quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma paixão, um clube e crimes de guerra

Svetlana Raznatovic, a famosa Ceca (Foto: Blic.rs)
Já pensou se a presidenta do seu time fosse uma cantora popularíssima? Sei lá, se a Ivete Sangalo aparecesse de repente e herdasse o cargo diretivo do seu clube do coração. Pois é, o Obilic, da Sérvia, já teve uma cantora famosíssima nos Bálcãs como manda-chuva. O problema é que ela via o time como fonte de renda e anos depois de deixar o cargo, foi presa por irregularidades em negociações de jogadores.

Ceca assiste a jogo do Estrela Vermelha em 2012
(Foto: Blic.rs)
O gosto por caras maus
O futebol demorou a entrar de vez na vida de Ceca (lê-se Tchêca). Quando ela ainda era Svetlana Velickovic, podia ser conhecida como  "Mãe da Sérvia" e ilustre torcedora do Estrela Vermelha. No fim dos anos 80, foi alavancada à fama com canções pop e baladinhas românticas. Era casada com um gângster de Belgrado e se divorciou dele para viver um novo amor.

Este novo amor era apenas Zeljko Raznatovic, ou Arkan. Arkan era o típico cara que nem de longe era um bom partido. Afinal, ele era envolvido com pequenas encrencas como separatismo, assassinatos e crimes de guerra. Líder de um grupo paramilitar conhecido como "Os Tigres de Arkan", Zeljko era procurado pelas principais agências de espionagem internacionais. Não era só um mafioso furreca como o primeiro marido de Ceca. 

Os mafiosos e até a polícia temiam Arkan, que desde os 15 anos já se envolvia em roubos. Alinhado com o Ministro do Interior iugoslavo, que era amigo de seu pai, tinha várias de suas peripécias abafadas pelo político, que percebeu a vocação do rapaz para se infiltrar em lugares com forte segurança. Pois Zeljko passou a prestar alguns freelas para o Serviço secreto da Iugoslávia. Preso na Suíça em 1981, conseguiu fugir facilmente graças ao seu bom relacionamento com membros da cúpula governamental. Em suma, ele fugiu em incontáveis vezes, talvez mais de trinta. Virou top 10 da lista de procurados da Interpol. Nada segurava Arkan em cana, era um lambari ensaboado. Não bastasse esse plano de fundo, voltou para a Iugoslávia em 1983 e virou líder da Delije, a torcida organizada do Estrela Vermelha.

Foto: Vesti online.rs
Sangue nas mãos e casamento
Em questão de meses, os Delije viraram uma ramificação das forças paramilitares iugoslavas de Arkan. Os Tigres de Arkan eram considerados heróis sérvios por defender a pátria com unhas e dentes. Zeljko liderou várias ações nos conflitos que precederam a dissolução da Iugoslávia.

Entre uma batalha e outra, conheceu Ceca e a fez abandonar seu ex-marido trambiqueiro. Some dois torcedores fanáticos por futebol e muito dinheiro: Ceca e Arkan compraram o Obilic em 1996, um clube que nunca foi nada demais na Sérvia, apesar dos 72 anos de história. Impulsionado pelos dois ícones nacionalistas (apesar de Zeljko ser esloveno), o clube viu um repentino investimento milionário e começou a se notabilizar como grande força local. Ameaçando o domínio de Partizan e Estrela Vermelha, o Obilic foi campeão iugoslavo em 1998 e se classificou para a Liga dos Campeões, caindo na fase preliminar contra o Bayern. A eliminação foi por uma goleada de 4-0 na Alemanha.

Foto: Ceca.rs
"Ganhe do meu time e quebro suas pernas"
Foi com este lema que o Obilic começou a assombrar os seus rivais na liga. Pode parecer surreal, mas em tempos de guerra, as ameaças aos adversários do time de Arkan eram constantes e em nada assustavam o resto do mundo, que já via nas páginas dos jornais a violência que tomou as ruas na Sérvia, Bósnia e na Croácia. Entre tanques, soldados em formação de ataque e metralhadoras, o que são algumas pernas quebradas em nome do futebol? Na arquibancada, os Tigres de Arkan gritavam aos jogadores rivais: "quebraremos suas pernas, pisaremos em suas mãos. Se marcarem, nunca sairão vivos do estádio". Um clima muito familiar, certamente.

