sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Um craque sem taças

Susic em ação pelo PSG (Foto: Dosna jemo)
Se a Bósnia conseguiu pela primeira vez estar em uma Copa do Mundo, o maior responsável pode não ser nenhum dos jogadores em campo, mas sim o treinador e grande nome do futebol do país: Safet Susic, craque que fez sua carreira no Paris Saint-Germain.

Para que possamos entender o que Safet Susic significou como lenda em sua terra, é preciso voltar no tempo. Em meados dos anos 1970, ainda menino, ganhou espaço no principal time da Bósnia, o Sarajevo. Com 18 anos estreava como profissional e não iria decepcionar a ninguém quando teve chances na equipe titular. 

O talento para criar jogadas, a facilidade com que passava a bola para quem quisesse no campo e por último o seu drible mortal, fizeram do meia uma estrela. Você sempre sabia que o mágico poderia tirar o coelho da cartola, só não podia adivinhar quando. A ansiedade a que Safet submetia seus adversários é uma das coisas mais fantásticas que o futebol francês viu em seus campos.

Foram nove anos dedicados ao Sarajevo e mais nove ao Paris Saint-Germain, clube que passou a defender depois de 1982. Encarando a dura concorrência de Estrela Vermelha, Partizan, Dinamo Zagreb, Hajduk Split e outras forças na Iugoslávia, saiu da antiga pátria apenas com um prêmio de artilheiro do campeonato local, em 1980, com 17 gols.

Foto: Site oficial Paris Saint-Germain
Dono da bola, aquele que a conduzia com carinho e se livrava dela como quem sabia que ela iria voltar, Safet foi invariavelmente genial nos seus tempos em Paris. Não à toa, ganhou a honra de ser considerado o maior estrangeiro da história do futebol francês e o melhor jogador que o Paris Saint-Germain já teve, de acordo com pesquisa feita pela revista France Football. Sua marca registrada, além de sempre aparentar ter cola nas chuteiras, era a meia abaixada quase até o tornozelo, numa afronta aos zagueiros brutamontes e trogloditas.

Mesmo ignorando a possibilidade de lesão, Susic passou 19 anos de sua carreira sem se contundir com frequência. Eram raros os momentos em que o bósnio ia para o departamento médico, desfalcando o clube ou seleção por qualquer tipo de suspensão. Disciplina e resistência que também contavam a favor do craque.

Foto: Fox Sports
O Zico dos Bálcãs
Diria João Saldanha em certo confronto entre Brasil x Iugoslávia, nos anos 80, que "se Zico se chamasse Zicovic, os iugoslavos teriam vencido", tamanha magnitude da atuação do Galinho de Quintino. João provavelmente levou em conta que os europeus também tinham um elemento decisivo entre seus titulares.

Safet sabia o momento certo de arrematar. Muitas de suas jogadas eram na base da habilidade, levando a bola quase até a pequena área e gerando um clima de suspense para os goleiros, perdidos, a esperar um momento para saltar. 

Quando os arqueiros pensavam ter vencido o duelo no mano a mano, saía um chute rasteiro ou bem no canto, fazendo a bola morrer nas redes. Autor de gols incríveis, o bósnio tinha um senso de decisão que era acima da média. Se não acertava um passe quase impossível, dava cabo de terminar o serviço. Entretanto, é indiscutível que seu maior dom era mesmo ser um garçom, um homem mais criativo do que conclusivo.

Em 1991, deixou o PSG e foi para o Red Star Paris, onde encerrou a carreira no ano seguinte, jogando pela segundona francesa. Foi o mentor da Iugoslávia no Mundial de 90, fazendo um gol contra os Emirados Árabes Unidos numa goleada por 4 a 1. A queda dos iugoslavos aconteceu nas quartas de final, contra a Argentina de Maradona. Naquela altura, com 35 anos de idade, Susic já tinha feito demais pelo esporte, que foi presenteado com algumas centenas de lances brilhantes. 

Se passaram 21 anos desde que ele pendurou as chuteiras, até que a Bósnia conseguiu sua primeira classificação para a Copa do Mundo. Em 2011, numa campanha igualmente admirável, os bósnios foram para a repescagem da Eurocopa de 2012, com Susic no cargo de treinador. Nada mais justo do que o maior jogador do país comandar a melhor seleção que a Bósnia já teve em sua curta história. Injusto mesmo é saber que ele passou todo esse tempo apenas com dois títulos, conquistados no PSG.

Safet Susic
Nascimento: 13/04/1955, em Zavidovici - Bósnia e Herzegovina
Posição: Meia-atacante e segundo atacante
Clubes: 1973-82 FK Sarajevo, 1982-91 PSG, 1991-92 Red Star Paris
Títulos: Campeonato francês 1986 e Copa da França 83
Títulos pessoais: Melhor estrangeiro da história da Ligue 1,  Melhor jogador da história do PSG
Participações em Copas: 1982 e 90
Eurocopas: 1984

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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