sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sandro e o legado dos Mazzola

Foto: Sempre Inter
Quando Sandro Mazzola estreou pela Inter, único time que defendeu durante 17 anos de carreira, a primeira partida poderia sugerir que ele teria temporadas trágicas. Ao se aposentar, o herdeiro de Valentino Mazzola conquistou a idolatria da torcida interista.

Se Sandro tivesse seguido o caminho do pai Valentino e do irmão mais novo Ferruccio, provavelmente teria moldado sua fama como jogador do Torino. Com seis anos de idade, já morando com a mãe, perdeu o pai na tragédia de Superga, onde 18 atletas do Toro perderam a vida. O avião que trazia o time italiano de volta após um amistoso com o Benfica se chocou com a Torre de Superga e vitimou mais um grupo de jornalistas que acompanhavam a equipe. 

Aquele time era conhecido como o "Grande Torino", que conquistou cinco scudettos na década de 40 (incluindo o próprio de 1948-49, em que o time juvenil foi escalado nas últimas quatro partidas). Valentino era o capitão e provavelmente ficaria muito orgulhoso do que seus herdeiros conseguiram.

Foto: Il Post
Apesar de estrear num dia péssimo para os nerazzurri, numa derrota por 9 a 1 para a Juve, Sandro foi o autor do gol de honra. Naquele 10 de junho de 61, a Inter escalou seu time juvenil. Seus feitos como um dos atacantes da Beneamata marcaram época nos anos 60. Era o destino de Sandro também fazer parte de um dos maiores times da história do futebol italiano. A Grande Inter foi capitaneada por Armando Picchi e tinha o catenaccio como cartilha. A defensividade era o principal fator daquela equipe treinada por Helenio Herrera, mas do meio pra frente, com Mazzola, Luis Suárez, Jair da Costa, Mario Corso e Joaquín Peiró, conseguia ser infernal.

Sandro era muito rápido, com faro de gols e difícil de ser marcado. Além disso tinha uma visão incrível de jogo, o que pode ser visto em qualquer vídeo sobre seus talentos. Quando corria, parecia que só ia parar dentro do gol. Armava grandes ofensivas e corria como uma flecha para completar o lance se preciso. Fez gols importantíssimos pela Inter e pela seleção italiana, que defendeu em três Copas do Mundo e uma Eurocopa, a única conquistada pela Squadra Azzurra, em 1968.

Só restou a Sandro ganhar uma Copa do Mundo. Passou perto em 1970, na final em que a Itália foi amassada pelo Brasil. Não que ele precisasse disso para ser reconhecido como um gigante em seu país. Querido pela torcida interista, foi bicampeão europeu, bicampeão do Intercontinental, tetracampeão italiano e uma vez campeão da Copa da Itália.

Foto: Il Giorno
O rodízio
Artilheiro da Serie A em 1964-65, Mazzola fez parte de uma das maiores discórdias da seleção italiana. Durante a Copa de 70, o treinador Ferruccio Valcareggi insistiu que não poderia usá-lo ao mesmo tempo de Gianni Rivera, craque do Milan. Ainda que Rivera fosse um meia ofensivo, não necessariamente um atacante, Valcareggi promovia um rodízio entre os dois. Cada um jogava um tempo, o que só foi desfeito na final, quando Rivera entrou faltando oito minutos para o fim. A essa altura, o placar já estava em 4 a 1 para o Brasil.

A noite da consagração em Viena
Certamente, o troféu mais memorável na carreira de Mazzola foi o europeu de 64. Diante do Real Madrid, no Praeterstadion em Viena, o atacante da Inter marcou duas vezes para dar a vitória ao seu time, no placar de 3 a 1. Aurelio Milani marcou o outro gol interista e Felo diminuiu para os espanhóis, já quando a vaca tinha ido para o brejo. Sandro foi o artilheiro da competição com 7 gols ao lado de Vladica Kovacevic, do Partizan, e Ferenc Puskas, então no Real Madrid. 

Aos 29 anos, concorreu ao prêmio da Bola de Ouro pela France Football em 1971, ficando atrás apenas de Johan Cruyff, no Ajax. Se aposentou em 78, quando passou a faixa de capitão para Giacinto Facchetti. Era o fim de uma era absolutamente vitoriosa na Inter, que se despediu de alguns de seus maiores ídolos nesse período.

Foto: Calciofication
Acusação de doping
Ferruccio Mazzola denunciou em 2004 em seu livro chamado "Il terzo incomodo" que a Grande Inter fazia uso de doping na maioria de seus jogadores. O irmão de Sandro alegava que essas drogas, geralmente entregues pelas mãos de Helenio Herrera, potencializavam o desempenho atlético de alguns jogadores. Em função disso, Sandro cortou relações com o irmão por tê-lo colocado como alvo de suas revelações. O uso indiscriminado de anfetaminas causou indiretamente a morte de alguns ex-interistas: um deles era Armando Picchi, que morreu aos 36 anos com câncer na espinha. Os outros citados foram Carlo Tagnin, Mauro Bicicli e Ferdinando Miniussi, todos com mortes por complicações envolvendo tumor ou hepatite.

Ferruccio ainda confessou ter usado uma medicação chamada Villescon, com propriedades parecidas com a anfetamina, em seus tempos de Lazio. A bomba caiu também sob a Fiorentina, que coincidentemente teve uma porção de ex-atletas mortos nos anos seguintes em decorrência do mau uso destes remédios. Carlo Mazzone, ex-treinador da Viola na década de 70, chegou a responder acusação de homicídio culposo por prescrição irregular dessas drogas, no entanto, o caso foi arquivado pela justiça de Florença em 2009. Processado pela Inter e absolvido pela justiça italiana, Ferruccio morreu em maio de 2013 sem poder provar nada, mas deixou uma tremenda pulga atrás da orelha no mundo do futebol. 

Sandro Mazzola
Nascimento: 08/11/1942, em Turim - Itália
Posição: Atacante
Clubes: 1961-77 Internazionale
Títulos: Copa dos Campeões da Europa 1964 e 65, Mundial Interclubes 1964 e 65, Serie A 1963, 65, 66 e 71, Copa da Itália 1978, Eurocopa 1968
Participações em Copas: 1966, 70 e 74
Eurocopas: 1968

Felipe Portes é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol.

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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