quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Um campeonato folclórico, emoções reais


Terça-feira, 11 de fevereiro de 2014. Rua Rui Barbosa, bairro da Bela Vista, São Paulo. Este local é conhecido como o coração do distrito do Bixiga, um bairro que não é bairro. O sotaque italiano, as festas, a personalidade diferente. É semelhante ao que acontece na Mooca, porém com menos propaganda (e sem reconhecimento distrital). Não existe uma divisão formal do que é Bixiga do que não é, mas basta estar ali presente para notar.

Adentro uma das inúmeras e famosas cantinas da rua. Pego uma mesa grande, afinal são muitos convidados, e peço por uma perto à entrada.

Cheguei antes do combinado, então poderia ver um pouco do movimento do local. Era almoço de dia de semana, então não há aquele frenesi costumeiro das famílias italianas gritando no meio do jantar. Eram basicamente alguns poucos executivos, já que a região também não é famosa por ser um centro comercial.

Enquanto olho as centenárias casas geminadas com senhoras nas janelas e seus panos pendurados nos ombros, começo a preparar o material para a entrevista. Antes que conseguisse colocar o gravador em cima da mesa, um polvo vestido de garçom aparece, equilibrando incontáveis pratinhos e uma cesta com mais pães dentro do que na sacola que trago em minha visita semanal à padaria. Grossas fatias de pão italiano, manteiga, azeitonas (pretas e verdes), aliche, patê, sardella...

Alguns instantes depois, a equipe do Bixiga Saint Gennaro entra porta adentro. E veio completa, inclusive com Bruno Rodrigues, jogador que foi cortado da competição por lesão algumas semanas antes. Cumprimentamo-nos e começamos o bate papo.

Repórter (R): É verdade que vocês não se conheciam antes?

Thomas (TV - capitão): Quase verdade. Eu conhecia o Gaia já, tendo jogado com ele algumas vezes. Outros eu já havia conversado via Twitter, mas nunca havíamos conversado pessoalmente antes. É importante lembrar que o time foi todo sorteado, então as chances de todos se conhecerem era bem remota.

Seme (S): É verdade. Lembro que no dia do sorteio eu fiquei tenso, acompanhando a transmissão via YouTube e Twitter, atento para saber em qual time cairia. E meu nome não havia sido sorteado.

Thiago (TA): Eu também não fui sorteado nesta primeira rodada!

TV: O Seme entrou no time depois da lesão do Bruno Rodrigues, que era nosso goleiro original.

R: O que aconteceu, Bruno?


Bruno Rodrigues (BR): Eu estava com algumas dores no joelho e fui ao médico. Depois de alguns exames, veio a bomba “Você rompeu o cruzado anterior. Tá fora do campeonato no dia 8”. A notícia mexeu comigo. Eu que há quatro meses era semifinalista da primeira edição da Trifon Ivanov com os nanicos do Neuchatel Chavantes, inclusive saudades. Eu estava fora da Trifon Ivanov. Não ia poder jogar. E o pior, eu teria que operar o joelho. Mesmo assim, pedi ao Thom que me cortasse do time mas não da equipe. Iria ajudar ali na beira do campo, rever amigos e auxiliar no time no que fosse. Eu adoro a Copa Trifon Ivanov.

R: E aí então veio o Seme, o jogador mais alto da Copa.

S: E o mais curioso é que conheci a Copa pelo Bruno. Me interessei de tanto ouvi-lo falar sobre.

R: Falando agora sobre o campeonato, vocês fizeram o jogo inaugural desta edição. Por uma incrível coincidência dos sorteios, os 2 capitães que jogaram a final anterior estavam em campo, novamente se enfrentando. Foi uma pressão extra?

TV: Foi até engraçado. O nosso grupo não chegava nem perto do nível técnico do grupo D, mas ouso dizer que era o grupo que chamava mais atenção pelas rivalidades. Eram 4 times rivais, de amigos fora do campo mas “que se odeiam” lá dentro. Se levar em consideração a rivalidade que ficou pela final da I Copa e como ela terminou, os nervos já entraram pegando fogo. Então, de certa forma, acaba sendo mesmo uma pressão extra. O jogo foi nervoso, pegado, e terminou como costumam acabar os jogos entre Portes e eu: empatado (Nota: até hoje foram 3 confrontos, 3 empates, incluindo a final citada que foi decidida nos pênaltis).

R: Ficaram satisfeitos com o desempenho neste jogo, em que todos os olhos estavam para vocês?

