quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O santo

Foto: UOL Esporte
Marcos foi genuíno num tempo escasso de palavras fora do senso comum, monstro numa época repleta de excelentes goleiros e, acima de tudo, maior nome no coração dos palmeirenses que hoje nada podem fazer além de sentir sua falta.

Santo, perdoe todos que um dia duvidaram dos teus milagres e da tua competência em calar quem sempre esteve cético em relação ao seu poder. Ontem foi o último dia que pudemos te ver com essa camisa, com essas cores e que depois disso, tudo vai virar apenas parte do passado, daquelas lembranças que a gente nunca vai deixar de se emocionar.

Foram quase 20 anos, foram muitos pênaltis, muitos jogos repletos de tensão, alegrias e claro, frustrações. Você nunca nos fez pensar que fôssemos pequenos. Quem tem um santo particular jamais será pequeno, e com São Marcos debaixo das traves conquistamos a América, quase o mundo. 

Nosso time segue grande, independente da divisão, não importa quem faça piada ou pouco caso. Chegamos onde poucos chegaram, nos mantivemos onde menos clubes ainda estiveram: lutando pelo topo. Se um dia viramos potência, foi passando pelas suas mãos. Muitos gigantes sucumbiram pelas tuas mãos e não há presente ou futuro que apague isso. São Marcos parou alguns bons rivais e grandes forças dentro do continente.

Seremos eternamente gratos pelos teus milagres e pelas tuas palavras duras, que muitas vezes nos acordaram do sono que prejudica e mata quem não quer acordar. Bem verdade que amargamos um rebaixamento durante a sua era, mas que de forma alguma iria macular toda uma caminhada heroica e sofrida, cheia de pedras e buracos no trajeto.

Queria escolher um momento mais propício para falar dos seus feitos, que não fosse agora, na calada da noite, mas não poderia ser diferente, Marcão. Desde 1992, quando você pisou a primeira vez no Palestra Itália, deveríamos saber que seria para colocar teu nome nos livros, nos textos e na história do clube. Logo você, que falhou ao tentar passar pela peneira do Corinthians e que no Lençoense, sim, no LENÇOENSE que chamou a atenção de alguém iluminado que te levou para a Barra Funda tentar a sorte.

Foi preciso quatro anos para que você, ainda com cabelos na cabeça, estreasse pela equipe principal e pegasse um pênalti do Botafogo de Ribeirão Preto. Depois disso, as estatísticas deram conta de relatar a sua ascensão, a sua santidade. Em 1999, como desacreditado reserva de Velloso, tratou de fechar o espaço entre as traves e o travessão, num momento crucial. Logo contra eles, nossos maiores rivais. 

Durante 180 minutos foste o paredão que impediu a vitória corintiana e até o fim daquela Libertadores foi extremamente importante para determinar o curso dos dias mais felizes de nossas vidas como palmeirenses, condenando os cobradores rivais a caírem no mais doloroso esquecimento, na mais cruel frustração. E fomos campeões, com o seu famoso golpe de vista tirando aquela bola de Zapata no último tiro daquela competição.

Não importa que tenhamos perdido as duas seguintes, tampouco que tenhamos caído perante o Vitória em 2002 e 2003. Você esteve lá para nós em todos esses momentos de dor e de extrema alegria. Quando ficamos 12 anos sem levantar uma taça relevante, ouvimos no túnel antes do duelo contra a Ponte Preta que você quebraria a perna, quebraria o pescoço, se quebraria todo para conquistar aquele campeonato. Grande verdade, coberta pelas lágrimas de um soldado que não mais abriria mão de vencer uma guerra.

Imortal você nunca foi, fisicamente. As muitas lesões não me deixam mentir. Por vezes você pensou em parar, castigado por elas, em todo o corpo. Mesmo assim seguiu lutando até o fim, até não ter mais ponto de retornar a um status saudável. No dia 4 de janeiro de 2012, todos choramos copiosamente com a sua despedida. Sabíamos que dali em diante não mais veríamos sua imagem nos protegendo do bombardeio alheio, da vergonha e do constrangimento. Precisamos saber viver sem a sua presença. 

É triste mesmo que menos de um ano após o seu adeus tenhamos de lidar com mais essa queda, mas fica a promessa de que nós vamos prosperar e seguir de cabeça erguida, como você sempre fez. Seja pelo Palmeiras ou pela Seleção, onde nunca foi o titular absoluto e mesmo assim cumpriu de forma honrosa, no mínimo, o seu papel como passageiro de uma instituição obscura e que macula a imagem de vários ídolos de ontem. 

Você é um desses, você é um de nós, você é um santo, e nessa condição, será inesquecível para todo e qualquer palmeirense minimamente consciente de seu credo como alviverde, como sofredor e sobretudo como crente de que bons dias virão, mesmo sem a camisa 12 para nos guiar. Amanhã há de ser um grande dia, e contamos que estejas ali, agora do lado de fora para contemplar, Marcos. Nossa eterna gratidão e respeito pela sua fidelidade, dedicação e defesas. Sem você continuaríamos sendo Palmeiras. Mas um Palmeiras sem grande parte de suas vitórias, de seu espírito guerreiro.

Uma Libertadores, Dois Brasileiros, quatro Paulistas, uma Copa do Brasil, uma Mercosul, uma Copa do Mundo, uma Copa dos Campeões e uma Série B depois: que os que não te respeitam apenas se calem e se juntem ao coro dos que já sofreram com a tua e a nossa imponência. Hoje e amanhã, amém, São Marcos.

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