terça-feira, 2 de julho de 2013

Uma agressão totalmente injustificável

Foto: A pie de pista
Agressão de Juanito a Matthäus na Copa dos Campeões em 1987 é o momento mais lembrado da carreira do atacante do Real Madrid, desvirtuando os cinco títulos espanhois e as duas taças da Copa UEFA: falecido em 1992, só teve seu perdão antes da morte

Juanito era ídolo absoluto do Real Madrid. A torcida era fanática pelo atacante, que em dez anos de Bernabéu conquistou cinco vezes o campeonato espanhol e duas vezes a Copa UEFA. Não só venerado pelos títulos, mas também por seu temperamento explosivo e sua entrega dentro de campo. 

Presente em duas Copas do Mundo (1978 e 1982) e na Eurocopa de 80 pela Espanha, Juan Gómez González poderia ter tido outra história completamente diferente no futebol, não fosse uma lesão grave em 1972, antes de estrear pelo Atlético de Madrid. Emprestado ao Burgos, onde se notabilizou três anos depois como titular e pilar do time no acesso à elite espanhola, foi considerado em 1976 como o maior jogador da Liga espanhola pela revista Don Balón. Por pouco não começou sua carreira nos colchoneros, ao invés dos merengues.

Contratado pelo Real Madrid em 1977, jogou ao lado da segunda geração de estrelas do clube, como Jose Antonio Camacho, Quique Wolff, Uli Stielike, Emilio Butragueño, Santillana, Jorge Valdano, Ricardo Gallego, Chendo e Hugo Sánchez. Consolidado como um dos grandes daquela época no futebol espanhol, driblava fácil e era veloz como um demônio. Mas não só suas qualidades técnicas eram diabólicas. Pelo menos em duas ocasiões, sua esportividade pôde ser questionada. 

Madridistas comemoram título da Copa UEFA em 1986
(Foto: Museu virtual do futebol)
A era coroada do Real
Três vezes campeão nacional (de 78 a 80) e bicampeão da Copa UEFA em 85 e 86, Juanito fazia em campo aquilo que era esperado de um craque, uma estrela que brilhava muito na constelação madridista comandada por Vujadin Boskov e Luis Molowny. 

Vencedor do Pichichi de artilheiro da liga espanhola em 1984, o atacante era respeitadíssimo internacionalmente, apesar de ser um tanto quanto desmiolado de vez em quando.

Um selvagem na Europa
O ano era 1978 e o Real Madrid estava na Copa dos Campeões, pela 2ª rodada, contra o Grasshoppers. Em posição de impedimento, Juanito marca um dos gols que poderiam salvar a equipe espanhola da eliminação, mas o árbitro Adolf Prokop anula. Num arroubo de revolta, agrediu Prokop e foi suspenso por dois anos em competições europeias. 

De volta da primeira sanção da UEFA, colaborou diretamente para uma virada histórica dos blanquillos contra o Celtic, nas quartas de final da Copa dos Campeões de 1979-80. Deu duas assistências e marcou o terceiro gol, que virou o agregado para 3-2 a favor dos espanhóis e colocou o Real nas semis. Outro episódio lamentável foi uma cusparada no rosto de Stielike, que em 1986 defendia o Neuchâtel Xamax pela Copa UEFA. Juanito não foi punido pelo ato rude.

Foto: Who ate all the pies
1987: o fatídico ataque a Matthäus
Oito anos depois da primeira suspensão, Juanito não conseguia se desvencilhar do seu estilo selvagem de ser. Só lhe restava vencer a Copa dos Campeões, sonho que tentava cumprir em 1987, quando o Real encontrou o Bayern na semifinal do torneio. Em Munique, os bávaros venciam por 3 a 0 quando Lothar Matthäus estava caído após uma falta sofrida, aos 39 do primeiro tempo.

Mais uma vez descontrolado, Juanito pisou nas costas do alemão e ainda desferiu uma solada na cara de Matthäus, rendido desde o primeiro golpe. 

Lothar posteriormente admitiu ao jornal As que o espanhol lhe pediu perdão após aquela patada: "Ele me pediu desculpas quase no momento em que me atingiu. Demonstrou que era um cavalheiro e uma boa pessoa. Só posso falar do que já foi. Minha recordação dele é de uma pessoa nobre e sentimental". Difícil acreditar que tenha sido tão nobre assim a retração após tanta brutalidade.

Decadência de um mito
O ato imbecil rendeu uma punição de cinco anos ao madridista em competições europeias. De 1987 a 1992 ele não poderia mais ser escalado pelo Real em jogos internacionais. Por esta razão, foi vendido ao Málaga, 10 anos depois de sua chegada ao Santiago Bernabéu. Aos 33 anos, não tinha muito mais o que fazer na carreira.

Juanito teve como último título a segunda divisão pelo Málaga, em 1988. Desprestigiado pelo seu caráter mostrado em campo, se aposentou em 1991, numa rápida e facilmente esquecida passagem por Los Bolichos de Fuengirola. Morreu num acidente de carro em abril de 1992, aos 37 anos. E talvez só neste ponto tenha sido perdoado por todos que hostilizou durante sua carreira. Aos madridistas, restou apenas a memória de alguém que honrou a camisa quando esteve nos gramados.

Por que é descraque
Sete anos combinados de banimento com apenas dois atos de violência falam por si. Além de bicampeão da Copa UEFA, Juanito também era referência em ser fora da casinha. Um craque de bola e sem cérebro. 

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é redator na Trivela, além de ser o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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