sexta-feira, 2 de março de 2012

Grandes jogos: Inglaterra x Argentina

Batistuta sob olhares atentos de Shearer e Southgate (UOL)

Allan Amarelo, @Allan_Amarelo
De São Paulo-SP

[Valendo muito mais do que as Malvinas]

Quando o sorteio da Copa do Mundo de 1998 cravou Inglaterra e Argentina nos grupos G e H respectivamente, não só duas das maiores potências futebolísticas pararam para analisar os rivais e os possíveis confrontos nas seguintes fases, mas dois povos, distintos e interligados por uma cultura outrora pacífica e até mesmo invejável.

A cultura britânica foi sempre muito forte pelas terras próximas ao Rio da Prata. Não é a toa que o primeiro campeonato de futebol no país vizinho tinha o nome de Argentine Assiciation Football League e o seu primeiro campeão foi o St. Andrew's Scots School. Não só o futebol interligava Argentina e Inglaterra, mas o rugby e até mesmo os colégios ingleses, onde muitos porteños (argentinos nascidos em Buenos Aires) sonhavam estudar.

A influência era forte em todos os lados, mas sendo os ingleses fundadores do mais famoso esporte-bretão, os argentinos e até mesmo italianos imigrantes no país que fundaram os primeiros clubes, tinham a necessidade de “homenagear” aos gênios que inventaram a maior paixão do homem depois da mulher (até hoje não temos certeza disso). Boca Juniors, River Plate, Newell’s Old Boys, All Boys, entre outros, foram alguns dos principais clubes argentinos que tiveram influência inglesa em seus nomes. E isso não era por ser uma moda de uma língua hoje muito falada onde cabelereiros, restaurantes, empresas de pequeno e médio porte colocam seus nomes na “língua global”. Não! Isso era simples e genuinamente cultural.

Tão historicamente ligados, Argentina e Inglaterra começaram a se dividir em 1966, quando o volante Antonio Rattin, do Boca Juniors e da seleção albiceleste, foi expulso do jogo entre as duas seleções no Mundial daquele ano. No meio da confusão que durou vários minutos, Rattin foi obrigado a sair de campo por policiais e, em protesto, amassou a bandeira inglesa, começando ali o que seria muito mais que uma guerra.

Dizem que a vingança é um prato que se come frio. Em 1982, a guerra pelas Ilhas Malvinas matou diversos argentinos e fez com que estes povos pensassem que aquele fato num longínquo mundial quase duas décadas antes, fosse um presságio do que viria. Na verdade, ninguém pode prever as maravilhas do futuro. Quatro anos depois, talvez Deus estivesse ao lado dos argentinos. E se ele não estava, certamente estava “D10S”, Diego Armando Maradona, fazendo um gol com a mão (dele mesmo?) e o mais lindo de todos os mundiais. Sim, a Argentina venceu e eliminou a Inglaterra da Copa do Mundo, mas este é um jogo para ser contado um outro dia.

Voltando ao que viemos falar, parece que o destino iria escrever – por linhas retas – que essa história ainda não podia acabar. O sorteio daquele Mundial de 1998, na França, mostrava que possivelmente Argentina e Inglaterra se enfrentariam nas oitavas-de-final. Uma festa era preparada como um banquete. A Argentina passou em seu grupo com 100% de aproveitamento e a Inglaterra cumpriu seu papel no destino. Perdeu seu segundo jogo para a Romênia e após vencer a Colômbia, classificou-se em segundo lugar e assim tudo seguia como deveria seguir.

Terça-feira, 30 de Junho de 1998, estádio Geoffroy-Guichard, Saint-Étienne. Diante de um público de 30.600 pessoas, começava mais uma batalha dessa história tão fascinante e por muitos, desconhecida. “Trapos” (faixas para os argentinos) diziam “As Malvinas são Argentinas”. A torcida gritava “Quem não pula é um inglês” e não adiantava falar que era um esporte, pois o clima definitivamente não era esse.

