sábado, 14 de janeiro de 2012

As "cartadas" de Yuri Semin

Yuri Semin, treinador do Dinamo Kiev (Dnipro.ua)
Gilmar Siqueira, @GilmarSiqueira
De Jaboti-PR

A temporada

Ninguém na Ucrânia (nem fora dela) tem dúvidas da força do Shakhtar Donetsk e de suas possibilidades de conquistar o título nacional. Mas depois de 2 duas temporadas sem levantar o "caneco", o todo poderoso Dynamo Kyiv vem com muita vontade -e sobretudo qualidade- para desbancar seus principais rivais.

Em 2008-2009, na primeira passagem de Yuri Semin pelo time de Kiev, o título foi conquistado com sobras: terminando 15 pontos à frente do Shakhtar e 20 do Metalist, vice-campeão e terceiro colocado, respectivamente. Semin saiu e voltou em 2010, mas não foi pário para Mircea Lucescu e seus comandados. Para um time que foi campeão 26 vezes (13 da Liga Soviética e 13 da UPL), dois anos sem um campeonato nacional é muita coisa.

Isso ficou comprovado com as contratações para esta temporada: Dudu, Ideye Brown, Carlos Corrêa, Lukman Haruna e Pape Dikhaté, que se juntaram a nomes como Vukojevic, Ninkovic, Garmash, Gusev, Yarmolenko, Milevskiy e Shevchenko. Com relação às baixas, as mais significantes foram dos meias Roman Eremenko e Roman Zozulya, mas que de momento não fazem muita falta.

A UPL já fez sua tradicional pausa de inverno e só volta em março. Por enquanto o líder é o próprio Dynamo, invicto e com 52 pontos, um a mais que o Shakhtar. Vale lembrar que o time do Serviço Secreto soviético já não briga mais por competições europeias, tendo ficado atrás de Besiktas e Stoke City no grupo E da Europa League. Logicamente o presidente Igor Surkis não ficou nada contente com a eliminação, mas ao menos o Dynamo pode se concentrar exclusivamente na UPL, o que torna as coisas ainda mais difíceis para o Shakhtar nesta temporada.

A equipe de Donetsk não é a mesma da temporada passada -em termos de atuações. A última colocação no grupo G da Champions mostrou que isso é um fato. O segundo lugar na UPL vem justamente pela superioridade de seu elenco em relação a outros times. Mas não podemos colocar esta aparente "queda" do Shakhtar como principal motivo para a liderança do Dynamo. Os méritos maiores são dos comandados de Yuri Semin.

Aliás, desde os tempos de Lokomotiv Moscow -time que ele fez crescer dentro do cenário russo- Semin era conhecido por seu pragmatismo. Uma fama até certo ponto justificada. Por outro lado, com opções mais ofensivas em 2011-2012 ele vem mostrando que pode armar também times cuja defesa é apenas um dos pontos fortes -mas não o principal.

O mais curioso deste Dynamo Kyiv é a recorrente alternância de esquemas táticos. No caso do Dnipro este fator deixa evidente sua irregularidade, mas no caso do Dynamo o que aparenta é a versatilidade dos jogadores e a confiança que Semin deposita nos mesmos. Vale mencionar que também existe esta versatilidade nos jogadores do Shakhtar, mas não ocorrem tantas mudanças táticas assim (Lucescu até que tentou colocar dois atacantes no time, o que não deu muito certo).

Esquema do começo da temporada
Os incontestáveis

Semin começou a temporada em um 4-2-3-1, que até hoje é o esquema mais decorrente no time. A defesa (menos vazada da UPL com apenas 8 gols sofridos) é comandada pelo capitão da seleção ucraniana Shovkovskiy, um goleiro muito experiente e que passa muita confiança.

