terça-feira, 18 de junho de 2013

O amor não é só o grito de campeão

Foto: Almanaque Esportivo/Gazzetta Dello Sport
São 12 anos de espera por uma Roma campeã, 12 anos de longas provações, dúvidas, contestações e o amor, aquele que tem cor e camisa definidas e é incondicional. Dói no peito mas nos dá a sensação de que há algo além, há algo para se acreditar e esperar com aquela ansiedade de criança quando sabe que vai ganhar um presente

Hoje (ontem, pois o post foi escrito de noite) faz 12 anos que a Roma venceu seu último título na Serie A italiana. É uma data simbólica, memorável e bem marcante para qualquer romanista que se preze. 18 anos de jejum foram para o ralo com a conquista empurrada por Totti e grande elenco no terceiro scudetto da história do clube da capital italiana.

Mas não vim aqui só para falar do quanto isso representa pra mim, o quanto eu já vibrava pelo time enquanto acompanhava bem de longe os passos da Roma. Devo lembrar que naquela época o acesso às informações era bem mais complexo do que um ou dois cliques. E para quem estava passando pelo seu primeiro ano como romanista, aquele me foi um belo cartão de visitas. 

Desde então, 12 anos depois, 13 depois de tomar a decisão de "esse vai ser meu time lá fora", me pego comparando essa paixão com tantas outras que tive. Ou só uma por qual me deixei levar de verdade. Ora, sou fanático por futebol desde bem menino, quando em 1995, 96 ligava a TV a cabo para assistir o Ajax que havia acabado de ser campeão europeu, a Juventus de Del Piero e Zidane, a Fiorentina de Edmundo e Batistuta, o Real Madrid de Suker e Mijatovic, até que tempos depois a Roma de Totti e cia. me saltou aos olhos.

Não tivemos grandes anos desde então, verdade seja dita. Já perdemos o campeonato por um ponto, vimos a Coppa Italia ir para os braços da Lazio, estivemos próximos do rebaixamento e da falência, mas nunca deixamos de dar uma banana às adversidades. Todo dia que passo tem sido uma prova de amor ao que faço, ao que vivo e ao que acredito. E isso ninguém nunca vai poder me tirar.

Já disseram que ela não me merece, que eu deveria torcer para um time realmente grande, que essas mágoas ainda vão me matar, mas que posso fazer além de beijar a camisa e tratá-la como se ela fosse parte de mim? A gente já ameaçou ir e voltar, se separar, mas o amor sempre fala mais alto, sempre esteve lá. Um dia lá em 2005 eu disse que se não fosse romanista, talvez escolheria a Inter. Um dia lá em 2012 eu disse que ela não haveria de ser a maior paixão da minha vida.

Os dias passaram e eu não poderia estar mais enganado, arrependido de ter subestimado a força desse sentimento. A heresia da dúvida é algo que nunca perdoarei, que nunca mais irei repetir. Temos essa teimosia imortal em achar que o hoje é mais permanente do que o amanhã, que tudo é imutável, irreversível, ou até mesmo efêmero.

Certas cicatrizes não apagam jamais, certas feridas não doem para sempre, assim como não devem ser esquecidas. Apesar delas, seguimos, olhamos para a frente e erguemos a cabeça. Vivo esperando um dia em que possa soltar o grito entalado na garganta, aquela sensação de estar do lado da glória que sempre quis pra mim. Só sei esperar, é talvez o que melhor consigo fazer, é meu ofício e ao mesmo tempo meu dever. 

Quando a chuva de papel picado cair no gramado e erguermos os braços ao céu no gesto que tanto esperamos, toda essa agonia terá valido a pena. E o tempo não será mais uma medida do nosso sofrimento, mas sim uma prova de resistência. Assim seja, que a alegria dos beijos títulos seja tão grande quanto a nossa sensação de que não seríamos capazes de aguentar. 

O futebol me tornou mesmo num cara muito paciente e mais apaixonado do que eu deveria. Mas quem foi que disse que esse amor precisa ter medida? Por agora vou andando, pois o tempo não quer saber de passar. Correr não adianta, só mesmo aguardar o desfecho, o gol, o apito final e a euforia. Quero te ver (campeã) de novo. Quero poder dizer que sempre acreditei que você (scudetto) voltaria. Ainda, de novo e pra sempre.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

Nenhum comentário: