quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A tentativa de explicar a inexplicável paixão pelo futebol amador

Foto: Arquivo pessoal
Ana Claudia Cichon, @anacichon

Suburbana paranaense surpreende e traz emoção e boas histórias para contar, além de craques do passado que brilham nos gramados de Curitiba

Sabe aquela paixão avassaladora que entra na sua vida de uma maneira inesperada, gruda no coração e nunca mais sai? É mais ou menos isso que acontece entre mim e o futebol amador. A relação começou em 2009, mas foi de uma maneira tímida. No fim de 2010 voltou a dar o ar da graça e em 2011 veio para ficar. 

Esse ano tive a honra de acompanhar a Suburbana mais de perto, fazendo textos, fotos e vídeos para um blog. Isso rendeu uma aproximação ainda maior com o pessoal das diretorias e das comissões técnicas, imprensa, jogadores e até torcedores. É indescritível a sensação de pisar nos gramados e me sentir à vontade, como se aquele lugar fosse exatamente onde eu deveria estar naquele momento. 

Sábado foi um dia assim. Mágico. Era a segunda partida da final. O Bairro Alto jogava por um empate para conquistar o bicampeonato. Uma vitória do Iguaçu provocaria o terceiro jogo. Cheguei cedo, fui pra dentro do campo, como de costume, ver se encontrava meus conhecidos. Me surpreendi com a quantidade de gente da imprensa, que com o fim do Brasileirão aproveitou a oportunidade para manter a programação esportiva. Bom seria se em todos os jogos a movimentação fosse assim... 

Bom mesmo de ver foi a presença do público, que lotou o estádio. Não tem arquibancada no Egídio Pietrobelli, estádio do Iguaçu, mas quem disse que precisa? Ficar no alambrado ou buscar uma sombra debaixo das árvores é o que torna a Suburbana assim, apaixonante. 

Quando os times entraram no gramado, a adrenalina voltou a atacar. É impossível não ficar mexida com uma final dessas, tendo amigos dos dois lados, sabendo o quanto o título é importante para essas pessoas que batalham o ano inteiro, que estão ali por amor, que jogam o futebol verdade pela simples satisfação de fazer o que gostam. 

No primeiro tempo, sentada no gramado, bem próxima ao banco do Bairro Alto, vi de perto a comemoração quando Marcelo Tamandaré abriu o placar, aumentando a vantagem na corrida pelo título. Emoção, claro. Era o bicampeonato que estava ficando mais perto. 

Na segunda etapa mudei de lado e, para me esconder da chuva, fiquei junto com os reservas e comissão técnica do Iguaçu. Na movimentação, nos gritos e nos olhos do técnico e do preparador físico, principalmente, a emoção era gigantesca. A equipe não ganha o campeonato amador há 20 anos e, com o resultado, via a chance escapar mais uma vez, dentro do seu próprio campo. 

O peso da disputa era muito grande. Aos 25 minutos, Hideo fez a torcida iguaçuana explodir e os olhos do treinador encherem de lágrimas. O jogo ganhou em dramaticidade, digno de uma grande final. Como uma apaixonada por futebol, já vi muitas disputas, do meu clube e de rivais, e em poucas senti o que senti nesse jogo. Sem exageros. Minhas mãos estavam amortecidas. Imaginava o que estaria passando na cabeça de cada uma das centenas de pessoas que se esforçam para que a Suburbana aconteça assim, forte e organizada. Linda e apaixonante. Estruturada e exemplar. 

Enquanto pensava nisso, o Iguaçu seguia no ataque, buscando a virada. Afinal, de nada adiantava o empate. Quando surgiu falta próxima a grande área, um dos jogadores do banco virou pra mim e falou: “fotografa o gol”. A cobrança bateu na barreira, mas, no rebote, Luisinho Netto fez lançamento para Guilherme, que cruzou pra grande área e encontrou Laércio. Gol. E virada. 

A comemoração que eu vi foi algo de encher o coração de alegria. Se alguém entrasse no estádio naquele momento poderia acreditar que o Iguaçu havia conquistado o Mundial de Clubes. Se fosse perguntar para qualquer pessoa do clube o que estava sentindo naquele momento, certamente não haveria uma palavra para descrever. 

Do outro lado, a reclamação do Bairro Alto foi contundente. Eles reclamaram de um impedimento no lance. Todos os jogadores foram para cima do bandeira, mas nada podia ser feito. Os minutos seguintes, até o apito final do juiz, foram nervosos. Tentativas desesperadas de ataque, chutões para todos os lados e, no fim, uma terceira partida para decidir a Suburbana no próximo sábado, dia 8. Nenhum dos clubes tem vantagem. Em caso de empate, prorrogação. Persistindo a igualdade, pênaltis. E daí aguenta, coração. 

Por fim, uma confissão. Enquanto aguardava a carona para ir embora, refleti sobre tudo que o futebol amador representa pra mim e senti lágrimas escorrendo. Não estou forçando a barra, juro. É que, como já ouvi, meus olhos brilham quando falo disso. É um amor que não tem explicação. Queria poder fazer todas as pessoas do mundo presenciarem o momento, para que quem sabe elas entendam o quanto o futebol é fantástico. 

E não precisa ser um futebol primoroso, com jogadores famosos, em estádios moderníssimos. O que faz bem pra alma é ver o carrinho dado pelo veterano no campo de várzea, é ver a raça com que os atletas que recebem 100, 200 reais por jogo disputam uma bola, mesmo perdendo por 5x0, é presenciar diretor de futebol carregando maca e juiz fazendo massagem em jogador com câimbras. O futebol amador é tudo isso e muito mais. É o futebol de verdade.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ana Cláudia, parabéns pela forma como descreveu o seu envolvimento com esta modalidade esportiva que é, sem dúvida alguma, aquela que consegue unir os apaixonados pelo futebol, constituindo assim uma mesma e grande Familia.
Sérgio Czajkowski.