quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fomos campeões: Bayer Leverkusen 1987-88

Erick Ribbeck ao lado de Cha-Bum-Kum: Bayer não é tão derrotado como sugerem (UEFA)
Felipe Portes, @portesovic
De um filme de suspense-SP

Quando se fala em Bayer Leverkusen, logo se associa a imagem de um clube azarado, amarelão, fama adquirida nos últimos anos, especialmente na década de 2000. Experiente no quesito "perder campeonatos para si mesmo", a equipe germânica levantou um caneco internacional em 1988, acredite. Vencendo a extinta Copa UEFA em 1988, os rapazes da farmácia entraram no seleto grupo de clubes alemães a ter conquistas continentais.

O sexto lugar na Bundesliga ao fim de 1986/87 credenciou os rubronegros a disputarem a segunda competição mais relevante de clubes na Europa. Na teoria, não era lá um plantel de botar medo nos adversários. Na prática, muito menos (risos). Capitaneados pelo já veterano Wolfgang Rolff, com passagens por Hamburgo, Colônia, Strasbourg e Karlsruhe, o Bayer ainda tinha como trunfo o já famoso Tita (ele mesmo), o grego Minas Hantzidis e o pioneiro coreano no velho continente, Cha Bum-Kum.

No primeiro embate ainda na rodada inicial (eliminatória em dois jogos), fora de casa contra o Austria Viena, um 0-0 insosso. Para a segunda perna do confronto, no Ulrich Haberland Stadion (atualmente com o nome BayArena) a surpreendente arrancada. 5-1 nos vizinhos vienenses foi o ticket alemão para a próxima fase. Representando bem o país ao lado de Borussia Dortmund, Monchengladbach e Werder Bremen, os rapazes da farmácia teriam pela frente o Toulouse de Yannick Stopyra e Dominique Rocheteau, ambos presentes no Mundial de 86 onde Les Bleus foram derrotados pela National Mannschaft nas semifinais.

Foi osso duro de roer. Empate na bacia das almas por 1-1 no Municipal de Toulouse. As principais equipes francesas viviam seus últimos suspiros de glória fora de seu território. Que dirá o Marseille, campeão da Liga dos Campeões, anos depois. O pingo de esperança de Les Pitchouns (os garotos, em francês) se esvaiu quando o Leverkusen conseguiu a vantagem mínima em seus domínios, deixando pelo caminho o último competidor oriundo da França, já que o Auxerre havia sido derrotado já na primeira fase.

O grau de dificuldade ia aumentando cada vez mais, afunilando e separando os grandes candidatos das zebras. Na terceira fase já não era fácil para ninguém, exceto para Barcelona e para o Werder, que duelavam contra Flamurtari Vlore, da Albânia, e Dinamo Tblisi, da Geórgia [ainda integrante da URSS], respectivamente. E convenhamos, foi tarefa fácil passar destes obstáculos. Agora, para o Bayer, era hora de tentar a sorte contra o Feyenoord, sem grandes nomes memoráveis. O equilíbrio prevaleceu na peleja marcada para o De Kuip, em Roterdã. 2-2 foi um resultado justo para dois oponentes que buscaram o ataque.

Era também chegado o ponto para o treinador Erick Ribbeck pensar sobre a postura adotada pelos seus comandados. Sem apresentar todo o seu potencial longe de casa, o técnico tratou de focar na defesa, em não levar mais tantos gols, colocando em risco a participação da equipe no torneio, visto que o saldo de gols nas duas pernas poderia fazer a diferença. Assim se fez, e na Alemanha, para o retorno contra os holandeses, o Leverkusen deixou o seu modesto gol e administrou a situação para às quartas de final, contra o Barcelona.

Como sempre, os blaugrana tinham um elenco forte, consistente e com certo toque de seleção, com seus craques de nível internacional. Andoni Zubizarreta, Bernd Schuster, Gary Lineker, Steve Archibald e Mark Hughes eram as estrelas da companhia. Não como nesta edição da LC, os espanhois tiveram mais trabalho para tentar vencer o lado germânico. Invertendo as lições de Ribbeck, o Leverkusen empatou sem gols em casa e partiu para jogar o tudo ou nada no Camp Nou, palco de lendários confrontos desde que o futebol é futebol.

No entanto, a estrela de Tita brilharia para decidir o vencedor daquele encontro. Ele havia sido campeão mundial pelo Flamengo em 1981 e em 1983 pelo Grêmio, quando chegou ao Leverkusen em 1987 e só ficou por lá justamente durante o período que conquistou o caneco desta Copa UEFA. Numa tarde onde a torcida do Barça não marcou presença, o cotejo era truncado, bem marcado e sem muitas chances. Aos 59', o atacante brasileiro marcaria o gol solitário para o lado alemão, que enfrentaria um rival do próprio país na semifinal.

