundo? A resposta mais cabível parece aceitar que a Seleção brasileira foi a maior perdedora neste caso. 

Pelo sim e pelo não, o menino de ouro de Curitiba tem pouco a se arrepender, dado o fato que a ausência em Mundiais não influi no grande jogador que ele foi e ainda é em campo. A Seleção já consagrou nomes médios e foi esnobada por outros irrelevantes. É no mínimo cruel que Alex tenha sido esquecido em seus momentos mais sublimes no esporte.

Fosse o futebol uma modalidade integralmente justa, caberia uma discussão nesse sentido. Como não é, sigamos aplaudindo cada gol do "Cabeção". A torcida certamente não se importará com essa incoerência histórica. A ela, só interessa viver das lembranças que o camisa 10 suscita nos gramados de Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte ou Istambul. 

Alexsandro de Souza
Nascimento: 14 de setembro de 1977, Curitiba
Posição: Meia
Clubes: 1995-97 e 2012 Coritiba, 1997-2000, 2001 e 2002 Palmeiras, 2000 Flamengo, 2001 e 2002-04 Cruzeiro, 2002 Parma, 2004-12 Fenerbahçe
Títulos: Copa Mercosul 1998; Copa do Brasil 1998 e 2003; Copa Libertadores 1999, Torneio Rio-São Paulo 2000; Campeonato Brasileiro 2003, Campeonato Mineiro 2003 e 2004; Campeonato Turco 2005, 07 e 11; Copa da Turquia 2012
Participações em Copas: nenhuma

Felipe Portes ainda é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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