terça-feira, 13 de março de 2012

TF História: Ipswich e a sombra de Bobby Robson

Bobby Robson e a taça UEFA de 1981 (Site oficial Ipswich)
Felipe Portes, @portesovic
De Zlatibor-SRB

Poucos treinadores tem sua carreira atrelada a certa campanha ou time como o lendário Sir Bobby Robson. Certamente o maior nome da história do Ipswich Town (hoje figurante da Npower Championship), Bobby foi contemporâneo e rival do não menos genial Brian Clough, que deu a Derby County e Nottingham Forest seus maiores períodos de glória. Para o mal, temos outro grande exemplo como o de Béla Guttmann, campeão europeu com o Benfica e que amaldiçoou os Encarnados anos depois ao ser praticamente dispensado do comando da equipe.

Sempre com muita classe e sabedoria, Robson foi um dos grandes exemplos dentro do esporte, de que a inteligência e disposição tática faziam sim tanta diferença quanto o talento ou a superioridade técnica. Na Inglaterra, fez seu nome inicialmente como jogador. Atacante, chegou a ser convocado algumas poucas vezes para o English Team, em cinco anos. Se aposentou como atleta em 1968, assumindo de imediato o comando técnico do Fulham. 

Em 1969 seria o treinador do Ipswich, cargo que teria até 1982. Já campeões nacionais em 1962 sob a batuta de Alf Ramsey (por coincidência campeão do mundo com a Inglaterra quatro anos depois) e ainda vindos de um acesso da Segunda divisão, os Tractor Boys foram novamente rebaixados em 1964. Foi Bill McGarry o homem a tirar o clube de apuros e ganhar nova promoção em 1968. De partida para o Wolverhampton, foi substituído por Robson, que levaria a acanhada equipe ao hall das grandes forças britânicas nas décadas de 1970 e 80.

No Portman Road, não viu limites para seus pupilos. Apostando sempre em crias da base do Ipswich, pouco contratou durante sua passagem por lá. Conquistou uma Texaco Cup em 1973, uma competição que envolvia clubes do Reino Unido que não haviam se classificado para outras taças europeias. Começava ali o ressurgimento dos Tractor Boys para o futebol inglês.

Ipswich derrotou Arsenal na final da F.A Cup de 1978: Robson fez o time
ser um dos grandes no país. *O segundo à esquerda não é o Seu Madruga*
(Foto: BBC)
As louváveis e consequentes campanhas dos comandados de Robson culminaram em uma grande final frente o Arsenal em 1978 pela F.A Cup, na qual o Ipswich venceu por 1-0. Não bastasse as grandes caminhadas que por vezes incomodaram os rivais diretos e deram esperança de novos títulos da Liga aos torcedores, mais um caneco viria em curto espaço de tempo.

Com a terceira colocação no Inglês de 1979/80, a nova possibilidade de ingressar na extinta Copa UEFA. Deixando pelo caminho Aris, Bohemians Praga, Widzew Lodz, Saint-Étienne e Colônia antes da eletrizante decisão contra o AZ Alkmaar. O caneco veio após um 3-0 no Portman Road e 2-4 na Holanda. A primeira conquista internacional daquele plantel, em 1981, foi também o marco da transição de Robson na carreira. O English Team o esperava novamente.

Robson voltou a se firmar como grande treinador de clubes após a
Copa de 1990, no PSV (PSV.nl)
O mestre e seus promissores pupilos
Bobby esteve no comando da seleção inglesa nos mundiais de 1986 e 1990, alcançando as fases de quartas e semifinais, respectivamente. Logo depois da Copa na Itália, encarou a tarefa de domar o PSV, com um elenco deveras difícil de lidar, em especial Romário, que lhe confrontou algumas vezes em seu tempo por Eindhoven. Com todos estes elementos, Robson ergueu o bicampeonato holandês.

Migrou então para Portugal, onde assinaria com o Sporting em 1992. A parte interessante da história vem quando você sabe quem era o intérprete de Bobby nos Leões. José Mourinho, que somava trabalhos como assistente no Estrela Amadora e nas camadas jovens do Vitória de Setúbal era o fiel escudeiro do inglês em Lisboa.

