sábado, 7 de julho de 2012

Saudade da várzea

Dental (grená) x Vila Musa/Curitibanos (alviverde) Foto: Arquivo pessoal
Felipe Portes, @portesovic
De Ourinhos (saudades)-SP

Lá em 2010, quando a Espanha ainda não era campeã do mundo, o Corinthians não era campeão da América e muito menos o Chelsea era campeão europeu, a edição do Campeonato amador de Ourinhos foi o meu maior projeto como estudante de jornalismo e repórter do Jornal da Divisa. Cobri fazendo fotos e as crônicas de todas as rodadas, até a decisão entre União Barra Funda x Nacional Itajubi, em que o primeiro venceu por 2-0.

Durante oito meses que trabalhei lá, e já devo ter dito isso em algum outro lugar, aprendi um pouco de tudo que alguém da profissão precisa. Enfrentei a falta de estrutura, de pautas, de criatividade, de orientação e de experiência. Não creio de verdade que tenha passado por algo que fosse desmotivador. Ainda guardo algumas fotos, mas as anotações devem ter ficado na casa de mamãe, como outro universo de coisas que não consegui trazer.

Pois bem, foram várias as lições ensinadas nos gramados do Clube Atlético Ourinhense, onde eram realizadas as partidas, sempre nos domingos à tarde. Eram doze equipes divididas em dois grupos, onde os quatro melhores de cada chave avançavam até as quartas de final. Para um campeonato amador, a organização foi bem feita, sem tapetões como os que vemos por aí na Série C nacional. 

Numa terra em que quem joga em 90% das vezes não recebe por isso, a vitória passa a ser questão de honra, de tradição. Sem a motivação financeira, você sabe que quem está ali suando e correndo realmente ama o que faz. Os esquetes mais tradicionais eram o Gazeta, o Manchester (da Vila Manchester), o São Cristóvão e o União, que atualmente mantém a hegemonia local, de acordo com o que fui informado recentemente. 

Manchester (vermelho/branco) x Pacheco Chaves (amarelo/preto)
durante a primeira fase: Manchester foi a decepção do certame
No meio de tantas batalhas para dominar o cenário ourinhense, me lembro claramente que em quase nenhum dos jogos se via o desinteresse, a pasmaceira. Evidente que o nível técnico não era um primor, mas não faltava vontade, o que ficava claro em divididas na lateral, quase sempre marcadas por carrinhos ou discussões com o técnico e banco adversários. 

Não está ao vivo, Paulinho
Algumas histórias engraçadas desses oito meses podem ser contadas aqui. Coisas que certamente já aconteceram nos maiores torneios desse país. A começar pelo treinador do Manchester, que me concedeu uma entrevista no primeiro dia do Amador. Cheguei perto com o meu celular e pretendia gravar a repercussão dele a respeito do 0-0 inaugural dos alvirrubros, que tanto investiram para formar um plantel competitivo. 

E então, o professor pensou que estava ao vivo em alguma rádio, saudando os ouvintes e a equipe, dando um parecer que Wanderley Luxemburgo, Celso Roth e Hélio dos Anjos nunca fariam melhor. Deixei a situação ficar embaraçosa por ao menos dez segundos, segurando o riso, até que não pude mais evitar e contei a triste verdade, que se tratava apenas de uma gravação. Os atletas, logo ao lado, também não aguentaram e tiraram o maior sarro do treinador.

Arquibancada do CAO em União (Vasco) x São Cristóvão (Figueirense)
Jamais enfrentarás a torcida
Durante o encontro de Manchester x Pacheco Chaves (segunda imagem), um lance duvidoso foi marcado na lateral, e a torcida do Pacheco, uma das mais hostis da cidade (sentada na mesma arquibancada da rival, como a configuração da foto acima revela), resolveu protestar com veemência perante a decisão do juiz. Como geralmente o policiamento era ostensivo nas imediações do estádio e a equipe de arbitragem também é composta por policiais em sua maioria, apenas xingamentos mais leves eram direcionados aos homens do apito. 

Um dos pachequenses, mais exaltado, atirou uma garrafa dentro do campo (perceba que a grade não impede muito esse tipo de ação) e os dirigentes da Liga pediram aos repórteres presentes que fossem fotografar o elemento. Como única alma viva munida de uma câmera fotográfica no recinto, sobrou para a minha pessoa atravessar o tapete do CAO e chegar perto do alambrado para obter um ângulo melhor. Assim que os amarelos notaram que eu vinha correndo, já começaram a vaiar e obviamente, não poupando o palavreado agressivo que usariam contra o bandeirinha. 

