segunda-feira, 5 de março de 2012

TF História: O primeiro gol olímpico

Foto: marcelodieguez.com.br

Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Provavelmente muito poucos sabem quem foi Cesáreo Onzari. Mas seguramente todos os fãs de futebol conhecem sua genial contribuição para a história do esporte: o gol olímpico.

É uma história que começa muito longe da Argentina, país natal do jogador. Na verdade, tudo teve sua origem em Paris, em 1924. Naquela edição dos jogos olímpicos, o mundo descobriu que na América do Sul havia quem soubesse jogar futebol em alto nível.

Naqueles jogos olímpicos, a seleção uruguaia chegou sem causar nenhuma comoção. Nem sequer se suspeitava que o pequeno país sul americano pudesse acrescentar algo a um esporte que se supunha europeu. Mas o mundo se assombrou com a Celeste Olímpica.

Com 20 gols marcados e apenas 2 sofridos em cinco partidas, o Uruguai encantou o mundo do futebol. Era uma equipe que praticava um futebol desconhecido dos europeus, com jogadores habilidosos, capazes de trocar passes de uma maneira que ninguém havia visto no velho continente. E com jogadores que faziam coisas jamais imaginadas, como o genial José Leandro Andrade (a “maravilha negra”) e o atacante Hector Scarone. Todos sob o comando do capitão José Nasazzi, vigoroso zagueiro.

A conquista uruguaia pareceu inaceitável aos argentinos, que não foram às olimpíadas. Grandes rivais dos charruas nas competições continentais e praticantes do futebol há meio século, os moradores do país vizinho se sentiram injustiçados. Acreditavam que o Uruguai só havia conquistado o mundo com tamanha facilidade pela ausência da albiceleste. E os desafiaram para um encontro.

Desafio aceito, argentinos e uruguaios se encontraram no dia 21 de setembro de 1924 em Montevidéu, em uma partida que terminou empatada em 1 a 1. Foi marcada uma revanche em Buenos Aires. Mas as coisas não terminaram bem. Na verdade, mal começaram: a partida, disputada no campo do Sportivo Barracas, teve por volta de 60 mil espectadores, quando as arquibancadas poderiam suportar no máximo 40 mil. Havia torcedores à beira da linha lateral, e a partida se encerrou antes dos 5 minutos de jogo, por razões de segurança.

E no dia 2 de outubro as equipes voltavam à mesma cancha, sob os olhares de “apenas” 30 mil pessoas, segundo os jornais da época, graças às medidas de segurança adotadas para a partida. E aos 15 minutos aconteceu o lance histórico. O ponteiro esquerdo Onzari foi encarregado de cobrar um escanteio para a seleção argentina. Para surpresa de todos, o tiro de esquina cobrado pelo jogador do Huracán terminou dentro do gol, sem que nenhum outro jogador tocasse na bola.

Era uma grande novidade. Até aquele ano, o gol marcado em cobrança de escanteio era ilegal, e a Internacional Board mal havia modificado a regra, permitindo o que passaria a ser conhecido como “gol olímpico”. Onzari nunca deixou de reconhecer que o lance foi fruto do acaso: “aconteceu porque tinha de acontecer. Talvez o goleiro tenha acordado com o pé esquerdo naquele dia, pois nunca mais voltei a marcar outro gol assim. Mas o certo é que quando vi a bola dentro do gol não pude acreditar”, disse o jogador muitos anos depois.

Ainda no primeiro tempo, o artilheiro uruguaio Cea empataria a partida, com Tarasconi marcando o gol da vitória argentina já no segundo tempo. Foi uma partida controversa, que sequer chegou ao final. A quatro minutos do fim os uruguaios se retiraram de campo, se queixando dos torcedores argentinos, e o craque Scarone chegou a trocar pontapés com um policial, indo parar na delegacia. O time da casa também tinha reclamações, principalmente da fratura sofrida por Adolfo Celli.

Aquela partida foi um típico confronto entre argentinos e uruguaios naquele tempo, com muita rivalidade e controvérsias. Mas naqueles noventa minutos aconteceu o primeiro gol olímpico da história. Um fato que tornaria a partida inesquecível. E nada mais justo que tal fato tenha ocorrido exatamente em uma partida disputada entre aquelas que naquele momento certamente eram as melhores seleções do planeta.

Onzari e Stábile, ídolos da Argentina e no Huracán
Foto: marcelodieguez.com.br
PS: Em diversas publicações há referência a um gol marcado diretamente de cobrança de escanteio que teria ocorrido antes da partida entre os vizinhos platinos. Supostamente, em 2 de agosto daquele ano Billy Alston teria marcado um gol dessa maneira em uma partida da segunda divisão escocesa. Mas o pesquisador uruguaio Jorge Gallego demonstrou claramente que essa informação provém de uma única fonte, e essa versão contém tantas inconsistências que é muitíssimo provável que de fato o primeiro gol diretamente marcado numa cobrança de escanteio tenha sido efetivamente o de Onzari.

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