segunda-feira, 2 de julho de 2012

Fomos campeões: Grécia 2004

Foto: Wiki.phantis
Felipe Portes, @portesovic
Da Mística de Barueri-SP

Esqueça tudo que você entende por futebol arte, futebol bonito e pra frente, escanteio curto e toda aquela frescura enquanto estiver lendo este post. A Grécia foi a primeira equipe na história a levantar um troféu praticando a mais pura retranca. Uns dirão que os helênicos eram tremendamente eficientes no que se prestavam, e devo concordar com eles, sem restrições ou poréns. Ponto incontestável é que o rei Otto Rehhagel armou um esquema quase perfeito para os padrões gregos e assim um grupo entrosado e disciplinado chegou tão longe na Eurocopa de 2004, em Portugal.

O choque geral começou logo no duelo inaugural contra os lusitanos no Estádio do Dragão. Lidando com uma motivada seleção comandada por Luiz Felipe Scolari, conhecida por seu dinamismo, trabalho em grupo e talento mostrado por craques como Luís Figo, Rui Costa, Deco e o jovem Cristiano Ronaldo. 

Era dada como certa a vitória do mandante sobre aqueles frágeis rapazes grisalhos, que em sua maioria pareciam ser atletas de uma equipe de masters. Subestimando a organização de Rehhagel e sua tropa, o mundo viu Giorgos Karagounis e Angelos Basinas abrirem 2-0 de vantagem para os helênicos. Concedendo pouquíssimos espaços no seu campo, Theodoros Zagorakis executavam a missão de derrubar a grande força da chave com dois tiros milimetricamente disparados. Foi Ronaldo, ainda um moleque chorão o homem a diminuir a tragédia, ainda que com atraso, nos acréscimos da segunda etapa. 2-1.
Charisteas, o homem gol da Grécia empata contra a Espanha (Foto: UEFA)
A saga continuou contra a Espanha no Estádio de Bessa. Já com alguns dinossauros no grupo, a Fúria do contestado José Ignacio Sáez ainda escalava Raúl e Fernando Morientes no ataque, revivendo os bons tempos de Real Madrid. Atrás, no meio campo, a coisa ainda estava uma bagunça. Raúl Bravo, Raúl Baraja, Vicente e Joseba Etxeberria compunham o setor intermediário espanhol, para agonia dos torcedores. 

Morientes abriu o placar e encaminhou a classificação após vitória sobre a Rússia na estreia. Não contavam com a astúcia de Angelos Charisteas, o perigoso grandalhão na ofensiva helênica. 1-1, nada resolvido para ambos. A questão iria para a rodada derradeira, quando Portugal x Espanha e Grécia x Rússia (já eliminada) definiriam os dois safos que disputariam as quartas de final. 

Vocês não acreditariam, mas a Grécia conseguiu perder para os soviéticos e ainda sim se classificar. Batendo mais que carcereiro velho, os rapazes de Moscou abriram a contagem em Algarve logo aos dois minutos, com Dmitri Kirichenko. 
Zagorakis não acredita na sorte que levou os gregos adiante na Euro.
Pegadinha do Mallandros? RÁAAA, GLU GLUKIS! (Foto: UEFA)
O que fazer quando o seu time não é um primor ofensivo e ainda sim tem de sair para o jogo? A) bico para a frente, seja o que Deus quiser B) ninguém nunca ganhou uma guerra atirando para todos os lados, então cautela C) mantenha a mesma passada, vai que dá. Resposta: C. O roteiro de tragédia grega estava armado: Dmitri Bulykin fez o crime e ampliou para 2-0. Danouskis.

Enquanto isso, no José Alvalade, Portugal empatava com os rivais espanhóis. Zisis Vryzas diminuiu aos 43, mas a parcial não bastava. A situação estava com Espanha 5, Portugal 4, Grécia 4 e Rússia 3. Desesperador. Voltando do intervalo, com um pingo de sorte, Nuno Gomes colocou os tugas em vantagem e a patota de Rehhagel nas quartas. (Espanha ficou sem marcar e perdeu no critério de desempate) E assim começou uma série de zebras nunca antes vista nas Eurocopas.

Campeonato europeu de 1 a 0
Vinha a França pela frente. Atuais campeões europeus mas com uma crise de personalidade e dependência de Zinedine Zidane, Les Bleus contaram com um Zizou bem apagado. Passando um perrengue danado para sair de campo na primeira etapa sem levar gols, os franceses certamente demoraram a acordar em campo, e quando o fizeram, era tarde demais. Charisteas, sempre ele, marcou de cabeça aos 65 e lá se foram os primeiros favoritos. 1-0, Au revoir.