Precisei de um minuto para localizar o rapaz, que se escondeu atrás de três mulheres não menos raivosas e vestindo camisetas da torcida dos negroamarelos. Quando vi que um ou dois cabras se aproximavam da grade me xingando e ameaçando algo, tratei de clicar logo e dar meia volta até a bancada da Liga, sob mais vaias e homenagens ao meu nome, de mamãe e dos honrados Portes, claro.

A Copa do Mundo pode esperar
Quando se trata de um duelo decisivo no seu trabalho, até o seu programa preferido pode esperar. Como todos sabem, a Copa acontece de quatro em quatro anos, e quiseram os deuses do futebol que eu estivesse trabalhando em pleno dia de México x Argentina pelas oitavas de final. Tive de dolorosamente dividir minhas atenções entre os eventos, enquanto fazia minhas anotações e fotos. 

Por sorte, no segundo tempo consegui subir até uma sala com TV e que dava ampla visão do gramado. Desnecessário dizer que sempre que o Palmeiras jogava, eu dava um jeito de arrumar ângulos diferentes para os registros fotográficos...

Gasolina, o Denzel Washington ourinhense, treinador do Itamaraty 
"Anota aí: Negro lindo"
Gasolina, emblemático e carismático treinador do Itamaraty, é conhecido na cidade por ser diretor na Usina São João. Sempre bem humorado antes dos jogos, o bonachão sempre aprontava alguma ao fornecer os nomes que havia escalado. Em determinado jogo na primeira fase, me chamou: Ô, garoto! Vem cá! Cê não quer o meu time? Chega aqui que eu te passo. 

Realmente passou, dizendo número, posição, nome e apelido, como manda o figurino. Sabendo que eu havia tirado um retrato dele minutos antes, retribuiu o favor e ajudou no meu trabalho. Citados os onze do Itamaraty, ele ainda passou os reservas, mas com um pedido inusitado. "No treinador você coloca assim: Negro Lindo".

Visão isenta, palpite certeiro
O Nacional perdia o jogo contra o São Cristóvão, por 2-1, se não me falha a memória. Após o intervalo, debaixo de forte calor, peguei um copo de água e fiquei perto do banco de reservas por causa da sombra. Puxei papo com o treinador e disse a ele na linguagem local que o ponta esquerda estava cozido (expressão ourinhense que significa cansado, mole, preguiçoso) e que no mesmo lado da defesa adversária estava com sérias deficiências. A medida óbvia então era sacar o rapaz e colocar algum outro mais veloz ou disposto. 

Apesar da risada e o deboche com a minha opinião, dez minutos depois o técnico enxergou a mina de ouro e fez a alteração sugerida. Aos trinta do segundo tempo, veio o gol de empate. De nada, professor. Fui devidamente repreendido pelo oficial da Liga por ter me intrometido no trabalho da equipe, porém feliz, por saber que ainda entendo um pouco do esporte que tanto escrevo sobre.

Coleguinhas preguiçosos
A concorrência dos jornais na cobertura esportiva ourinhense não era grande. Presença garantida além da minha era a do Nelsinho, do Repórter na Rua. Sempre conversamos e complementamos informações, sem aquela besteira de rivalidade. Contudo, nem todos são lá muito profissionais. Na segunda metade do campeonato uma outra moça resolveu participar da cobertura por um terceiro jornal. Sempre atrasada, dava as caras durante a segunda partida e perdida, pedia ajuda nas escalações e tumultuava a mesa da diretoria, onde eu também me sentava.

Transformando a conduta em rotina, a coleguinha badernou o coreto em busca dos onze de cada time, requisitando a minha ajuda. Estampando um sorriso maléfico, deixei a imaginação fluir e anotei num papel a formação do Gazeta: Cabo do Medo, Jonas, Osvaldo, Cleiton, Arnaldo, Escurinho, Gelson, Mabília, Babau e Cascatinha. Não sei se ela de fato utilizou a informação, mas...

Entre tantos recortes, fica a saudade daqueles tempos em que o sol, a bola rolando e a diversão eram garantidos. Qualquer dia eu apareço aí de novo, várzea ourinhense.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sou de Bauru e fico esperando algum time daí subir pro profissional, já que Ourinhos é grande e precisa de um time no profissional. Ficar vendo Santacruzense e Assisense jogar é complicado