quinta-feira, 31 de outubro de 2013

No olho do furacão

Foto: Canelada
Se você pudesse definir Edmundo em uma só palavra, qual seria? Encrenqueiro ou talentoso? Ídolo incontestável no Vasco e no Palmeiras, o Animal carrega as marcas de sua própria personalidade explosiva, que apesar de ter sido reparada no fim da carreira, não aliviou a melancolia do adeus.

Edmundo Alves de Souza Neto surgiu no Vasco em 1992 como uma grande promessa. Tinha de lidar com problemas extra-campo, é verdade, mas subiu como um foguete no time da Colina. Seu destino poderia ter sido traçado no Botafogo, mas episódios de mau comportamento o privaram de seguir carreira nos juniores do Glorioso. Não era mesmo para ser daquele jeito.

Edmundo contra o Vitória, em 1993, na decisão do Brasileiro
Foto: R7
De jovem ousado, com dribles curtos, gols repletos de ginga e a capacidade incrível de finalização fizeram do menino Edmundo um dos atletas mais interessantes de uma geração que foi muito abaixo do que se esperava, naquela transição dos anos 80 para o início dos anos 90. 

Vendido para o Palmeiras em 93, viveu grandes momentos nos títulos do Torneio Rio-São Paulo, do Brasileiro e do Paulistão. Ganhou quase tudo do seu jeito: irreverente e por muitas vezes irresponsável, como na tesoura voadora que acertou em Paulo Sérgio, na final do Paulista de 93 contra o Corinthians. Foi do narrador Osmar Santos que ganhou a alcunha de Animal.

"Ele está fora de controle, tudo pode acontecer"
O mundo ficava pequeno demais para o jogo de Edmundo. Visceral, explosivo, decisivo, também passou pelo Flamengo e Corinthians sem muito sucesso em 1995 e 96. Apesar de ter marcado muitos gols pelo Timão, saiu sem nenhum título e retornou ao Vasco, onde seria o principal artilheiro da campanha do Brasileirão de 97, marcando 29 gols. A marca seria superada só por Dimba, em 2003. Edmundo jogou muita bola e provou isso na atuação quase fantasmagórica contra o Flamengo, na semifinal daquele campeonato. Com três gols e uma dancinha hilária, afundou o rival na vitória por 4 a 1 que credenciou o cruzmaltino como finalista daquela edição. Nas finais contra o Palmeiras, que terminaram em empate sem gols, forçou sua expulsão no Morumbi e conseguiu estar em campo no Maracanã por meio de uma ação de efeito suspensivo. Só sua presença ajudou o time a ganhar a moral necessária para impedir o alviverde de sair do Rio com a taça. Graças à campanha na primeira fase, o Vasco levantou seu terceiro campeonato brasileiro naquele ano.

Foto: R7
Confusões em Florença
De malas prontas para a Fiorentina, causou incontáveis problemas em quase dois anos jogando em Florença. Tinha a companhia de craques como Rui Costa e Batistuta, até respondia bem em campo. Contudo, seu temperamento fez com que criasse uma série de desentendimentos com colegas, o que levou a pronunciamentos públicos de outros jogadores da Viola pedindo seu afastamento. No meio de 1999, já tinha acertado sua volta ao Vasco da Gama, que vivia a ansiedade de disputar o Mundial de Clubes da FIFA, no Brasil, em 2000.

Mundiais não traziam boas lembranças ao Animal. Em 1998, fez parte do grupo que apanhou da França na final, o que até hoje gera discussão em torno do que realmente aconteceu com o Brasil no dia que antecedeu a derrota por 3 a 0. Edmundo reclamava da reserva durante o torneio, achava que estava (neste caso, com razão) em melhor fase do que Bebeto, parceiro de Ronaldo no ataque (este era incontestável). Foi ter uma chance apenas contra Marrocos e na malfadada surra contra Zidane e seus companheiros. Entrou quinze minutos no jogo derradeiro e teve novos motivos para reclamar, quando Zagallo chegou a escalá-lo após a convulsão de Ronaldo, mas mudou de ideia quando o próprio camisa 9 pediu para entrar. Esse foi apenas um dos fatores que racharam a equipe que naufragou nas cabeçadas de Zizou no Stade de France.

Na sua volta a São Januário, Edmundo começou a sentir o peso de suas atitudes. Ele, que já tinha se envolvido num acidente de carro que tirou a vida de três pessoas, se queixara de salários atrasados, de companheiros que supostamente lhe sabotavam e por fim, causado outras tantas brigas históricas em campo (só lembrar a troca de murros com Zandoná, do Vélez, em 95), iniciaria tempos tenebrosos. Desfrutava de ser craque, mas ao mesmo tempo, era uma fera indomável. Ostentava a imagem de um dos últimos selvagens do esporte, um tigre descontrolado fora das quatro linhas. O pênalti perdido no Mundial na finalíssima contra o Corinthians foi seu pior momento como jogador, o que o próprio Edmundo reconhece quando lembra de suas agruras nos anos 90 e 2000.

