quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Procuram-se Pofexôres: o futebol argentino preso na armadilha do imediatismo

Vasco Azconzábal, treinador do Estudiantes (Olé.ar)
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE

Talvez o cenário dos treinadores dos clubes argentinos nunca tenha sido tão desolador como atualmente. Boca Juniors e River Plate possuem técnicos que não agradam às direções, mas seguem quase que por falta de opção. Mesmo ameaçadíssimo pelo descenso, o San Lorenzo se mantém com um limitado Léo Madelon. O Estudiantes entregou seu elenco fortíssimo a Vasco Azconzabal, sem nenhuma experiência na função, como já fez com Eduardo Berizzo há um ano atrás.

O curioso é que não faltam treinadores argentinos de qualidade. Na Espanha Marcelo Bielsa classificou o Athletic Bilbao para as oitavas de final da Europa League e para final da Copa do Rei, enquanto divide uma ótima quinta colocação na liga espanhola com o Espanyol, treinado por seu discípulo Maurício Pochettino. Logo atrás das duas equipes está o Atletico de Madrid, treinado por Diego Simeone.

Mas não é preciso ir tão longe. No Uruguai, o campeão do último torneio foi Marcelo Gallardo, ex-ídolo do River Plate. No Paraguai, o atual campeão é o uruguaio Gerardo Pelusso, comandando o Olímpia, mas os outros que disputam a Libertadores têm argentinos no comando: Jorge Burruchaga (Libertad) e Javier Torrente (Nacional).

Também entre os guaranis, houve o sucesso recente de Gerardo Martino na seleção do país, enquanto o grande treinador sul-americano de 2011 foi, incontestavelmente, Jorge Sampaoli, que conduziu a Universidad de Chile a todos os títulos que disputou e encantou o continente.

O que se torna claro é que a Argentina é capaz de produzir bons técnicos em quantidade expressiva. No entanto, seu próprio futebol pouco se beneficia disso. Vários dos nomes citados jamais tiveram boas oportunidades em seu país, como o próprio Sampaoli, que construiu sua carreira basicamente nos países andinos, em especial no Peru e no Chile.

E o fenômeno, aparentemente bizarro, não é um acidente. Algo muito parecido ocorre entre os jogadores argentinos. O enorme número de atletas do país atuando em clubes do exterior não é fruto apenas da saída de jogadores que naturalmente seriam vendidos para ligas europeias de qualquer maneira. E nem sempre tem a ver também com as dificuldades econômicas do país.

Basta notar que há jogadores argentinos de bom nível em ligas sul-americanas de bem menos recursos que a de seu país. Clubes paraguaios, chilenos e equatorianos normalmente se servem á vontade desses jogadores. Vários deles apareceram por aqui, sendo Conca e Montillo os exemplos mais expressivos.

O caso mais recente é Barcos: sem ser um craque, trata-se de um atacante eficiente, que jamais teve chances de um trabalho de longo prazo em seu país, construindo a maior parte de sua carreira no exterior, incluindo países sul-americanos, como Paraguai e Equador.

Uma das causas do fenômeno é a existência de torneios curtos, que definem seu campeão em 19 rodadas. Após mais de duas décadas utilizando o formato, o futebol argentino se viu envolvido em uma cultura imediatista da qual não consegue sair. Nas grandes equipes os treinadores estão sempre ameaçados. Assim, não costumam ter paciência com jovens. Não há espaço para o erro.

Um exemplo é o Boca Juniors, atual campeão. Quando Julio Cesar Falcioni assumiu o comando técnico da equipe, há pouco mais de um ano, o elenco xeneize tinha um bom número de jogadores jovens (ou ao menos com um bom tempo de carreira pela frente) esperando sua oportunidade. E assim continuaram. Falcioni emprestou ou vendeu a maioria e boa parte dos demais segue assistindo as partidas de longe.

O treinador optou por uma equipe de jogadores razoáveis ou bons, mas experientes e confiáveis, e ganhou com facilidade o Apertura 2011. Uma história de sucesso? Quando se pensa no curto prazo, certamente sim. Mas quem pensa no longo prazo vê sérios problemas nessa estratégia.

Dos 11 jogadores considerados titulares por Falcioni, 8 têm 30 anos ou mais. As exceções são Cvitanich e Insaurralde, que completam 28 anos em 2012, e Roncaglia, que tem 25. Assim, é uma equipe de média de idade muito alta, que poucos anos terá pela frente. Enquanto isso, jogadores que poderiam vestir a camisa xeneize por muitos anos estão em outros clubes, geralmente no exterior, ou fazendo figuração no elenco.

O caso xeneize não é uma exceção. É apenas um bom exemplo de um país em que o imediatismo absoluto é a norma (em um nível ainda mais alto do que vemos no Brasil). Com os grandes clubes incapazes de se planejar para o médio prazo, as equipes dos países vizinhos fazem a festa, e recheiam seus elencos com profissionais de qualidade.

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