Eis que a imponente República Tcheca chegava às semifinais com muita moral. Em forma quase perfeita, os eslavos atropelaram a Dinamarca com 3-0 nas quartas e viam em Tomas Rosicky, o Pequeno Mozart suas esperanças de reviver as glórias do tempo de Antonín Panenka. Sólida e bem treinada, a formação tcheca era dinâmica e trazia o gênio Pavel Nedved como referência no meio campo, juntamente com Karel Poborsky e o supracitado Rosicky, ainda no Dortmund. 
Ricardo sai mal do gol português e Charisteas marca: fim do sonho e silêncio
no Estádio da Luz, em Lisboa (Foto: SMH.au)
Um tenebroso e tenso empate foi a proposta grega para tentar chegar à sua primeira final. Marcando até a sombra dos adversários, novamente sem dar espaço e saindo pouco para os contragolpes, o esquete helênico segurou a barra e o 0-0 até a prorrogação, que teria a controversa regra do gol de prata: quem marcasse primeiro e mantivesse a vantagem até o intervalo, venceria. Entrou em cena o coringa Traianos Dellas, beque romanista, que segundos antes do apito trilhar no primeiro tempo extra, matou os rivais com uma testada certeira e botou a Grécia na final. 1-0, Sbohem.

Tudo estava lindo em Lisboa na tarde de 4 de julho de 2004. O sentimento português era de vingança pelo 2-1 na primeira fase. Convencendo como um dos principais candidatos ao caneco, o selecionado de Scolari já orgulhava a nação com a alegria e a garra apresentadas. Um povo que sempre sonhou em ver a sua representação vencedora dentro de campo, acompanhava de perto a maior chance de todas. 

Ligeiramente melhores, os lusitanos encontraram uma Grécia mais atrevida, disposta a abandonar sua retranca de outrora. A defesa grega trabalhou de forma impecável e barrava as melhores iniciativas por parte do ataque com Pauleta, auxiliado por Ronaldo. Passada a primeira hora de nervosismo, agora os donos da casa dominavam completamente, testando o poderio defensivo de Traianos Dellas, Zagorakis e o arqueiro/garoto propaganda da Grecin 5, Antonis Nikopolidis. 

Numa guerra de nervos e ainda sem gols, Scolari usou a palestra de intervalo para alertar seus pupilos a respeito dos perigos nas jogadas aéreas e claro, tentou fazer o ataque funcionar. O que ele não esperava era  uma nova blitz grega na volta para a etapa complementar. Giourkas Seitaridis desceu em velocidade pela direita e foi barrado por Nuno Valente. Ganhando o escanteio, Basinas cobrou no meio da área. Saindo mal do gol, o arqueiro Ricardo deu a abertura, Costinha parou no meio do caminho e Charisteas cabeceou: 1-0.

Protagonizando um drama, Portugal apostou todas as suas fichas no ataque, buscando sem sucesso o empate. Silenciado, o Estádio da Luz deu lugar a outra festa: a dos visitantes que nunca nem chegaram perto da glória mas que agora fariam da Grécia um país menor ainda se comparado ao tamanho das festividades. Os heróis serão sempre heróis, vivos ou mortos, velhos ou jovens, pois o feito de Rehhagel somado à bravura dos atletas, foi simplesmente inigualável.
Foto: UEFA
Portugal: Ricardo, Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Miguel (Paulo Ferreira), Nuno Valente, Costinha (Rui Costa), Maniche, Figo, Deco, Cristiano Ronaldo, Pauleta (Nuno Gomes). Téc: Luiz Felipe Scolari

Grécia: Nikopolidis, Dellas, Fyssas, Seitaridis, Zagorakis, Giannakopoulos (Venetidis), Basinas, Vryzas (Papadopoulos), Kapsis, Katsouranis, Charisteas. Téc: Otto Rehhagel

Campanha: Seis jogos, quatro vitórias, um empate, uma derrota. Sete gols marcados, quatro sofridos.

Jogos
Fase de grupos
Portugal 1-2 Grécia
Grécia 1-1 Espanha
Rússia 2-1 Grécia

Quartas de final
França 0-1 Grécia

Semifinal
Grécia 1-0 República Tcheca

Final - 4 de julho de 2004, Lisboa - Estádio da Luz
Portugal 0-1 Grécia

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