terça-feira, 11 de dezembro de 2012

TF História: Superclásico com pitadas brasileiras

Delém perdeu um pênalti e entrou para a história do Superclásico
Foto: El gran boludo argentino
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago

Em 1962, Boca e River decidiam o campeonato com um dérbi em La Bombonera, repletos de brasileiros em seu elenco, e naquele dia 9 de dezembro, um deles viveu uma enorme frustração

Há 50 anos, Boca Juniors e River Plate faziam um dos clássicos mais lembrados da história do futebol argentino. Uma partida que praticamente decidiu o título de 1962 para os xeneizes, e que teve vários ingredientes que o tornaram mítico. Um deles, o fato de ter dois brasileiros como protagonistas da partida.

Historicamente é muito mais comum que jogadores argentinos façam sucesso no Brasil do que o oposto. Mas no começo dos anos 1960 vários jogadores brasileiros foram recrutados por clubes do país vizinho. Em parte porque nossa seleção venceu o mundial de 1958, enquanto a albiceleste foi eliminada ainda na primeira fase, após levar um implacável 6 a 1 da Tchecoslováquia.

Outro motivo foi o desejo dos presidentes de Boca e River de transformar o futebol argentino num empreendimento. Alberto J. Armando e Antonio Vespucio Liberti queriam que as partidas de seus clubes fossem verdadeiros espetáculos. E abriram os cofres atrás de jogadores, argentinos e estrangeiros, que pudessem ajudar a concretizar a ideia.

O Boca Juniors foi mais feliz, e trouxe muitos jogadores, incluindo brasileiros de grande futebol: Orlando Pessanha, Dino Sani, Paulinho Valentim e Maurinho, chegando aos títulos de 1962, 1964 e 1965. O River não teve tanta alegria, como se pode ver nos brasileiros que trouxe: fora o craque Moacir, campeão mundial de 1958, trouxe apenas jogadores que não faziam parte da elite do nosso futebol, como Delém, Roberto Frejuello, Paulinho e Décio de Castro.

O resultado é que em 1961 se disputou o superclássico que contou com mais jogadores estrangeiros: dez, incluindo sete brasileiros, sem contar Vicente Feola, que então treinava o Boca. A partida terminou em 2 a 2, com Paulinho Valentim marcando para o Boca e Moacir para o River. No ano seguinte, as duas equipes fariam um clássico muito mais importante, em que brasileiros teriam um papel ainda mais proeminente.

Era a penúltima rodada do campeonato de 1962. Xeneizes e Millonarios estavam empatados em primeiro lugar, e quem vencesse o confronto a ser disputado na Bombonera colocaria a mão na taça. Um empate deixaria tudo para ser resolvido na última rodada. Eram duas equipes repletas de grandes jogadores, e quatro brasileiros estavam em campo. Paulinho Valentim e Orlando Pessanha jogavam pelo Boca, que tinha craques como Marzolini, Menendez, Rattin e o goleiraço Roma. Pelo River vinham Delém e Roberto, acompanhados por nomes como Carrizo e Artime.

Chegou o dia 9 de dezembro e logo aos 14 minutos daquele Superclásico, a Bombonera quase veio abaixo. O histórico goleiro Amadeo Carrizo derrubou Paulinho Valentim dentro da área. O centroavante brasileiro bateu forte, deslocando o mítico goleiro do River, abrindo o placar. Até hoje Valentim é o maior artilheiro da história do superclássico. É idolatrado pela torcida xeneize e tem papel de destaque no museu do clube.

Precisando modificar o placar, o River foi ao ataque. Por seu lado, o Boca tentava travar o jogo, sabendo que o resultado lhe beneficiava. A sólida defesa xeneize conseguia contar o bom ataque do River, até que a quatro minutos do fim veio o lance capital. O grande atacante Artime caiu na área e o árbitro Nai Foino marcou o pênalti. Era a chance de ouro para o empate.

Delém se preparou para cobrar o pênalti e tentar vencer o extraordinário goleiro Antonio Roma, titular da seleção argentina nos mundiais de 1962 e 1966. Quando o juiz apitou autorizando a cobrança, os dois jogadores correram em direção à bola. Delém bateu forte, no canto direito, para excepcional defesa de Roma, que se adiantou bastante. Os jogadores milionários reclamaram, mas Foino foi inflexível: “se a cobrança tivesse sido boa, a bola teria entrado”.

Na última rodada o Boca confirmou o título ao aplicar um 4 a 0 no Estudiantes. Roma e Valentim se transformaram em ídolos eternos para os xeneizes. Delém também ficou marcado pelo lance. Mas conseguiu se recuperar. Em especial por ter sido um brilhante treinador das categorias de base do River, revelando os brilhantes talentos que deram muitas alegrias à torcida do clube nos anos 1990 e começo do século XXI.

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