sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O nome do gol

Foto: UOL Esporte
Allan Amarelo, @amarelo12

Reminiscências de um dos grandes atacantes da década de 1990: Batistuta foi ídolo de italianos, argentinos, romanistas, xeneizes, torcedores da Fiorentina e qualquer fã de futebol que se preze, e assim ficará o seu legado no esporte

Um animal que graças a Deus é argentino.” Foi dessa forma que Diego Armando Maradona resumiu aquele que é o maior artilheiro da história da Seleção Argentina. Estou falando de Gabriel Omar Batistuta. 

Nascido na cidade de Reconquista, província de Santa Fé, o futebol nunca foi seu esporte favorito. Pesando uns quilos a mais durante toda a infância, Gabriel era chamado de “gordinho” e só começou a se dedicar ao esporte bretão após deixar o basquete, isso aos dezessete anos. 

Todo mundo, ou quase, já ouvir o jargão de que o futebol é “uma mãe” para muitos. Eu mesmo já cansei de ver jogador perna de pau por aí. Mas para mim, no futebol, dos onze que entram em campo, existe um cidadão que geralmente leva a camisa 9, que não precisa saber jogar bola, ele precisa é fazer gols. Botar a bola na rede, meter na caçapa, afundar o goleiro, não importa como, ele precisa apenas fazer o grito de milhares de pessoas sair pela garganta como se fosse um foguete sem controle. 

E foi assim, na base de gols, que Gabriel, já então chamado de Batistuta, chegou aos profissionais do Newell’s Old Boys em 1988, para substituir o então artilheiro Abel Balbo. Pelas mãos de nada mais, nada menos, que Marcelo “El Loco” Bielsa, em seu primeiro ano no clube de Rosario, Batistuta chegou até a final da Copa Libertadores da América e com mais um caminhão de gols, foi logo vendido ao poderoso River Plate na temporada seguinte. Novamente para substituir Abel Balbo, que havia sido então vendido para a Udinese. 

Mas no clube de Nuñez nem tudo foi como se esperava. Mesmo com um bom início, Batistuta perdeu espaço e, dizem as más línguas, foi queimado pelo então técnico Daniel Passarella. Nada que o fizesse parar. Na temporada 90/91, ele decidiu seguir sua carreira no outro gigante de Buenos Aires, o Boca Juniors, clube onde deixaria de ser uma promessa, um bom centro-avante, mas passaria a ser chamado de Batigol

A dupla entre ele e Diego Latorre revolucionou o Boca Juniors que não faturava o Campeonato Argentino desde 1981, então com Maradona e Brindisi como destaques. Após marcar os dois gols na vitória contra o River Plate e ainda acabar com o Corinthians na Copa Libertadores, Batigol foi um dos responsáveis pela conquista invicta do torneio Clausura, o que lhe valeu uma convocatória para a Seleção Argentina. O Boca teve que disputar uma final contra o Newell’s, que havia sido campeão do Apertura, mas sem o seu atacante, acabou por ficar sem o título e Batistuta, que ouviu o jogo pelo rádio, não conseguiu comemorar a distância. Isso porque o jogador estava no Chile, onde dias depois foi campeão da Copa América pela Albiceleste. 

Após o sucesso no torneio continental, Bati não voltaria a pisar no gramado de La Bombonera. O matador acabou por ser negociado com a Fiorentina, deixando saudade nos corações de vários torcedores xeneizes. Em sua primeira temporada pelo clube de Florença, Batistuta marcou 13 gols pela Serie A, na segunda foram mais 16, o que não garantiu uma boa temporada, uma vez que a Viola foi rebaixada para a segunda divisão da liga italiana. Apesar de já ser considerado um dos destaques do calcio, o argentino permaneceu no clube e, mais uma vez, seus gols fizeram toda a diferença para que a Fiorentina voltasse à elite do futebol local. Logo no primeiro ano do retorno, Bati marcou 26 gols e foi o artilheiro do campeonato, quebrando um recorde de em jogos consecutivos. Foram 13 gols em 11 partidas. 

A partir daí, Batistuta começou a despertar o interesse de vários gigantes europeus, mas nada que fizesse aquele garotinho gordinho mudar de ares. Um confesso não admirador do futebol, nem sequer jogos pela televisão ele gostava de ver. Aquilo era apenas o seu trabalho e, por isso mesmo, ele acreditava que deveria manter-se fiel ao clube e aos torcedores que acreditaram nele, colocando isso à frente de qualquer motivação pessoal. 

