sexta-feira, 1 de junho de 2012

Fomos campeões: Criciúma 1991

Foto: Click nos campeões
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

A história do Criciúma é dessas poucas em que times pequenos chegam à glória com algo de muito especial. No caso do Tigre, um treinador que já aprontava das suas em território nacional e a determinação em vencer todos os grandes desafios pela frente. Campeão da Copa do Brasil em 1991, os catarinenses foram o que podemos considerar de primeira zebra da competição, que anos depois viu o Juventude (1999), Santo André  (2004) e Paulista (2005) saírem vencedores e credenciados com a vaga na Libertadores da América.

Os méritos foram muitos daquele elenco que soube aproveitar as vantagens e desvantagens do regulamento. Bastante focado na disciplina, marca registrada das equipes treinadas por Luiz Felipe Scolari, o plantel era basicamente formado por atletas sem muito reconhecimento, mas que seguiam a mesma base de anos anteriores, sem grandes mudanças. O entrosamento falou alto nos momentos de tensão, ainda que o tricolor tenha terminado o torneio sem uma derrota sequer.

Até então treinado por Luís Gonzaga Milioli (saiu do cargo antes das oitavas), o negro-amarelo entrava em campo quase sempre na mesma formação: Marola (Alexandre), Sarandí, Vilmar, Itá, Roberto Cavalo, Grizzo, Zé Roberto, Gelson, Vanderlei, Jairo Lenzi e Soares. 

Tendo como primeiro adversário o quase anônimo Ubiratan-MS, o Tigre jogou para o gasto no Mato Grosso do Sul e voltou para Santa Catarina com um empate de 1-1 na bagagem. No Heriberto Hülse, goleada por 4-1 (gols de Evandro, Grizzo, Zé Roberto e Vanderlei), resultado até surpreendente para os padrões de Felipão. Ao fim, o que interessava foi alcançado: a vaga nas oitavas.

Jairo Lenzi, ponta esquerda do Criciúma, destaque na caminhada
até o caneco da Copa do Brasil de 1991 (Terceiro Tempo)

A chapa começou a esquentar já nas oitavas, quando ficou definido que o Atlético Mineiro viria pela frente. O Galo atropelou o Caiçara-PI e somou 12-0 no agregado, inclusive castigando os piauienses com 11-0 no Independência. Temendo passar pelo mesmo perrengue do que os nordestinos, Big Phil ofereceu aos atleticanos o seu cartão de visita: a retranca e a jogada em contra golpe. Com atuação segura no Sul, o Criciúma fez 1-0 com Cavalo e se deu por satisfeito.

Fora de casa, a cautela em relação à defensividade teria de ser redobrada. Dito e feito, mais uma vitória simples e o campeão brasileiro de 1971 era despachado do certame, graças ao gol de Vanderlei aos dez minutos da primeira etapa.

Ganhando moral após tirar o primeiro grande do caminho, o tricolor catarinense encontraria o Goiás de Wilson Goiano e Túlio nas quartas de final. Alçando grande voo, o grupo demonstrava grandes sinais de união e usavam esse elemento, que pesava mais do que o talento em determinadas oportunidades. Viajando à Goiânia para dar sequência no trabalho, os comandados de Scolari seguraram o 0-0 e a pressão esmeraldina. Deixando toda a decisão para o Heriberto Hülse, Jairo Lenzi e sua tropa não decepcionaram: três a zero, com gols do próprio Jairo, Gelson e Grizzo.

Xerifão Scolari acertou a mão no Criciúma, que ia derrubando os adversários,
um a um até a grande final contra o Grêmio (Estadão)
O calor do Pará prometia ser um obstáculo na passagem do Tigre até a grande final. Favorito no duelo contra o Remo, precisou apenas de um tempo, mais precisamente 43 minutos para vazar a defesa do Leão, com Soares. Percebendo o cansaço dos seus atletas, apesar da chuva que caiu pouco antes da partida, Felipão recuou os homens de frente. Administrando o triunfo, já estava com um pé na finalíssima diante do Grêmio, vencedor da edição 1989, a primeira Copa do Brasil.

