domingo, 29 de janeiro de 2012

O baixinho

Foto: Minha Gorda Querida (t-ambrosio.blogspot.com)
Romário de Souza Faria tem suma importância no futebol brasileiro como celeiro de grandes craques e também como referência na seleção canarinho. Dono de um talento extraordinário para se posicionar/marcar gols de dentro da área, o Baixinho aterrorizou as defesas adversárias até os seus 41 anos, e de acordo com ele mesmo, só não parou antes por encontrar extrema facilidade para balançar as redes.

Descoberto na segunda metade da década de 80, Romário iniciou sua brilhante trajetória no Vasco. Nenhum título (além do Brasileiro de 1989, claro) é comparado ao simples fato da equipe cruzmaltina ter revelado um dos maiores atacantes que o futebol já viu jogar. Com dois Estaduais vencidos (1987 e 1988) em seus tempos de São Januário, o camisa 11 logo conquistou a torcida e em menos de três anos no plantel titular (ao lado de Roberto Dinamite) já era cotado para estar na seleção. Disputou as Olimpíadas de 1988 em Seul, onde o Brasil ganhou a medalha de prata.

No Vasco permaneceu até a metade de 1988, não antes de levantar o caneco do Carioca com um épico gol em cima do Flamengo, se aproveitando da bobeira do defensor para tocar por cima de Zé Carlos (2:20) e correr para concluir um belíssimo lance. Foi contratado pelo PSV, que ainda sentia o gostinho de ser campeão europeu. A nova era para o então garoto seria não menos brilhante. O caminho do sucesso estava trilhado e dificilmente ele falharia na sua vida longe de casa.

Em Eindhoven, foi rei, apesar de penar para levantar uma taça. Os Boeren perderam todas as competições internacionais seguintes ao triunfo na Liga dos Campeões. Eliminados no mesmo torneio pelo Real Madrid já em 1989, também perderam a Supercopa Europeia para o Mechelen e o Mundial de 1988 para o Nacional, nos penais. 

Seria preciso muito mais que isso para diminuir a grande capacidade de Romário de ser "o cara" na formação ofensiva, outro fardo que ele sempre gostou e se vangloriou de carregar durante a carreira. No ano seguinte, a Eredivisie em 1989 foi o primeiro triunfo do baixinho na equipe.

Para o Mundial de 1990, na Itália, foi chamado por Sebastião Lazaroni para integrar os 22 atletas que não teriam nenhum brilho na competição até as oitavas de final, na derrota para a Argentina de Maradona (naquela tarde de 24 de junho, mais especificamente de Caniggia) no Delle Alpi. Não como outros que fizeram parte daquele fiasco, Romário não teve sua imagem tão maculada por estar retornando de lesão. Lesão essa, diga-se de passagem, que quase o impediu de se apresentar ao grupo.

Foto: Sport24
Ficou na Holanda até 1993, quando foi chamado para integrar um dos maiores esquadrões que a torcida blaugrana do Barça já viu. Comandado pelo treinador ranzinza Johann Cruyff, o Dream Team culé era estonteante. Repleto de grandes jogadores, contava com o talento estrangeiro de Ronald Koeman, Hristo Stoichkov e Michael Laudrup (negociado com o Real Madrid). 

O ápice da era no Barcelona foi clássico contra os madridistas, onde os catalães encaixaram um 5-0 em 7 de janeiro de 1994, lembrado como "La Manita". Romário fez um triplete e ainda deu uma assistência para Iván Iglesias marcar. As expectativas para o Mundial que seria realizado nos EUA eram grandes e boa parte das esperanças brasileiras consistiam na dupla que o Baixinho fazia com Bebeto, certamente um dos maiores ataques (ironicamente menores em altura) que já passaram pela seleção.

Foto: Yougol
Romário soube corresponder, e, com cinco gols, quase encostou no grande amigo Stoichkov e no descraque Oleg Salenko na artilharia daquela Copa. Marcou contra Rússia, Camarões, Suécia (fase de grupos), Holanda e Suécia (gol de cabeça nas semis). Conseguiu ser o ícone daquela geração que interrompeu o longo período de 24 anos de jejum. Não bastava só conquistar a Copa América, o torcedor carecia de ver a história de Mauro, Bellini e Carlos Alberto seguir. 

Dunga, como capitão, sucedeu os três anteriores, mas quem se consagrou mesmo foi o baixinho, envolto numa bandeira brasileira. Se o povo ainda chorava a morte de Ayrton Senna meses antes, aquele triunfo em solo americano foi a válvula de escape, o grito entalado na garganta. 

Após o Mundial, forçou sua saída do Barça e tomou os rumos do Flamengo para 1995. O rubro-negro montou uma seleção no ano de seu centenário. Era gigante o passo que o clube carioca dava ao contratar o Melhor jogador do Mundo em 1994, na teoria. O ano terminou somente com a Taça Guanabara na sala de troféus e a amargura de ter um excelente plantel, apesar de um péssimo planejamento. Pelo sim e pelo não, Romário foi artilheiro do Estadual de 1996, pouco antes de se despedir da Gávea.

Desembarcou no Valencia, onde pouco brilhou e ainda brigou com o então treinador Luis Aragonés. A volta melancólica ao Fla em 1997 marcou novos insucessos em decisões e outra partida para Los Che, onde teria Jorge Valdano como treinador. Num lance de má sorte, Romário se contunde e antes de seu retorno, o argentino perde o cargo. Sem encontrar o ritmo necessário, amarga o banco de reservas e volta ao Flamengo em 1998.

Romário na festa do título Brasileiro de 2000 (UOL)
Sem clube ao fim daquele ano e novamente lesionado com gravidade, perdeu o Mundial de 1998, na França,  o que era sua última chance real de disputar uma Copa. Em 1999 foi acolhido pelo Vasco, onde explodiu ao fim da década de 80. Disputou o Mundial de 2000 e venceu o Brasileirão do mesmo ano em cima do São Caetano, em final marcada por desabamento do alambrado de São Januário. Quem tinha Eurico Miranda não deveria temer a respeito da remarcação daquele fatídico duelo. Já em janeiro, no dia 18, no Maracanã, a missão foi fácil para o cruzmaltino, fazendo 3-1 e levantando mais uma vez o troféu nacional.

É inquestionável a habilidade de Romário para fazer gols. Chega a soar óbvio dizer que ele tinha todas as técnicas essenciais a um bom centroavante. Mesmo com idade avançada e sem a antiga agilidade, sabia encontrar os caminhos na defesa para balançar as redes, fato comprovado até 2005, quando aos 39 anos foi o artilheiro do Brasileirão pelo Vasco. Teve passagens por Fluminense, Miami e Adelaide antes de voltar à São Januário, onde conseguiria o tão sonhado 1000º gol e se aposentaria com a sensação de missão cumprida.

Mesmo que de pênalti (marca registrada dos seus derradeiros anos como profissional) em cima do Sport, o baixinho fez de Magrão a vítima do seu feito mais contestado. O tempo passou devagar até aquele 20 de maio, em São Januário. Envolto sob muita expectativa pela proeza dos 900 e tantos gols, fez parar o confronto contra o Leão da Ilha para se consagrar uma vez mais. 

Hoje o mundo procura um novo Messi, um novo Cristiano Ronaldo, talvez até um novo Maradona ou Pelé, guardadas as devidas proporções. Sabendo que isso é impossível, o verdadeiro fã do esporte guarda um lugar nas memórias para o camisa 11, que no quesito técnica e principalmente irreverência, jamais terá um legítimo sucessor. Guardemos um espaço para as verdadeiras lendas do futebol. Lembremos sempre de Romário.

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