quinta-feira, 1 de março de 2012

Stojkovic, o filho mais ilustre de Nis

Foto: The Guardian
Capitão de uma geração, Dragan Stojkovic conciliou seu talento dentro de campo com o engajamento político fora dele, se tornando um ícone sérvio em tempos duros de separatismo e guerras civis na Iugoslávia

Ele dominava a bola como se estivesse tomando um chá em família num domingo de manhã. A bola vinha rápida e pelo alto, parava na sua coxa. Ele então dava mais uma petecada e fazia um passe com a maior tranquilidade. Com ele, naquele dia, o tempo ficou devagar, pois Piksi estava em outra dimensão.

Não que fosse contra um adversário qualquer, já que a Iugoslávia enfrentava a Alemanha em plena Copa de 1998 na França. Numa bola cruzada na área, Köpke espalmou mal e o camisa 10 aproveitou para completar uma atuação quase fantasmagórica. Gol da Iugoslávia. Gol de Stojkovic.

Apelidado de Piksi por causa de um desenho que via na infância, o rapaz nascido na região de Nis, antiga Iugoslávia e atual Sérvia foi construindo toda uma reputação nacional no clube de sua cidade natal, o Radnicki. Lá no longínquo ano de 1981 deu seus primeiros passos como profissional e ficou até 1986 na equipe, antes de ingressar no Estrela Vermelha, com o qual criaria uma ligação para toda a vida.

Poucos foram tão notáveis e idolatrados. Após a separação da Iugoslávia, o orgulho nacional era cada vez mais exaltado. Croatas agora eram bandeiras de seu país, sérvios e montenegrinos ainda eram uma nação só, e os bósnios ainda lutavam por independência. Acontece que este povo que costumava dividir a mesma terra, as mesmas crenças e esperanças, aprendeu a guerrear por suas causas próprias, ideologias que no fim não eram compatíveis com outras etnias, o que pode ser visto até hoje nos noticiários.

Com a bola, Dragan era íntimo. Era companhia inseparável. Nos grandes tempos, a controlava como os grandes gênios faziam. A sabedoria de cada movimento, de cada toque e o rumo que ela tomava. Uma relação de mestre e pupilo. A partir dos primeiros jogos na equipe principal do Radnicki já mostrava a sua superioridade. Ágil e com reflexo apurado, passava pelas defesas como se elas nada pudessem fazer além de esperar a definição do lance. 

Piksi se destacou por ter como qualidades principais os atributos que o futebol exigia na sua época. Passe quase cirúrgico e velocidade para armar as descidas. Quando não começava algum contragolpe, se encarregava de levar a bola até as redes, enfileirando os adversários ou com seus característicos chutes. Participou da transição do Estrela Vermelha como uma das principais forças do continente no início da década de 1990. No Marakana venceu dois campeonatos iugoslavos e a honraria de melhor atleta da competição em 1988 e 89.

Foto: The Inside left
Do outro lado do sonho europeu
Ironicamente, deixou o clube de Belgrado antes de sua maior glória, a Liga dos Campeões em 1991. A parte trágica da negociação foi justamente ter de enfrentar seu ex-time na decisão do certame. Os sérvios derrotaram o OM nas penalidades.

O Marseille vinha investindo pesado em craques internacionais para quem sabe conquistar o primeiro triunfo europeu de selecionados franceses. Investimento esse que resultou de fato no título da LC em 1993, quando Stojkovic e seus comparsas venceram o Milan por 1-0. Entretanto, foram constatadas irregularidades na campanha, um escândalo de arranjo deliberado em alguns resultados (a denúncia partiu de jogadores do Valenciennes, que alegaram ter sido procurados por dirigentes para facilitarem a vida dos jogadores marselhenses afim de evitar desgaste físico para duelos decisivos na Europa). Anos depois, Bernard Tapie, presidente do Olympique na ocasião, foi preso por diversas fraudes na França. Entre elas, sonegação de impostos.

O começo foi difícil no Vèlodrome. Fez 11 aparições sem muito brilho antes de ser emprestado ao Hellas Verona. Estava sem espaço no plantel francês, competindo com os já estabelecidos Abedi Pelé, Alain Boghossian, Jean Tigana, Bruno Germain e Laurent Fournier. Nas mãos de Franz Beckenbauer, não rendia e foi preterido pelo manager alemão. Em seu período na Itália, serviu apenas para a metade da temporada de 1991/92.

Desventuras iugoslavas em Copas: uma braçadeira e o número 10
Já importantíssimo para sua seleção desde meados dos anos 1980 (participou das Olimpíadas de 84 e 88, além da Euro 84 e das Copas de 90 e 98). Capitão de uma geração brilhante, foi ícone durante anos difíceis das nações ex-iugoslavas, vendo de perto a formação da forte seleção croata e das constantes mudanças nos elencos. Contracenou com peças como Robert Prosinecki, Robert Jarni, Davor Suker, Safet Susic, Dejan Savicevic e Darko Pancev, todos separados conforme os anos passavam.

A volta ao Marseille em 1992 foi frustrante. Lesões e pouco aproveitamento minaram a vida de Dragan dentro dos vestiários. Sua última temporada na França foi 1993/94, com 18 partidas e cinco gols. A sensação de que tudo havia caminhado para o lado errado tomava a cabeça do já veterano Piksi, que beirava os 30 anos. Considerou parar com o que estava fazendo, além de outras propostas interessantes financeiramente. Resolveu tomar o caminho que outro famoso camisa 10 havia escolhido de forma bem sucedida. Assim como Zico, o sérvio partiu para tentar a sorte no Japão, mais precisamente no Nagoya Grampus, disputando a elite da emergente J-League.

Engajado socialmente, protestou contra a OTAN,
que se envolveu na questão bósnia
em meados dos anos 1990
(Arhiva srbija.gov)
Iniciando uma nova fase na carreira e na vida pessoal, embarcou para o Japão em 1994. No ano seguinte já começou a experimentar do sucesso sob o comando de Arsène Wenger no Nagoya. 1995 foi o ano da consolidação como principal nome na liga, colecionando menções nos onze melhores jogadores, além da boa média de gols e partidas realizadas. Idolatrado pela massa japonesa que se impressionava com as suas peripécias já com idade avançada, Dragan venceu a Copa do Imperador em 95 e 99.

Uma Holanda no meio do caminho; os passos finais
No domingo do dia 21 de junho de 1998, o estádio Félix Bollaert recebeu um duelo vital no grupo F da Copa do Mundo. Em Lens, Alemanha e Iugoslávia brigavam pela liderança da chave. Durante todo o jogo, os eslavos ficaram na frente do placar. E naquela tarde, quem atraiu as atenções foi Stojkovic.

Mostrando grande forma, dominou os adversários e passeou em campo, criando quase todas as iniciativas da sua equipe e ainda chegando bem para finalizar. Mijatovic abriu o placar no primeiro tempo e o próprio Piksi se encarregou de ampliar. Quis o destino que Mihajlovic fizesse um gol contra e que Bierhoff empatasse nos minutos finais. O encanto iugoslavo não iria muito longe naquele mundial. Nas oitavas, pararam na Holanda com uma derrota de 2 a 1, num prelúdio do que veriam dois anos depois na Eurocopa.

Ainda havia o último desafio representando sua pátria: a Euro 2000, na Holanda. Carregando o fardo de comandar dentro e fora de campo o selecionado iugoslavo (que fazia sua última participação em torneios internacionais), contribuiu para que os eslavos alcançassem a fase de quartas de final, passando numa chave com Espanha, Eslovênia e Noruega. O que não esperavam era uma arrebatadora Laranja Mecânica, que aplicou um sonoro 6-1 em Stojkovic e sua corja.

Sofrendo o último grande baque, Piksi enxergou a hora de parar. Encerrou o ano e anunciou que deixaria os gramados ao fim de 2001. Mais do que o título da LC em 1993, o bicampeonato iugoslavo e as diversas conquistas particulares durante o tempo de Nagoya, venceu ao ser sempre lembrado seja por croatas, bósnios, sérvios ou eslovenos como um dos grandes que honraram a bandeira das pátrias, que anos antes eram uma só. 

Unanimidade num universo de discórdia, Dragan foi presidente e treinador da Federação iugoslava no início da década de 2000. Regressou ao Marakana em 2005 para exercer o mesmo cargo que ocupava na FSJ, por dois anos. Em 2008 assumiu o cargo de treinador do Nagoya, perto do carinho dos ensandecidos nipônicos que se acostumaram a gritar seu nome.


Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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