A tendência para testar os torcedores cardíacos continuava no estilo do Leverkusen. Alois Reinhardt balançou as redes do Bremen aos 61', iluminando uma partida complicadíssima na BayArena. Ribbeck estava satisfeito, pois jogando feio ou não, o bom trabalho aparecia, os bons resultados eram fruto de consistência e o rubronegro mal sofria gols. No Weser Stadion, novo empate sem gols e a vaga na decisão para enfrentar o Espanyol, que superou o Club Brugge na outra chave de semifinal.

Losada sobe de cabeça para marcar o primeiro do Espanyol, no jogo de ida (The trequartista)
Final equilibradíssima só vê vencedor nas penalidades
Veja bem, o Espanyol não era lá um adversário fácil de ser batido. Treinados pelo polêmico Javier Clemente, os blanquiblaus desmontaram o sistema defensivo quase infalível do Bayer, marcando três gols com Losada (2) e Soler. A retaguarda espanhola também era consistente, com Golobart, Miguel Ángel, Santiago Urquiaga e José Maria Gallart, sem falar no excelente e lendário arqueiro camaronês Thomas N'Kono. O placar de 3-0 no Sarriá foi um duro golpe na confiança de Ribbeck e seus comandados, mas ainda haviam 90 minutos de jogo em casa.

Era 18 de maio de 1988, e o clima era de preocupação. Tendo de reverter a desvantagem, o Bayer entrou em campo para fazer uma atuação épica afim de sair de campo com o troféu. Foi-se todo um primeiro tempo tenso e com pressão em cima da defesa espanhola. Foi preciso 11 minutos da etapa final para que Cha Bum-Kum partisse pela direita e fizesse o cruzamento. Golobart domina e ao sair jogando, se atrapalha e não vê Tita se aproximar para dar um toque e inaugurar o marcador. Visivelmente com pressa, o brasileiro correu com a bola para o meio campo, não havia tempo para comemorações. Minutos depois, foi substituído por Klaus Täuber e viu do banco de reservas o desfecho dramático.

Com maestria, Täuber recebe na esquerda e dispara. Em certo ponto mira o cruzamento e manda a bola com força para a área. Falko Götz mergulha e cabeceia para fazer o segundo, aos 63'. Ainda faltava um. De forma heróica em falta cobrada por Rolff, o coreano Cha sobe mais alto que os oponentes e dá números iguais à decisão em Leverkusen. Teríamos penais para definir o vencedor.

Pichi Alonso cobrou e colocou o Espanyol na frente. Ralf Falkenmayer desperdiçou a primeira cobrança para o Bayer. Job converteu e Rolff também fez sua parte. A história mudaria ali. Urquiaga carimbou o travessão e Herbert Waas marcou, igualando as penalidades. Malandro, Rüdiger Vollborn intimidava os adversários com tímidas dancinhas (emulando Bruce Grobelaar em 1984). Manuel Zuñiga chutou mal e o guarda metas alemão defendeu, no meio do gol. Täuber também converteu seu tiro e deixou nos pés de Sebastián Lozada, o artilheiro do rival, o peso de definir a disputa.

Nova provocação de Vollborn fez com que o atacante mandasse a bola pelo alto, dando a taça aos germânicos, que tanto foram eficientes na sua defesa e cederam apenas cinco gols ao longo do certame. Esse feito fica lembrado como o primeiro triunfo do Neverkusen, que depois disso só venceria em 1993 a DFB Pokal.

Vollborn foi essencial para a vitória nos penais (Spox.com)
Bayer: Vollborn, Rolff, Seckler, Alois Reinhardt, Knut Reinhardt, Schreier (Waas), Bunkol, Falkenmayer, Cha Bum-Kum, Götz e Tita (Täuber). Téc: Erick Ribbeck

Espanyol: N'Kono, Miguel Ángel, Golobart (Zuñiga), Urquiaga, Gallart, Job, Orejuela (Zubillaga), Iñaki, Soler, Alonso e Losada. Téc: Javier Clemente

Todos os jogos do Bayer:
 Primeira Rodada
Austria Viena 0-0 Bayer
Bayer 5-1 Austria Viena

Segunda Rodada
Toulouse 1-1 Bayer
Bayer 1-0 Toulouse

Terceira Rodada
Feyenoord 2-2 Bayer
Bayer 1-0 Feyenoord

Quartas de final
Bayer 0-0 Barcelona
Barcelona 0-1 Bayer

Semifinal
Bayer 1-0 Werder
Werder 0-0 Bayer

Final
Espanyol 3-0 Bayer
Bayer 3-0 Espanyol (3-2) (p)



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