terça-feira, 15 de outubro de 2013

Virar ou não a casaca?

Foto: Taringa
Virar a casaca é sim um problema de caráter. Ninguém jura amor eterno a algo e na primeira chance veste outras cores. Pode até ser amor pelo segundo, mas se mudou consciente, por raiva, arrependimento ou sofrimento por demais, então nunca foi amor pelo primeiro.

Não há só uma verdade nisso tudo, não sejamos tão taxativos ou radicais. Sempre há uma explicação para quem muda de time. Muda porque não aguenta mais ser motivo de chacota, não se sente respeitado pelo clube que cresceu aprendendo a venerar, não quer mais viver longe dos títulos e por fim, deve ter enxergado em outra camisa uma paixão que fosse forte o bastante pra abandonar o seu antigo amor. E o que isso diz sobre nós? Muita coisa.

Você abandonaria um grande amor? Um amor que te fizesse sonhar tão alto quanto as nuvens (licença para ser piegas, o argumento precisa disso pra ter força), que te trouxesse um sorriso no rosto ao lembrar dos grandes momentos, aquele doce sabor de lembrar da conquista de ontem, do passeio no parque, da mão dada na arquibancada e do beijo que vem antes do gol? Ah, você ama. Você cresceu amando, ou acreditando nessa hipótese de morrer sempre gritando o mesmo nome. Campeão ou rebaixado, estava lá derramando suas lágrimas pelo mesmo amor.

Como você se sentiria se de repente, após alguns meses ou anos de melancolia, você decidisse que deve abdicar desse sentimento e partir pra outra, tentar alegrar o seu pobre coraçãozinho que já viu de tudo, bateu mais forte naquele título que escapou no último minuto, que latejou quando caiu pra segunda divisão e depois dessa crise nunca mais conseguiu merecer aquelas suas palavras aquecidas de afeto, de 'eu acredito', de 'eu nunca vou te abandonar'?

Daí vem aquele time que arrasa quarteirão, que joga bonito e que bota no campo aquilo que você sonha. Que faz a torcida enlouquecer na arquibancada, que gera um suspiro, um arrepio, um sopro na alma, um frio na barriga. Você sabe que tem algo diferente passando por dentro do peito, mas não quer admitir. De repente, vai a um jogo daquele velho amor, como se ainda precisasse dar uma chance, ver se é isso mesmo.

A pipoca está murcha, o refrigerante sem gás, não faz sol, nem chove, é só cinza. Sai um empate em 0 a 0 daqueles que fazem a gente querer arrancar os olhos da cara, pedir os 90 minutos de volta como reembolso. Sem chutes ao gol, marcação amarrada, atacante imóvel, meio campo preso no esquema adversário. A torcida apática aos seus olhos, ninguém ali vibra. Que diabo. Nesse momento, você se convence que já está farto, que não merece mais esse tédio, essa falta de perspectiva. Precisava de algum motivo pra mudar e mudou, sem olhar pra trás. Procurou centenas de razões pra justificar a sua própria e simples desistência.

Vai na loja, compra uma camisa do novo clube. Passa a assistir os jogos pela TV, um dia toma coragem e vai ao estádio. De imediato sente aquela palpitação de quem está prestes a dar um novo e grande passo na vida. Senta na arquibancada, pega uma pipoca (bem temperada), chama o moço da cerveja e ela incrivelmente está gelada. Em vinte minutos, saem três gols, golaços, do craque do time, que olha para o seu setor como se soubesse que você está ali precisando ser convencido de que não está fazendo uma grande bobagem. Daí em diante não tem mais volta, você se vê seduzido pela novidade, pela vontade que todo ser humano tem de tentar algo diferente fora da sua zona de conforto.

Tira foto no estádio cheio, posta na internet, todo orgulhoso da sua escolha. Vai falar pra todo mundo que AGORA você está feliz, jogando fora tudo aquilo que meses antes prometeu, esqueceu o amor eterno e duradouro, esqueceu o na saúde e na doença, no título ou no rebaixamento, na primeira ou na segunda. Quebra as promessas que fez a si mesmo. Tudo em nome da ilusão de que o novo é melhor do que tentar superar uma crise de auto-estima, de confiança.

Quero ver quando você se olhar no espelho com aquele sorriso falso, de camisa nova, como se tivesse removido uma bala do peito. Quero ver se não vai se lembrar que amassou todo o seu passado, passado a ferro, a fogo, a decepções e a doces vitórias inesperadas. Vai ver não era amor de verdade. Vai ver você não achava que merecia viver sem levantar uma taça de vez em quando. Só vive de títulos? Vive apenas de glórias? Vive do quê? Não lute contra as suas próprias convicções e princípios. Virar a casaca é coisa séria. O futebol também é um espelho. Espelho cruel do que a gente acredita e de como entendemos o mundo.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.



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