Na zaga central o único nome que parece demonstrar mais segurança até o momento é o do nigeriano Aiyla Yussuf. Ele foi titular desde o princípio e poucas vezes ficou no banco de suplentes. A dúvida maior é gerada em torno de seu companheiro. Foram utilizados Diakhaté, Betão e Kacheridi. Mas nenhum deles conseguiu corresponder à altura.

Nas laterais é que começamos a notar as mudanças tão destacadas. Normalmente os titulares eram Danilo Silva e Popov. Isso é o lógico. Mas quem disse que Semin quer seguir a lógica? Dependendo da escalação ele coloca Danilo Silva e Betão, dois laterais predominantemente defensivos. No entanto, em uma das partidas contra o Besiktas pela UEL ele utilizou uma outra "cartada" entrando com Oleg Gusev pela direita e Popov pela esquerda. Ambos apoiam demais (Gusev é um right winger). Nisso, o croata Vukojevic voltava para fazer a zaga, formando um 3-4-3 ultra-ofensivo.

Por falar nele, Ognjen Vukojevic é outro atleta mais do que incontestável neste Dynamo Kyiv. O croata está há 3 anos na capital ucraniana e é titular absoluto. Por vezes mostrou que é imprescindível para o time. Durante suas lesões, Semin não coloca outro volante, deixando que o meia Aliyev faça a função.

Atual esquema
As variações 
É bastante delicado falar sobre o meio-campo e o ataque do Dynamo, que se modificaram bastante ao longo da temporada. Para se ter uma ideia, a linha de 3 meias que começou a temporada foi Gusev-Eremenko-Yarmolenko, sendo este último substituído algumas vezes por Ideye Brown.

Hoje quem ganhou espaço foram Ninkovic, Garmash e o já mencionado Aliyev. Enquanto isso, Artem Milevskiy, que fazia temporada lastimável, finalmente sentou no banco de reservas. Outra coisa que Semin mudou foi o posicionamento de Ideye, que saiu do lado esquerdo para jogar onde gosta, ou seja, no meio da área, como um "9" puro. Antes disso, Yarmolenko, Shevchenko e o próprio Milevskiy foram testados na posição, mas sem sucesso.

Detalhe é que isso tudo aconteceu quando Yuri Semin esteve utilizando um 4-2-3-1 (4-1-4-1), porque em dado momento da temporada ele passou para um improvável 4-4-1-1. Isso aconteceu quando Vukojevic se lesionou e ele não tinha alguém de confiança para deixar como seu "cão de guarda" no meio-campo.

Aí é que entram com mais protagonismo Oleksandr Aliyev, Denys Garmash e Milos Ninkovic. Os dois primeiros atuaram mais centralizados no meio-campo, sendo que Aliyev ficava mais com papel de marcação. Entretanto, como ele não é um grande marcador, acabou dando ainda mais qualidade para a bola "rodar".

A primeira opção para jogar a seu lado foi Ninkovic, mas ele não foi bem e acabou sendo substituído pelo jovem ucraniano Danys Garmash, que finalmente mostrou todo o seu potencial e agarrou de verdade a oportunidade. Mas para a sorte (?) de Ninkovic Gusev se lesionou e ele pôde entrar para fazer a left winger, com Yarmolenko sendo deslocado pelo lado direito. Ao menos a segunda chance ele aproveitou bem.

Enquanto isso Shvechenko foi colocado como um segundo-atacante (por vezes um "falso 10" como alguns preferem), fazendo exatamente o mesmo papel de Wayne Rooney no Manchester United. À sua frente seguiu Ideye Brown, mantendo uma altíssima média de gols (marcou 10 na temporada).

Realmente o Dynamo Kyiv não jogou bem em todas as partidas -isso seria quase impossível-  mas o fato é que seu elenco e o trabalho de Semin estão chamando demais a atenção. São raríssimos os times em ligas teoricamente de "segundo escalão da Europa" que têm tantas opções de qualidade e apresentam mudanças táticas tão interessantes. Em suma, o Dynamo precisa cair muito de produção ao longo da temporada para não conquistar este título ucraniano.

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