TV: Todos olhavam pra gente mas gritavam CHUPA PORTES.

João Luiz (J): Chupa Portes!

Resto do time: Chupa Portes!

Mauricio Gaia (M): Eu acho que poderíamos ter vencido o primeiro jogo. Estava preocupado com meu joelho, ele não estava muito bem. Se forçasse logo de cara, poderia arrebentar e ser baixa para o resto do campeonato. Tentei me poupar mais.

BR: Achei animador o empate com o time rosado da Granja. Galinha voa?

S: A verdade é que erramos muitos gols e eu tive sorte em alguns lances, que a bola passou por mim e bateu na trave. 3 vezes!

Bruno Hoffmann (BH): Havíamos debatido antes do jogo os posicionamentos e acordamos que neste primeiro jogo eu jogaria mais avançado, com o Thiago ao meu lado e o Gaia na frente, protegidos na retaguarda pelo Thom e Diego. Por algum motivo, não funcionou bem, estávamos desorganizados.

TV: Nós não conseguíamos avançar. O Granja marcava muito bem a saída de bola, pressionando no ataque. A bola só chegava ao Thiago ou Gaia por lançamentos e, mesmo assim, a defesa deles estava bem montada. Só restava ao Thiago receber e chutar, não conseguíamos armar jogadas ofensivas eficientes.

TA: Corri muito, cheguei cedo, mas o sol e o calor chegaram antes. A parte física cobrou demais, a cada jogo eu corria menos que no anterior.

Flávio (F): Eu não havia conversado ainda direito com todos, como vi que eles já debatiam melhor os posicionamentos, fui pro banco nesta primeira partida.

Diego (D): Eu entrei nesta partida, mas o medo de errar um passe, um bote, de fazer um pênalti tava brabo. A combinação calor mais falta de fôlego também não ajudou e logo na primeira subida ao ataque, tive que sair de campo.

R: Aí veio o segundo jogo e uma derrota. Ali as esperanças já acabaram?


TV: Com todo o respeito ao Trianon, mas ali perdemos para nós mesmos. O time estava bem desorganizado. Tomamos um gol besta logo no começo, mas em seguida empatamos com o Flavio.

D: Aí no fim do jogo entra o Bruno Santos, eleito melhor reserva do campeonato, e marca um gol em um vacilo coletivo da equipe.

TV: Havíamos atacado em massa no lance anterior e o Gaia errou o gol por muito pouco. O problema foi que o calor cobrou o preço e ninguém tinha fôlego para voltar, então eu fiquei sozinho na defesa contra 3 atacantes do Trianon, sendo que um deles havia acabado de entrar. O que aconteceu? Gol. E não havia mais tempo para reação.

R: Mesmo assim havia uma oportunidade de continuar na série A após o jogo contra o Velez. Eles já estavam garantidos, então deveriam se poupar.

TV: Exato. Porém dependíamos do resultado do outro jogo. O mais louco é que o Granja Eviana também poderia se classificar, mesmo tendo empatado e perdido um jogo.

R: Os 2 jogos decisivos do grupo A eram ao mesmo tempo, em quadras em frente uma à outra. Aí rolou aquele lance do protesto de vocês e...

TV: Aquilo foi algo combinado com o Borgo desde muito tempo. Casou que as oportunidades matemáticas permitiriam isso. O Portes precisava que o Bixiga não vencesse o jogo e eles precisariam vencer o Trianon. Na hora de entrar em campo, o Vélez e o Bixiga entraram perfilados, com os 2 capitães segurando uma faixa de protesto ao Portes. Eu peguei o megafone e comecei a gritar, fazer uma pressão psicológica a ele, falando que se dependesse da gente ele estava fora. O mais curioso é que precisaríamos deles também, mas a pilha pra cima do pseudoservio foi tão grande que não sei se ele tinha consciência disso. Nós tínhamos vantagem no saldo de gols e nos gols marcados. Se eles vencessem e nós também, provavelmente seria o Bixiga a classificar.

R: Porém...

TV: ...aconteceu a única coisa que não poderia. O Bixiga jogou muito bem, vencemos. Organizamos a equipe, eu inverti de posição com o Bruno. Sou mais rápido, distribuía mais fácil o jogo ali na frente e ele tem mais porte físico, o que ajudava bastante atrás. Só que o Bruno Santos, aquele mesmo que marcou um gol no final do nosso jogo contra o Trianon marcou também no jogo contra o Granja. Quando faltavam 5 segundos pro jogo acabar. Foi muito frustrante.