Passando em branco pelo clube lisboeta, Robson não obteve êxito ao tentar confrontar a diretoria sportinguista, que administrava mal a política interna. Derrotado nas oitavas de final da Copa UEFA de 1993/94 pelo Casino (atual Red Bull) Salzburg, acabou sacado do comando ao fim de 1993.

Dupla com Mourinho foi bem sucedida no Porto e no Barcelona
Foto: It's the football, that's the football
Foi aí que o Porto enxergou a grande chance de manter a hegemonia no cenário nacional. Bicampeões portugueses em 1995 e 1996, os Dragões contavam com uma defesa imponente, base da seleção lusa. Além do triunfo duplo na Liga,  A parceria entre Mou e Sir Bobby vingou e representava a harmonia entre as tendências táticas de cada um dos dois. Zé, que havia começado apenas como intérprete, se tornou vital no planejamento do chefe inglês. Neste intervalo, outra cria foi surgindo nos celeiros de manager em Portugal. André Villas-Boas, que morava no mesmo prédio que Robson, fez questão de mostrar a sua capacidade ao treinador do FCP.

Villas-Boas ganhou a condição de pupilo, aos 16 anos, tomando conta de times juniores do Porto na ocasião, já que era menor e não poderia assumir funções profissionais. Fez parte de sua preparação no Reino Unido e estágio no Ipswich, que consagrou o seu mentor. Anos depois viraria braço direito de Mourinho no mesmo Porto.

Mou, Sir Bobby e Ronaldo: mais sucesso no último ato da parceria
(Mourinho fans)
Não demorou a Sir Bobby ser chamado pela alta cúpula blaugrana. Ele colhia os frutos do sucesso por onde pisava e no Camp Nou não seria diferente. Responsável pela contratação de Ronaldo, o inglês desenvolveu um plantel eficiente e levantou uma Supercopa Europeia, uma Supercopa espanhola e uma Copa do Rei no período de dois anos, que também seria sua última honraria refletida em taças.

Retornou rapidamente ao PSV, por apenas uma época. Terceiro colocado na Eredivisie, garantiu apenas uma vaga europeia aos rapazes de Eindhoven antes de realizar o antigo sonho de ser treinador do Newcastle. Por quase cinco anos ficou à frente dos Magpies de St. James Park. De 1999 a 2004 sofreu com os altos e baixos do time que ainda enfrentaria nebulosa maior com o rebaixamento em 2008/09.

Condecorado com o ingresso ao Hall da fama do futebol inglês e muitas outras formas de reconhecimento pelo papel desempenhado em mais de 50 anos dedicados ao futebol, Sir Bobby Robson faleceu em 2009 aos 76 anos, vítima de um câncer no pulmão.

Lee Bowyer: veterano e referência no elenco dos Tractor Boys
(betting.stanjames.com)
Ipswich e os intermináveis anos de frustração
O Ipswich, por sua vez, desceu a ladeira. No mesmo efeito de Clough-Forest, provou do rebaixamento e a estagnação em divisões inferiores, poucos anos depois. Sem disputar a Premier League desde 2001, os Tractor Boys convivem com a sombra de um passado dourado e brilhante. Acostumados a ficarem na parte de baixo da classificação da Npower Championship, permanecem sem perspectiva alguma de crescimento ou recuperação nos próximos anos.

Enfrentando uma falência administrativa no início da década passada, quase conseguiram o retorno em 2004/05 à Premier League, sendo eliminados nos playoffs pelo West Ham. A compra do clube por Marcus Evans, empresário inglês, em 2007 ajudou a simpática agremiação a sobreviver. Entretanto, isso não significa que haja algum sucesso em âmbito nacional, tendo em vista a ineficácia do Ipswich de bater os piores competidores na segundona, longe de qualquer briga por título.

Carentes de holofotes e motivação, os Tractor Boys atualmente vivem apenas das memórias do que foi construído por Sir Bobby, já em outro plano. Outrora campeões nacionais e da Europa, fizeram o caminho dos decadentes que só podem lutar para sair do fundo do poço. Resta esperar que um novo guia os conduza rumo à redenção, o que seria perfeitamente plausível dentro do futebol, que sempre reserva grandes surpresas.

Nenhum comentário: