terça-feira, 30 de julho de 2013

Morte ao traidor

Foto: Welt
Lutz Eigendorf apareceu para o futebol alemão como talento do Dinamo Berliner, na Oberliga da República Democrática Alemã. Fez seu nome do lado comunista e depois se rebelou contra a própria nação ao aceitar uma proposta do Kaiserslautern: a deserção o colocou na mira da Stasi, a polícia secreta da RDA.

A espionagem teve um papel decisivo (e silencioso) na vida de Lutz Eigendorf, meia formado nas categorias de base do Dinamo Berliner. Ele começou sua carreira no início dos anos 70, a era da discoteca, a era da brilhantina e da afirmação do futebol alemão como uma das maiores forças do mundo.

Se para o resto do planeta a Alemanha parecia somente uma potência, dentro dela uma desigualdade assolava a sua população. Separada em duas, a nação tinha a parte ocidental como a mais forte, saudável, capitalista e próspera, o modelo do futuro. Reconstruída dos danos das grandes guerras, a Alemanha pareceu não conseguir unir tanto o seu povo quanto deveria. 

Na parte esquecida, estava a Alemanha Oriental, de Eigendorf. Lutz era o tipo de meia que podia armar o jogo com facilidade. Se movimentava bem entre os defensores e tinha boa visão de jogo. Os nove anos pelo Dinamo provaram isso na Oberliga. Se despediu do clube antes do título de 1979, após um amistoso contra o Kaiserslautern. 

Depois do jogo, o ônibus com a delegação do Dinamo parou num posto e os atletas puderam gastar o seu rico dinheirinho em produtos que não eram comercializados no lado comunista. Lutz demorou mais do que os colegas. Na primeira chance que teve, subiu num táxi e voltou para Kaiserslautern. A partir daí, virou persona non-grata em Berlim. E isso irritou Erick Mielke, chefe da Stasi, a polícia secreta da RDA. 

Um alvo constante
Torcedor do Dinamo e ex-presidente do clube na década de 60, Mielke levou para o pessoal como ninguém. Anos antes ele teria sido acusado de usar da sua força política para fazer os berlinenses consolidarem seu domínio na RDA. Quando Eigendorf se rendeu ao capitalismo e ao Kaiserslautern, aos 22 anos, Mielke fez dele um alvo, mobilizando grande parte de seus oficiais para perseguir o jogador, estudar seus hábitos e claro, obter informações sobre sua vida pessoal. 

Lutz deixou toda a sua família para trás ao entrar naquele táxi. Sua mulher, Gabriele, confessou à Deutsche Welle na década de 1990 que sabia que nunca mais veria o marido retornar. Estabelecido na Bundesliga, que considerava uma liga bem mais relevante do que a Oberliga oriental (não que ele estivesse errado), o meia se notabilizou como jogador do Kaiserslautern, onde ficou até 1982. Apesar da suspensão de um ano por parte da FIFA por ter abandonado o clube, ele era visto com um grande valor pelos Diabos Vermelhos.

Anos depois, ao ter acesso aos documentos da Stasi, o jornalista alemão de Colônia, Heribert Schwan descobriu que Eigendorf tinha cerca de 50 espiões na sua cola, além de um "Romeu", como os oficiais chamavam espiões que se envolviam de forma amorosa com pessoas próximas ao alvo. Gabriele, ex-mulher do jogador, se casou com esse agente e mesmo sem saber estava colaborando para a trama que iria tirar a vida de Lutz.

O Alfa-Romeo de Eigendorf perto de Brunswick: morreu
três dias depois do acidente (Foto: Deutsche Welle)
Muitos Romeus para uma só Julieta
Pois com tanta vigilância e sabendo que estava provocando a ira da Stasi, Lutz se casou novamente e não conseguiu no Kaiserslautern o sucesso que era esperado. Ao invés de permanecer lá, foi contratado pelo Eintracht Braunschweig, onde fez apenas oito partidas, em 1983.

Enquanto a vida de Gabriele seguia, a de Lutz se aproximava do fim. Outra história paralela descoberta por Schwan, que transformou o mistério de Eigendorf em documentário, foi a de Karl-Heinz Felgner, outro cidadão da RDA que fazia o papel de ex-boxeador banido do seu país, vivendo de migalhas na Alemanha Ocidental. Agente infiltrado da Stasi, foi o primeiro a tentar se aproximar de Gabriele, sem sucesso. Conhecido de Eigendorf nos tempos de Berlim, Karl-Heinz alega ter se deparado com um contrato para matar o jogador do Braunschweig, tarefa que ele nunca quis cumprir.

No caso de Felgner, aceitar os termos do homicídio de Eigendorf representava ter novamente a companhia de sua namorada, impedida de deixar a RDA. De acordo com um post do site In Bed With Maradona, Felgner foi detido em 2000 por roubo e ao ser interrogado, revelou o precedente e o envolvimento na morte de Lutz, coisa que anos depois da unificação da Alemanha, não se pode afirmar que a Stasi efetivamente teve participação na morte do jogador. Ainda que as circunstâncias sejam estranhas, que a autópsia não tenha sido realizada e o caso tenha sido arquivado. Todas as técnicas que os espiões costumavam usar foram apontadas de forma bem genérica em relatórios gerados a respeito de Lutz.

Verblitzen. Eigendorf
A forma que a Stasi encontrou de facilitar a morte de Eigendorf foi persegui-lo numa estrada perto de Brunswick, numa noite de março de 1983 que ele estava num bar. Várias testemunhas disseram que ele bebeu pouco, algo como dois ou três copos de cerveja. Saiu normalmente e seguiu viagem, mas não sairia dela vivo. Bateu com o carro numa árvore bem do lado do motorista e foi internado em estado grave, mas faleceu dois dias depois. No exame inicial, foi detectado que o índice de álcool no sangue dele estava altíssimo, o que não bate com a versão que Lutz deixou o bar em estado normal.

Outra versão foi a levantada por Schwan, que alega que um terceiro elemento desconhecido sequestrou Lutz e o forçou a ingerir uma quantidade perigosa de drogas, misturadas na sua bebida. Em todo caso, isso não alarmou nenhuma autoridade na averiguação das causas da morte. Ou ao menos deveria ter alarmado. Nos documentos da Stasi, referências como "Verblitzen", um código que representa a modalidade de usar um carro com faróis desligados, aparecer na contramão e de forma deliberada acendê-los na direção do motorista na faixa oposta, forçando-o a tomar uma decisão rápida para desviar. Lutz provavelmente encarou essa situação antes do acidente, o que parece perfeitamente normal quando descobrimos que era uma manobra bastante utilizada pela polícia secreta da RDA.

Esse espaço de tempo entre 1979 e 1983 é contado pelo documentário '"Morte ao traidor", com dados reunidos por Heribert Schwan em pesquisa nos documentos da Stasi. Até hoje as autoridades de Braunschweig não tomam a investigação como resolvida ou sequer esclarecida. "Sempre desconfiamos que esse caso tinha as mãos da Stasi", comentou o ex-promotor público da região, Hans-Jürgen Grasemann à Deutsche Welle em julho de 2013.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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