segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Descraques: Bruno N´Gotty

N´Gotty comemora tento na final da Taça das Taças UEFA de 1996 (Le meilleur de PSG)
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Era um daqueles brucutus que surgiam aos montes na França nas décadas de 1980 e 90. Da mesma escola de Desailly, Leboeuf, Blanc e Angloma (quando digo da mesma escola, não entenda graduado com nota 10), Bruno N´Gotty foi um dos caras mais superestimados que passaram pelos gramados europeus nos últimos vinte anos. 

Na base do Lyon começou a ganhar espaço. Em era de vacas magras do Gerland, tornou-se referência na cozinha do OL, demonstrando bom poder de marcação, posicionamento e chegada firme, com consciência. Características de um bom beque. Permaneceu por lá até 1995, quando assinou com o último grande PSG que reinou na França.

A força e os demasiados carrinhos (muitas vezes terminando em falta) foram fazendo a fama de Bruno, que no papel de zagueiro fazia boa participação, afinal, ninguém espera que defensores desarmem os seus oponentes e peçam desculpas, levem flores. Construindo uma reputação em cima da sua capacidade de combater os atacantes, N'Gotty já fazia parte da seleção francesa em 1994, embarcando logo após o grande fiasco de Les Bleus ao não se classificarem para o Mundial dos EUA, quando a Bulgária levou a última vaga com gol de Kostadinov.

Inegavelmente o futebol francês estava em uma nebulosa. Os seus clubes por nada brigavam quando fez-se a exceção na Taça das Taças UEFA, em 1996. A vitória parisiense frente o Rapid Vienna de Trifon Ivanov, com gol de N'Gotty, representou o ponto alto da carreira de um atleta que depois experimentaria o ostracismo.

Perdendo espaço no selecionado nacional em 1997, conseguiu uma transferência para o Milan, que mais parecia uma Torre de Babel na ocasião. 14 estrangeiros e estrelas internacionais figuravam entre o plantel rossonero que venceu a Serie A. Não conseguindo convencer, Bruno fez apenas 25 aparições antes de ser repassado ao Venezia, onde fracassou vergonhosamente na tarefa de dar segurança ao setor defensivo, inclusive protagonizando um gol de calcanhar contra a Roma. Detalhe, a bola balançou as suas próprias redes.
Num momento de Whitney Houston nas traves
do Milan, N'Gotty sofre... (Maglia Rossonera)
Daí em diante foi só tristeza, quase uma canção do Roupa Nova no dia dos namorados, quando a sua garota te deixou na saudade dias antes ao te trocar pelo Ricardão do Corolla. Voltou ao Milan em 2000 e quase não entrou em campo. Era hora de um retorno ao seu país de origem (ainda que a ascendência de N'Gotty seja camaronesa), para jogar pelo Marseille. Uma temporada serviu para que o OM se livrasse do pobre rapaz, que acabou rumando ao Bolton em 2001/02.

Certo tempo depois, aquela segurança no início da carreira já não era mais a mesma. De 2001 até 2006 o francês ficou no Reebok Stadium, quando o treinador Sam Allardyce o dispensou e disse que não mais contaria com os serviços de Bruno para a sequência do trabalho. Aliás, nessa mesma leva de dispensa, foi também o lendário nigeriano Jay-Jay Okocha, sim, ele mesmo.

Acumulando mais passagens por Birmingham, Leicester e Hereford, N'Gotty encerrou sua carreira sem uma grande trama, um grande campeonato, uma grande história para se contar. Talvez aquele título da Serie A no qual foi figurante, o gol em final de competição europeia. Ainda sim, seus netos dificilmente acreditarão nessa história.



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