quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fomos campeões: Tchecoslováquia 1976

Foto: Total Pro Sports
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Nos tempos em que o bigode ainda era um artigo quase que indispensável para os homens europeus, a primeira surpresa de todas as Eurocopas veio com a Tchecoslováquia em 1976. A fase final do torneio , realizada na Iugoslávia, reuniu os donos da casa juntamente com os tchecoslovacos, a Alemanha e a Holanda, duas das maiores sensações no cenário mundial. 

Chaveados os adversários, em 16 de junho daquele ano as semifinais teriam início. Os Tchecos enfrentaram a Holanda no Maksimir, em Zagreb, e suaram para levar a partida para a prorrogação. Detalhe: Anton Ondrus foi o responsável pelo 1-1, marcando pelas duas equipes. A favor, aos 19, e contra aos 73, desviando um cruzamento. Johann Cruyff, Johan Neeskens, Rob Rensenbrink e Johnny Rep bem que tentaram, mas não furaram o bloqueio defensivo.

A partida então foi para a prorrogação, já acumulando três expulsões. Duas do lado holandês (Neeskens e Wim Van Hanegem) e Jaroslav Pollák pelo lado tcheco, mostraram que o nervosismo estava marcando os passos de vários atletas em campo. 

Foi então que no segundo tempo da prorrogação que Zdenek Nehoda e Frantisek Vesely passaram a régua nas pretensões laranjas naquela Euro. Dois anos depois, eles perderiam a sua segunda final de Copa seguida, ganhando o rótulo de "amarelões".

Donos de um estilo aguerrido, técnico e cauteloso, os tchecos tiraram um grande rival na disputa pelo título. Na outra chave, a Alemanha passou por cima da Iugoslávia com certa dificuldade. Depois de ficar dois gols atrás no placar, os germânicos contaram com Heinz Flöhe e Dieter Müller (com um hat-trick) saindo do banco para resolver a peleja.

Antonin Panenka ganhou fama na final contra
a Alemanha, em Belgrado (Foto: Shave your style)
Panenka e a cavadinha
Era hora do lendário meio campo eslavo entrar em cena. Antonín Panenka, Joséf Moder, Marián Masny e Zdenek Nehoda se encarregaram de dificultar a tarefa alemã de levantar o caneco mais uma vez. Os presentes no Marakana (estádio do Estrela Vermelha) mal sabiam que estavam prestes a testemunhar uma travessura contra os tedescos.

Tudo começou a ruir para a Alemanha quando Jan Svehlik completou uma rebatida na área de Sepp Maier. A defesa germânica estava concentrada naquela parte do campo e mesmo assim não evitaram o passe rasteiro de Nehoda para o companheiro, que chutou forte no canto. 1-0.

Sofrendo com a ofensividade tcheca, Franz Beckenbauer e seus colegas de zaga já estavam ficando carecas de preocupação quando Karol Dobias mandou uma bomba com caminho certo: o fundo das redes de Maier. No mesmo panorama das semifinais contra a Iugoslávia, Helmut Schön já estava amassando sua boina no banco de reservas, em busca de uma solução que trouxesse o empate.

O mesmo Müller que havia marcado três no jogo anterior, apareceu bem para diminuir o placar. Com um belo voleio, o atacante deu a esperança necessária aos colegas, que agora buscavam como nunca balançar as redes novamente. Envolta em tensão, a finalíssima seguiu com vitória tcheca até os 89, quando Bernd Hölzenbein subiu de cabeça na área de Ivo Viktor e salvou a pele tedesca.

Ilustração do pênalti histórico cobrado por Panenka
Foto: Four Four Two
Mantida a igualdade durante a prorrogação, as penalidades seriam a forma escolhida para definir quem levantaria o troféu Henry Delaunay. Ampla favorita, a Alemanha tentava seu bicampeonato europeu. Contudo, a noite de 20 de junho de 1976 reservou duas grandes surpresas.

A Tchecoslováquia cobrava primeiro. Masny, Nehoda, Ondrus e Jurkemik converteram, e pelo lado alemão, Bonhof, Flohe e Bongartz também fizeram a sua parte. Era a vez de Hoeness, estrela do Bayern, fazer sua cobrança. Poucos esperavam que o atacante chutasse na lua. Ele mesmo comentou em entrevista, anos depois, que "felizmente já encontraram a bola daquele pênalti".

Encarregado de encerrar a série, Panenka caminhou até fora da área e esperou que Maier não ficasse na linha do gol, mas escolhesse um dos lados. Tomou a distância e correu, diminuindo a passada logo ao chegar na bola e tocando sem força, por cima, balançando as redes e dando o título aos eslavos.

O movimento, conhecido aqui no Brasil como cavadinha, e constantemente usada por Loco Abreu, foi executada inicialmente com o tcheco, justamente numa decisão europeia. 30 anos depois, Zinedine Zidane repetiu a façanha na final da Copa de 2010 contra a Itália. Importante lembrar que o francês ousou ainda mais, acertando o travessão de Gianluigi Buffon. O legado deixado por Panenka, que consiste na taça e na modalidade de chute, até hoje é lembrado pela façanha em Belgrado. 
Tchecos ganham dois prêmios: a taça Henry Delaunay e a camisa dos alemães
derrotados nas penalidades (Foto: UEFA)
Tchecoslováquia: Viktor, Dobias (Vesely), Capkovic, Ondrus, Pivarnik, Gögh, Panenka, Moder, Svehlik (Jukarnik), Masny e Nehoda. Téc: Václav Jezek

Alemanha: Maier, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Vogts, Dietz, Wimmer (Flohe), Bonhof, Hoeness, Beer (Bongartz), Dieter Müller e Holzenbein. Téc: Helmut Schön

Campanha: Dois jogos, uma vitória e um empate. Cinco gols marcados, três sofridos.

Jogos:
Semifinal
Tchecoslováquia 3-1 Holanda

Final - 20 de junho de 1976, Belgrado - Marakana (Crvena Zvezda)
Tchecoslováquia 2-2 Alemanha (5-3 nos pênaltis)


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