Você teria coragem de tomar essas ameaças como blefe? Não quando qualquer fagulha pudesse terminar em tiroteio. Sabendo disso, qualquer equipe que entrava em campo diante dos Cavaleiros de Raznatovic não oferecia grande resistência. A campanha final foi de 27 vitórias, 5 empates e apenas uma derrota, com 86 pontos somados na tabela. O vice-campeão, Estrela Vermelha, ficou com apenas dois pontos a menos, mas escapou de ter seus jogadores surrados. A única derrota veio para a Vojvodina, na segunda rodada, por 1-0. Não sabemos ao certo se a equipe alvirrubra de Novi Sad sofreu represálias.

Anos depois, o meia Perica Ognjenovic, que jogou anos pelo Estrela Vermelha e foi vendido ao Real Madrid, diria aos jornais que "aquilo não era futebol, era guerra. Foi melhor ter deixado o país", sobre a forma como a liga local ficou submissa aos desmandos e ameaças dos homens de Raznatovic.

"A nova patroa chegou", diz a capa de uma
revista especializada em futebol na Iugoslávia
(mentira, não sabemos o que está escrito aí)
Foto: Ceca-Online.rs
A ascensão de Ceca à presidência
Logo a UEFA se deu conta que o campeão iugoslavo iniciava um reinado de terror. Em 1998, após a eliminação do Obilic para o Bayern, a entidade europeia resolveu impedir que Arkan continuasse no cargo. A solução? Nomear sua caríssima esposa para tal. A foto ao lado mostra como o elenco ficou confortável perto da nova patroa.

Ceca frequentou o estádio e durante toda a semana antes dos jogos era vista nas tribunas, mesmo em treinamentos. No centro dos holofotes da imprensa, ela teve um período curto de seis meses no comando, antes de abandonar o cargo. Dois anos depois voltou e o time enfrentou um período de severa decadência por uma série de fatores.

A morte de Arkan e o declínio do Obilic
Ninguém ousava duvidar que o amor entre Svetlana e Zeljko era enorme. Em janeiro de 2000, ele foi baleado na cabeça por invasores num hotel onde estava hospedado, em Belgrado. Ainda teve tempo de encontrar Ceca num carro para o hospital, mas faleceu no caminho. Sem rumo, ela precisou se virar para manter o Obilic no topo da Iugoslávia. Por um ano conseguiu, mas eventos esquisitos começaram a se tornar rotina dentro da diretoria. Negociações de vários jogadores deveriam render uma boa grana aos cofres, mas incrivelmente o elenco não tinha boas reposições e bem, ninguém via a cor do dinheiro destas vendas.

Onze anos depois da morte do marido, Ceca cumpriu 12 meses de prisão domiciliar, quando a justiça sérvia provou que ela tinha envolvimento nos desvios de cerca de 15 negociações de jogadores do Obilic. A polícia de Belgrado foi fazer uma busca em sua casa e encontrou várias armas, as quais ela jurou serem de Arkan. O falecido aparentemente ainda tinha boas posses em seu nome.

O legado
Caindo pelas tabelas, o time ficou sem nenhum dinheiro e enfrentou vários rebaixamentos seguidos, até parar na sétima divisão sérvia, de onde dificilmente vai sair no futuro. O que aprendemos com essa história, amigos? Que devemos ficar de olhos abertos caso cantoras famosas resolvam ter cargos importantes nos nossos times de coração. Se nem a Mãe da Sérvia conseguiu manter o nível do Obilic, imagine uma mera mortal.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.




Um comentário:

Alexandre Perin disse...

Muito foda, sérvio.

Tem tudo a ver com este: http://wp.clicrbs.com.br/almanaqueesportivo/2007/10/03/futebol-e-fascistas-uma-relacao-antiga-na-europa/?topo=13,1,1,,10,13