Falando um pouco de paixão e “argentinidade”, ainda me lembro de um dos maiores times que vi jogar futebol na minha vida. Pena que durou apenas dois jogos. A Seleção Argentina da Copa de 1994 com Redondo, Maradona, Simeone, Caniggia e Batistuta era lindo de se ver. Que golaço que ele marcou contra a Grécia naqueles humilhantes quatro a zero. Quando jogava futebol, eu queria ser o camisa 9 apenas porque ele vestia aquele número. Sim, eu por diversas vezes desci pra jogar bola com minha camisa branca da Fiorentina, com patrocínio da 7up (garanto que isso não é merchan e que o blog não está ganhando nada). O pôster na parede do meu quarto onde dizia “Batistuta, El Nombre Del Gol”. Quase tudo o que me fazia pensar em futebol, era associado a esse animal, como bem disse D10S. 

Porque posso garantir, apesar de todas as estatísticas, dos gols, não era esse o real motivo que fazia os torcedores o idolatrarem e os defensores e goleiros o temerem. Era pela vibração, pela vontade, pela entrega, por olhar o gol como uma obsessão, a maior das obsessões. 

Em 1998, ele quase foi artilheiro da Copa. A eliminação contra a Holanda nas quartas de final, ainda dói no coração de muitos. Não simplesmente pela derrota, mas por aquela bomba na trave que nos poderia ter dado a vitória. Costumo dizer que aquela trave balança até hoje. Pelo que me lembro, aquela foi a primeira vez que chorei por culpa do futebol. E 14 anos depois, ainda me entristece falar que essa bola não entrou. 

Voltando ao seu clube, apesar de não conseguir o tão sonhado scudetto, o artilheiro honrou cada minuto que vestiu a camisa da equipe. Ainda hoje posso lembrar de um golaço marcado contra o Manchester United pela UEFA Champions League. Quem diria que aquele jogador que jogou a segunda divisão estaria ali, com a faixa de capitão brilhando na competição de clubes mais importante do mundo? 

Após dez anos de Fiorentina e receber uma estátua de homenagem feita pelos torcedores, Batistuta foi para a capital italiana defender a Roma, onde seus 20 gols ajudaram a fazer a alegria de uma torcida que não conquistava o título nacional desde os tempos de Falcão. Depois de jogar mais uma temporada pela equipe e fazer uma brilhante eliminatória para a Copa do Mundo de 2002, lá estava ele na Coreia/Japão, vestindo mais uma vez a camisa 9 de sua seleção com o status de ídolo mundial. Chegando com um futebol vistoso e sendo considerada a principal favorita ao título, a Argentina venceu a Nigéria por um a zero com gol de cabeça de Batistuta. Mais uma vez eu voltava a gritar um gol dele em um Mundial. Tudo parecia ser um filme perfeito, até que a derrota para a Inglaterra e o empate contra a Suécia nos deixou sem reação, eliminados na primeira fase. 

Eu sentado no sofá da minha sala, me senti ali, ao lado dele, sentado no banco de reservas ao fim do jogo. Apenas triste, sem palavras, sem lágrimas. A dor era tão profunda que não havia força para chorar. Eu sabia, ele sabia, o povo argentino sabia, o mundo sabia que ele não teria outra chance. Que nós não poderíamos mais vê-lo gritar um gol com aquela camisa numa Copa do Mundo. 

Após sentir, talvez, a maior decepção de sua carreira, Batistuta ainda fez uns jogos pela Internazionale por empréstimo. Suas lesões no joelho eram muito sérias, fruto da vontade de vencer. Batigol jugou inúmeras vezes infiltrado para não sentir as fortes dores das pancadas que levara nas partidas. O encerramento da carreira foi no Qatar, onde ainda teve uma incrível média de gols e, com certeza, fez uma fortuna. 

O que se pode dizer de Gabriel Batistuta? A palavra que pode ser utilizada é saudade. Não do seu futebol, mas do seu caráter, da vontade de lutar pela camisa que vestia. Os seus 56 gols pela Seleção Argentina é um recorde que talvez possa ser superado até mesmo pelo atual melhor jogador do mundo Lionel Messi. Mas de fato, nem que marque mil gols, será visto como o maior goleador que um país já viu. Um animal, que graças a Deus, é argentino! 

2 comentários:

Noedyr Zanqueti disse...

Tenho impressão que todo jogo que vi dele, ele fazia pelo menos um gol. Grande Batigol

luce fallen disse...

Meu ídolo até hoje. Batigol, Il Re Leone, El Emperador del Calcio. Grande Batistuta, o maior finalizador de todos os tempos!