sábado, 3 de março de 2012

Descraques: René Higuita

Higuita na Copa de 1990: falharia vergonhosamente jogos depois (Spox)
Principal nome da escola de goleiros colombiana (mais por sua extravagância do que por talento, propriamente dito), René Higuita é uma das figuras mais irreverentes que o futebol já viu, e o melhor, dentro das quatro linhas.

Quando jovem (sim, acredite, Higuita já foi jovem), começou sua caminhada no Millonarios, em 1985. Numa época em que Rick James fazia sucesso com suas músicas e seu comportamento duvidoso, René viu na estrela americana uma referência de visual. 

Sabendo que teria que contar com um diferencial para brilhar no futebol, resolveu deixar crescer longas madeixas e apostou na sua incrível capacidade de cobrar faltas e proteger sua meta com aquela malemolência que lhe era saliente. Assediado pelo Atlético Nacional, deixou o Millonarios em 1986 sem fazer muitas partidas. Somente em Los Verdolagas conseguiu ser notável o quanto merecia. Teve atuação crucial no Mundial sub-20 em 1985, apesar da eliminação vergonhosa da Colômbia frente o Brasil, perdendo de 6-0.

As boas defesas, as cobranças de falta e a liderança em campo foram tornando René favorito para a posição na seleção principal de Los Cafeteros. Já em 1988 conseguiu sua primeira convocação, sob a batuta de Francisco Maturana, que alternava entre ser treinador do Atlético e da Colômbia. Meses antes de entrar em campo numa Copa do Mundo, levantou a Libertadores de 1989 em cima do Olimpia. Começava ali o mito em cima do arqueiro. 

Equipe do Atlético campeã da América em 1989
(Foto: El Gráfico)
Com a decadência de Rick James e a ascensão do Metallica, Higuita passou a ser gêmeo de outro astro do rock. Kirk Hammett, guitarrista da banda californiana, um às do virtuosismo passou a ser constantemente confundido com o colombiano. Referência de pessoas que utilizavam o famigerado megahair ao fim da década de 1980/90, René criou todo um legado dos homens ovelha, sendo o mais respeitado deles (Valderrama ainda não havia estourado para o grande público). 

Quanto mais a fama aumentava, mais a audácia dava suas caras. Constantemente saía jogando com os pés, fora da área, sob pressão dos atacantes. Hábil e provocador, tentava sempre humilhar os adversários e mostrar sua aptidão para ser jogador de linha. Essa mesma mania de abusar das firulas custaria caro no Mundial de 1990, na Itália. Certamente René nunca se esquecerá do confronto com Camarões. 

Milla, esperto, desarma Higuita e faz o gol de Camarões
(Foto: Daily Mail)
A lambança de René
A Colômbia já perdia por 1-0 e encontrava dificuldades para passar do sistema (bruto) defensivo africano. Num bicão da defesa de Camarões, Higuita percebeu que tinha demasiado espaço para dominar e tentar um contragolpe. Passou a bola para Perea, que logo devolveu num momento de desespero. Quando o guarda metas dominou de novo e tentou driblar, perdeu para Milla, que disparou e mandou para as redes, quase que sacramentando a derrota de Los Cafeteros e representando uma mancha na imagem quase circense do atleta.

O futebol colombiano passava por um período conturbado. Com investimento de carteis locais, vários clubes foram impulsionados a tentar a glória internacional. A tendência tomou forma com o título sul-americano do Atlético em 1989, no qual El Loco Higuita foi uma das estrelas. Como todo envolvimento com o mundo do crime, passado certo tempo a motivação passou a ser cobrança. Tentando se livrar deste universo perigoso, René assinou com o Valladolid, fazendo companhia para o seu eterno colega Carlos Valderrama

Valderrama, Higuita e Álvarez no Valladolid:
trio colombiano fracassou na Espanha (Foto: Marca)
Em cana 
Ficou de 1992 até 1994 no Valladolid e retornou ao tão amado Atlético. Nesse intervalo, confirmaria que estava vivendo um inferno astral, muito em sua parte proveniente de seu envolvimento com Pablo Escobar, famoso dono de cartel. Um caso de sequestro em 1993, em que Higuita intermediou um resgate causou sua prisão.

O fato gerou controvérsia na Colômbia, já que ele era uma das figuras mais importantes do país. Seis meses em cana lhe custaram uma vaga no Mundial de 1994, teoria essa que ainda é obscura, tendo em vista outras circunstâncias que rondavam o selecionado cafetero. (ver segundo parágrafo)

Rebaixado com o Valladolid em 1991-92, amargou jogar pela segundona espanhola até decidir por retornar ao seu país natal. Depois do escândalo do sequestro, El Loco permaneceu em low profile até ter seu retorno triunfal. A redenção viria em 1995, contra a Inglaterra no Wembley. 

O famoso chute-escorpião
Um amistoso entre as duas seleções foi e ficará marcado por um lance em especial. Jamie Redknapp pega a sobra de um lance rebatido pela defesa e chuta de longe. Quando muitos esperavam uma defesa fácil, Higuita saltou e lançou as pernas para o alto, tocando com os pés na bola e evitando o gol. Ficou conhecida como a defesa do escorpião, um movimento que muitos já tentaram imitar (e fracassaram).

Esquecido pela seleção nacional nos anos seguintes, El Loco caiu no ostracismo e perdeu o posto de principal arqueiro colombiano para Óscar Córdoba, que aparecia muito bem no Boca Juniors. Antes de desaparecer do mundo da fama futebolística, jogou pelo Veracruz do México, Independiente Medellín, Atlético Cartagena, Junior Barranquilla, Deportivo Pereira, Aucas do Equador, Bajo Cauca, Guaros e Deportivo Rio Negro, antes de encerrar a carreira no Deportivo Pereira, em sua segunda passagem. 

Aposentou-se em 2010, numa partida amistosa onde executou pela última vez o famoso lance do escorpião.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

Um comentário:

Anônimo disse...

Existe um erro na seção "A lambança de René", ele não tocou a bola para Herrera, "El Loco" Higuita tabelou na verdade com Perea, mas fora isso está excelente o artigo.