Com apenas seis minutos de jogo, Batistuta, de pênalti, colocava a Argentina na frente. Num chute que o goleiro David Seaman quase pegou e o camisa nove comemorou homenageando seu filho que acabara de nascer. A alegria dos argentinos era enorme, mas como tudo que é bom (dizem) dura pouco, Alan Shearer, o nove inglês, empatou, também cobrando pênalti. Um a um. E a alegria durou tão pouco, que apenas seis minutos depois, um garoto chamado Michael Owen, passa em velocidade pela defesa composta por Ayala e Chamot para acertar um lindo chute e marcar um dos mais belos gols daquele torneio. Era a virada inglesa.

Pancada de Zanetti no gol de empate argentino (Archivos de fútbol)
Porém, antes do intervalo, no último minuto do primeiro tempo, Javier Zanetti acerta um chute inesperado e empata a partida novamente. O jogo era um típico clássico entre estas duas seleções. A tensão da arquibancada ultrapassava os limites da linha do campo e penetrava em cada jogador que corria atrás da bola.

Logo no começo da segunda parte, um dos principais jogadores ingleses, David Beckham, cai na provocação do sempre vigoroso e violento, Diego Simeone e é expulso. A Argentina tinha um homem a mais e quase um tempo inteiro por se jogar. A verdade é que isso não mudou em nada, o time inglês era bravo e parecia jogar por sua rainha, os argentinos corriam, e pareciam, de novo, querer vencer pelo seu povo. E a vontade de ambos permaneceu intacta durante os noventa minutos, levando o jogo para a prorrogação.

Como é comum, o desgaste físico e mental fez com que o jogo perdesse ritmo e qualidade, e nos trinta minutos seguintes os arcos de David Seaman e Carlos Roa foram intransponíveis, levando a partida para a disputa de grandes penalidades.

A Argentina começou batendo e não tinha o seu batedor oficial, Batistura, substituído ainda na segunda parte do tempo regulamentar. Mesmo assim, Berti, com segurança, fez o um a zero. Em resposta, Shearer fez Roa de novo buscar um pênalti no fundo das redes. Seguindo, Crespo falhou e encheu de esperança os hooligans presentes no estádio. Mas o volante Paul Ince não fez muito melhor e, assim, tudo seguia igual.

Veron e Gallardo para a Argentina, Merson e Owen para a Inglaterra. A disputa estava em três a três e nem a “sorte” dos pênaltis parecia conseguir escolher um vencedor num dos mais equilibrados encontros da história das Copas.

Para as últimas batidas sobraram um zagueiro para o lado argentino e um volante daqueles bem marcador para o lado inglês. Nenhum deles parecia ter vantagem. Nenhum deles teria um craque para marcar o último. Ambas as torcidas parecia não confiar em nenhum de seus batedores, mas o destino teria que escolher um vencedor. Ayala, absolutamente aliviado, viu a bola ultrapassar a linha e balançar a rede. As esperanças inglesas estavam nos pés de David Batty, o camisa oito que havia entrado durante a prorrogação parecia ser um especialista no tiro de X metros. Mas não, a verdade é que Batty jamais havia estado numa disputa de pênaltis em toda sua carreira e ai, pela primeira vez, o destino parecia ter escolhido o seu favorito.

E como um sussurro no ouvido, este personagem - existente ou não - parecia ter falado com o goleiro argentino. Roa caiu para o lado certo e espalmou a bola chutada pelo inglês.

Os jogadores corriam, gritavam choravam. Ambos, a reação parecia a mesma, e nestes momentos vemos a diferença daquele que escorre lágrimas de alegria ou de tristeza. Mas com toda aquela rivalidade, com uma bandeira amassada, uma guerra, marcas na história, vimos que quem venceu foi o futebol, e aquela vitória, naquele momento, valeu muito mais que as Malvinas.

30 de junho de 1998 - Estádio Geoffroy Guichard, St. Étienne - Oitavas de final 

Argentina (2): Roa, Ayala, Chamot, Vivas, Almeyda, Simeone, Verón, Ortega, Zanetti, Batistuta (Gallardo), López (Crespo). Téc: Daniel Passarella

Inglaterra (2): Seaman, Campbell, Le Saux (Southgate), Adams, Neville, Ince, Beckham, Anderton (Batty), Scholes (Merson), Owen e Shearer. Téc: Glenn Hoddle

Gols: Batistuta, 5', Shearer, 9', Owen, 16', Zanetti, 45 +1

Cartões amarelos: Seaman, Ince, Verón, Simeone, Almeyda, Roa

Cartões vermelhos: Beckham


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