Edmundo foi rebaixado com o Napoli em 2001
(Foto: Rai Sport)
O preço pela fúria constante
Viveu tempos no mínimo inglórios no Santos, no Napoli (onde foi rebaixado), no Cruzeiro, (foi dispensado após perder um pênalti contra o Vasco de forma displicente) e no Japão. Já não marcava tantos gols desde o período em que estava na Colina. Recuperou o bom futebol jogando por Tokyo Verdy e Urawa Red Diamonds, que deixou em 2003 para novo regresso ao Vascão. O cruzmaltino lhe esperava de braços abertos, como sempre. Sem receber como deveria, Edmundo deixou o clube mais uma vez aos protestos e disparando contra Eurico Miranda. Acertou com o Fluminense e ao lado de Romário, antigo desafeto, não brilhou e chegou a considerar a aposentadoria.

Algumas aparições discretas pelo Nova Iguaçu -que disputava a segunda divisão carioca- davam pinta de que os tempos do Animal como jogador estavam mesmo contados. Restou ao Figueirense lhe fazer um convite que daria início a novos tempos. Veterano, aos 34 anos, Edmundo virou o homem de família que pretendia ser, mas não pôde devido às badalações e problemas de comportamento. Mais maduro, foi muito bem no clube catarinense em 2005 e quase integrou a seleção da Bola de Prata da Revista Placar. Quis o destino que ao final desse campeonato, ele fizesse um jogo simplesmente estonteante contra o Palmeiras, no Palestra Itália. Na saída para os vestiários, conversou com dirigentes paulistas e acertou seu retorno para a temporada que viria.

Esqueça o velho Edmundo que nunca fugia de uma boa briga. Guarde na gaveta o Edmundo que procurava polêmicas para se envolver. Cansado de estar sempre no olho do furacão, teve uma fase pacífica e não menos prolífica no Verdão. Artilheiro do Paulistão de 2007, decidiu novamente contra o Corinthians durante uma vitória por 3 a 0, calando ainda duvidava de que ele era um dos mais talentosos e importantes na história do Palmeiras. Sem a mesma velocidade de antes, Edmundo precisou compensar a idade avançada com a inteligência e um bom posicionamento dentro da área. Aquele espírito furioso deixou o corpo do atacante de uma vez por todas quando numa briga colossal em um jogo da Libertadores contra o Cerro Porteño, o camisa 7 preferiu tentar apaziguar os ânimos dos colegas que se digladiavam entre socos e pontapés com os paraguaios. Parado no meio-campo, Edmundo apenas viu o circo pegar fogo sem levantar um dedo. Quem diria...

Foto: Globoesporte.com
Reconciliar por amor, separar por desgraça
Era hora de retomar o caso de amor com o Vasco, curar as feridas de um passado traumático e selar a paz com a maior paixão da sua vida. Ao fim de 2007, acertou seus termos com o cruzmaltino e encerraria sua trajetória de altos e baixos em 2008. Só que não foi mesmo como o Animal esperava. Nada salvou o time da Colina do primeiro rebaixamento, e foram vários os momentos dramáticos. Ninguém sofreu mais do que Edmundo, que acenava com o adeus, era o capitão e antes mesmo do mundo desabar, perdeu um pênalti contra o Sport na semifinal da Copa do Brasil, punindo a si mesmo raspando seus cabelos em forma de penitência. Quando o Brasileirão se encerrou, foi com ele a carreira do craque temperamental, que precisou lidar com uma queda para a segunda divisão num ano que tinha tudo para ser especial.

Foram 16 anos como jogador. Muitas polêmicas, brigas, provocações, idas e vindas. Gols, muitos gols. Títulos, então, nem se fala. Edmundo foi o último dos moicanos um tempo onde quase tudo era permitido para quem exibia a etiqueta de craque. Arrependido pela bagunça que fez com a própria vida, o atacante talvez nunca vá deixar de ser visto como bad boy. Por outro lado, sempre terá o carinho das torcidas de Palmeiras e Vasco, a quem até hoje presta seu devido respeito pelos anos de amor.

Edmundo pode não ter sido um romântico como muitos gostam de se gabar. Ele viveu intensamente o futebol, do seu jeito desvairado de ser grande.

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

Um comentário:

Noedyr Zanqueti disse...

Au au au Edmundo é animal, nunca um grito de torcida representou tanto um jogador. Ícone da infancia, jogou muito em 97