Em seus domínios, não houve nenhum tipo de turbulência para o Criciúma sair de campo sem a classificação. Esbanjando tranquilidade e bom futebol, o tricolor contou com a infelicidade de Chico Monte Alegre aos 35 do primeiro tempo para desamarrar o sistema defensivo do Remo. Soares completou a contagem aos 14 da etapa complementar e Santa Catarina teria um representante direto na disputa de um título nacional. 

Invictos, os catarinenses pretendiam utilizar a mesma tática bem sucedida que fora usada contra o Atlético nas oitavas. Sabendo da força do Grêmio, e que o conto de fadas poderia desmoronar se não fossem tomadas precauções, Big Phil acreditou que haviam boas chances se explorasse o erro do adversário.

Dino Sani, comandante gremista, às vésperas da decisão (Clic RBS)
Jogando com o regulamento
No dia 30 de maio de 1991, a história começaria a ser escrita no Olímpico. O tricolor imortal de Dino Sani trazia no elenco o sagaz China, o ligeirinho Caio, os meias Norberto e João Antonio e o atacante Maurício. Certamente não foi nem de longe um dos grandes esquadrões que os gaúchos montaram, contudo, jamais se despreza a tradição. Os dois rivais ainda não haviam perdido na competição.

Um pouco mais ousado do que de costume, o Tigre chegava mais no ataque. A força excessiva em alguns lances ficou clara com a chegada do capitão Itá em China, que ficou alguns instantes rolando e com dores na lateral esquerda. A defesa catarinense resistiu à perigosos ataques gremistas e saiu na frente com Vilmar, em cruzamento de Jairo Lenzi no primeiro pau. O beque subiu de cabeça e testou forte, sem chance para Gomes.

Seria uma grande vitória fora de casa, não fosse Maurício empatar a parada, restando sete minutos para o apito final. Tirando a alegria dos visitantes antes do soar do gongo, o tricolor gaúcho se manteve vivo na disputa e precisava marcar no Heriberto Hülse para provocar uma disputa de penais. Até aí, a festa em Criciúma já estava armada, com ou sem a taça.

Felipão, ao lado de Roberto Cavalo e a taça da Copa do Brasil (Polidoro Jr)
18 meses sem sofrer uma derrota sequer em seus domínios era a credencial apresentada pelos donos da casa na segunda perna da finalíssima. Um domingo, dia 2 de maio de 1991 foi escolhido para a consagração de um time aguerrido e de seu treinador ranzinza. Aproveitando a vantagem no confronto, novo empate, só que sem gols garantiu ao clube do interior catarinense levantar o caneco daquela edição da Copa do Brasil. Depois da conquista, Felipão enfatizava que seu grupo era composto por jogadores do mesmo nível técnico e físico e que não contava com estrelas e sem elas, conseguiu ser campeão sem perder nenhum compromisso. 

Criciúma: Alexandre, Vilmar, Sarandí, Itá, Gelson, Altair, Roberto Cavalo, Grizzo, Zé Roberto, Jairo Lenzi e Soares.

Grêmio: Sidmar, Vilson, João Marcelo, Chiquinho, Hélcio, João Antonio, Norberto, Caio, Donizete Oliveira, Nando (Darci) e Maurício. 

Campanha: Seis vitórias, quatro empates, nenhuma derrota. 14 gols marcados, três sofridos.

Jogos:
Primeira fase
Ubiratan-MS 1-1 Criciúma
Criciúma 4-1 Ubiratan-MS

Oitavas de final
Criciúma 1-0 Atlético Mineiro
Atlético Mineiro 0-1 Criciúma

Quartas de final
Goiás 0-0 Criciúma
Criciúma 3-0 Goiás

Semifinal
Remo 0-1 Criciúma
Criciúma 2-0 Remo 

Final
30 de maio de 1991, Porto Alegre - Olímpico
Grêmio 1-1 Criciúma

2 de junho, Criciúma - Heriberto Hülse
Criciúma 0-0 Grêmio

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