quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Príncipe etíope

Foto: FIFA
Ser apelidado de "Príncipe Etíope" poderia significar uma porção de coisas para Valdir Pereira. Poderia ser uma metáfora para a sua riqueza que contrastava com a miséria na Etiópia, um elogio pela sua finesse no ofício e por fim, um reconhecimento de sua importância para o futebol no seu país. Mas...

Valdir não era etíope. De etíope só trazia a cor da pele e a magreza que nunca foi seu ponto fraco. Não houve volante mais clássico do que ele e num tempo de muita técnica, conseguiu ser referência. Por uma série de motivos, é um dos maiores jogadores que a seleção brasileira teve. O Fluminense e o Botafogo podem dizer a mesma coisa.

Didi foi enorme entre os grandes e merece muito reconhecimento por isso. Primeiro por liderar o Fluminense campeão carioca em 1951 e da Taça Rio em 1952, depois por ter sido um dos mentores do maior Botafogo da história, ao lado de caras como Manga, Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo e Garrincha. Campeão do Torneio Rio-São Paulo, tricampeão carioca, consolidou-se como um dos gigantes brasileiros na década de 50 e 60. Era praticamente o gerente desses times talentosos que fez parte. Era o professor, o chefe, o manda-chuva. Antes disso, tinha começado no Americano, passado pelo Lençoense e pelo Madureira, tudo na década de 40, antes de ajeitar seus trapos nas Laranjeiras.

Com a seleção, a mesma regularidade apresentada em Flu e Bota. Exímio atleta com ou sem a bola nos pés, Didi não era daqueles meias fisicamente imponentes. Magro e de porte médio, sabia tratar a bola como poucos, conhecia as manhas daquele pedaço de couro e até criou um truque fantástico. É tido como criador da trivela e do chute "folha seca", técnica que consiste em bater com o lado de fora do pé e dar um efeito venenoso onde a bola desce de repente, um terror para goleiros. Apesar disso, era criticado por ser sonolento e displicente, que supostamente só jogava quando queria. Preguiçoso ou não, se acostumou a deixar colegas em condição ideal para finalizar, sempre com passes preciosos de longa distância. 

Como foi aquele chute "folha seca" contra o Peru
Em 1956, deixou o Fluminense e assinou com o Botafogo, batendo um recorde de transação no futebol brasileiro. Não iria se arrepender disso quando começou a erguer uma série de troféus pelo Glorioso.

Dois anos depois da mudança de ares, jogou o fino na Copa do Mundo de 58 e não há ninguém no mundo que possa dizer o contrário. As atuações no primeiro título do Brasil foram tão impressionantes que a imprensa internacional passou a chamar Didi como "Mr. Football", tamanha sabedoria. Não à toa foi eleito o principal jogador daquela competição. Fez um golaço contra a França na semifinal, na goleada por 5 a 2. Pouco?

No auge, aceitou se juntar ao estelar Real Madrid, onde conquistou a Copa dos Campeões da Europa em 1960, ao lado de deuses como Puskas e Di Stéfano. Ainda assim, esse talvez seja o período em que Didi tenha ficado mais inadaptado num clube. Longe do Brasil, do seu povo, de sua soberania, voltou em 61, para o mesmo Botafogo que lhe deu o status de lenda viva.

Bicampeão mundial com o Brasil, o Príncipe Etíope já poderia se aposentar e deixar saudade em quem o viu passar pelos campos. Em 1963, foi jogar pelo Sporting Cristal e criou uma certa ligação com o povo peruano. Essa mesma ligação lhe fez virar técnico da seleção do Peru que foi para a Copa de 70, com grandes craques como Chumpitaz e Cubillas. Vestiu a camisa do Botafogo por mais duas oportunidades, em 1964, quando voltou do Peru, e em 1965, ao voltar de empréstimo do São Paulo. Também defendeu o Veracruz do México em 65 e se aposentou no tricolor paulista, em 66, aos 38 anos.

Pacato, Didi não viveu na pobreza como a maioria de seus companheiros. Guardou boas economias do seu tempo de jogador e foi técnico até o ano de 1990, quando treinou o Bangu. Passou pelo banco do Sporting Cristal, da seleção peruana, do River Plate, Fenerbahçe, Fluminense, Cruzeiro, Al-Ahli, Botafogo, Fortaleza, São Paulo e Alianza Lima. Morreu aos 71 anos, de câncer, um mês depois de descobrir que estava doente. 

Presente em três Copas do Mundo e campeão em duas, Didi fez do meio campo a sua casa, e o conhecia como a palma de sua mão. Quando chegava para o bote ou tentava se livrar de um marcador, quando girava com a bola nos pés e de repente encontrava uma opção lá longe, mostrava como a fantasia podia ser real de vez em quando. Era o cérebro, era o motor, mas também sabia ser o cavalo que puxava a carruagem. Valdir Pereira não tinha grandes histórias, não queria ser e nem foi uma grande estrela. Fez o seu trabalho, com uma dignidade e uma competência que os mais nobres invejam. 

Valdir Pereira foi Didi, foi Mr. Football, foi Príncipe Etíope e tutor de Pelé. Não há honra maior que essa.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

Um comentário:

Anônimo disse...

Felipe Portes,na verdade o Didi jogava como Ponta Direita, e não como volante.Mas,de resto,está excelente.