R: E foram parar na série Fluminense. Quais eram as perspectivas?

D: Enfrentaríamos um time forte fisicamente, o Penharol. Logo no começo do jogo eu tomei um chute NAS HOLANDAS, totalmente sem querer. Tive que sair do jogo e entrou o João no meu lugar. Deu muita movimentação e vencemos de virada, com 2 gols do Gaia.

M: E que dedico à Day e Isa. Beijos!

BH: Essa certamente foi uma das partidas mais disputadas da Copa.

TA: Eu estava já um pouco cansado, mas Flavio passou a brilhar no time e o João dividiu as correrias comigo. Com isso, Bruno travando tudo na zaga e Thom distribuindo as bolas entre nós três, com o Gaia revezando no ataque, o time fluiu muito melhor.

R: A semifinal foi o jogo mais fácil para vocês, pelo que pude ver.

TV: É verdade. O Steaua não havia jogado as quartas por causa da desistência do Borussia Moemagladbach, indo portanto à semi por W.O.

D: O jogo foi fácil porque tanto Flávio quanto Thiago fizeram uma partida fantástica.

R: E na final? O que aconteceu?

BH: A mesma facilidade que tivemos com o Steaua foi a que o Moocabi teve para nos derrotar.

D: Sabíamos que o jogo seria difícil, ainda mais depois da maluquice que foi a semifinal deles contra o Ajaxanã, com direito ao Julio Cesar arrancar a camisa e abandonar o campo. Pensamos que aquele nervosismo seria carregado para a final.

S: Olhei para o termômetro que havia ali e marcava 37°. Isso pesou demais, além das 5 partidas já jogadas.

TV: Some a tudo isso o talento que o Moocabi tinha, com jogadores bem habilidosos e rápidos. Não tínhamos chance, por mais esforçados que fôssemos. Os 5x2 provam isso, e é total mérito de Chiorino, Yuri e companhia.

S: Para falar a verdade, o resultado é o que menos importou neste sábado. Foi um dia memorável para todos.

BH: Mais do que isso. Entre cada jogo eu me sentia como se estivesse em casa, poucas vezes na vida vi uma reunião de tanto sangue bom.

J: A ideia da Copa Trifon Ivanov era de reunir amigos que se conheciam muitos apenas via Twitter e/ou outras redes sociais para umas partidas de futebol, tomar umas geladas, comer uma carnes e galhofar, galhofar bastante. E constatei o quanto isso é legal, o quanto foi DEMAIS dar risadas com os corneteiros, e cornetar junto, por que não? A galhofa não tem limites.

TA: Alguns jogos foram difíceis. Outros, muito difíceis. Corri muito, cada jogo um pouco menos que no anterior. Chutei, fiz gols, perdi muitos outros. Caí, reclamei, sofri falta, fiz falta, o calor sobrou. Errei mais que acertei, mas não desisti. Sim, era tudo brincadeira, só que tudo muito sério. Perdemos a classificação por pouco, perdemos a final por muito. Triste pela derrota, feliz por dar tudo o que pude. Muita sede, muitas dores, muito cansaço.

M: Em tempo: Cornetão Chopp, GRITA MAIS ALTO, não estou ouvindo vocês direito!

D: Saí chateado com o vice, mais um em minha vida esportiva, mas o que importa é o clima de Trifon. Cinco minutos depois de ter perdido, já havia me esquecido da derrota. O churrasco, os litros e litros de água, a cerveja bem gelada, a confraternização, ter conhecido gente muito boa que eu só via ali pelo twitter, sendo geniais na internet, e que na vida real tem a mesma parcela de genialidade convertida em gente finisse, é o que realmente fez tudo valer a pena.

F: Por causa da Trifon que eu voltei a jogar bola, que curei a rinite que quase me derrubou na sexta-feira anterior, que arrombei meu joelho e não estou nem ai, que venci minha preguiça e subi de Santos só para jogar.

TV: Eu acho que fomos mais longe do que imaginávamos, muito por causa da entrega de cada um e pelo senso coletivo que tivemos. Talvez, se tivéssemos continuado na A, não iríamos tão longe. Só tenho a agradecer a equipe que o sorteio uniu. A derrota ficou pra trás e a união vai pra frente.

A partir daqui, o polvo já havia trazido 3 jarras de vinho para bebermos junto das massas que pedimos e não consegui extrair mais nada que seja publicável.

Um dia folclórico, um conto folclórico, pessoas folclóricas, um campeonato folclórico, emoções reais.

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