sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fomos campeões: Dinamarca 1992

Foto: Fiebre bardanca
Felipe Portes, @portesovic
De Estocolmo-SUE

O roteiro da Eurocopa 1992 é talvez um dos mais inusitados de toda a história. Sediado na Suécia, com o mesmo formato das duas edições anteriores (dois grupos de quatro, classificam-se os dois primeiros para as semifinais), o torneio reservou uma grande surpresa para os amantes do futebol. 

Azar dos que esperavam uma Alemanha tão consistente quanto a que venceu a Copa de 1990 em cima da Argentina, aos que apostaram na Holanda e especialmente a grande parcela que duvidou da Dinamarca, que entrou de última hora na competição, substituindo a Iugoslávia, banida por crimes de guerra e conflitos civis contra a Croácia/Bósnia.

Integrando o grupo 1, Suécia, França, Dinamarca e Inglaterra duelavam pelas duas primeiras colocações sem que houvesse um amplo favorito na ocasião. Os ingleses poderiam até ter largado na frente, ao manter a base da formação semifinalista no Mundial de 1990, os suecos por demonstrar consistência e certa dose de talento. Todos os prognósticos foram derrubados rodada a rodada.

John Jensen desarma David Platt num empate duríssimo em Malmö (UEFA)
Segurando um empate em 0-0 na estreia contra o English Team, o esquete danês mostrou grande força defensiva com o paredão Peter Schmeichel, os beques Kent Nielsen e Lars Olsen, o volante/líbero Kim Christofte, sem falar na organização nos contragolpes, arquitetados por Fleming Povlsen e Brian Laudrup , concluídos por Kim Vilfort. (Michael Laudrup ficou de fora por divergências com o treinador Richard Moller-Nielsen). Com um jeitão dinâmico e focado na defesa, a ex-Dinamáquina seguiu sem alarde para a segunda jornada.

A opção pela defesa quase custou caro, desta vez contra os donos da casa. Em Solna, no lendário Rasunda, nascia uma estrela (que não brilharia por muito mais tempo adiante) sueca. Tomas Brolin, então no Parma, exibia grande fase e acertou um chutaço para vencer Schmeichel. 1-0 Suécia e as coisas haviam dificultado consideravelmente para Moller-Nielsen.

Encerrando a participação na fase de grupos, o adversário final seria a França de Eric Cantona, que empatou seus dois jogos e também precisava da vitória se quisesse continuar na luta. Enfraquecida, a seleção treinada por Michel Platini, responsável pelo título de oito anos antes, trazia um jovem Laurent Blanc, o determinado Didier Deschamps, o consagrado Luis Fernandez (no banco), a joia Jean-Pierre Papin além do problemático Cantona. O encontro foi rapidamente controlado pelos daneses, com gol de Henrik Larsen aos oito minutos.

Assustada, a França teve de se lançar ao ataque e tendo em vista a iminência da desclassificação, se enervou. Aos 60, Papin empatou e injetou motivação nos companheiros. Com contornos dramáticos, o confronto permaneceu com o placar de 1-1 até que Lars Elstrup, que entrou na vaga de Torben Frank minutos antes, recebeu assistência de Povlsen para desempatar e classificar a Dinamarca. 2-1.

Christofte marca o penal decisivo e elimina a Holanda (UEFA)
Grandes desafios, enorme superação
Agora não havia mais espaço para empates. A Dinamarca não poderia mais contar com a sorte se quisesse vencer os grandes e erguer a taça. Durante a semifinal contra a Holanda, contudo, o espírito do grupo foi maior do que a disparidade técnica entre os elencos. Repetindo a dose da vitória diante da França, Henrik Larsen marcou aos cinco minutos e despertou os laranjas, que demoraram a entrar no jogo. 

Dennis Bergkamp, atacante e promessa do Ajax, tratou de dar números iguais na semifinal, com 23 minutos jogados no primeiro tempo. A missão dinamarquesa era ingrata: conseguir marcar outra vez e segurar o ímpeto ofensivo dos comandados de Rinus Michels, então campeões da edição anterior. 10 minutos se passaram desde o gol de Bergkamp, até que Larsen duplicou seu feito e colocou os escandinavos na frente.

Dramático e dominado pela seleção dos Países baixos, a peleja seguiu em desvantagem para a Oranje, que graças a Frank Rijkaard, faltando quatro minutos para o fim, decretou o 2-2 e provocou a prorrogação. Nos trinta minutos que foi acionado, Schmeichel protegeu a sua meta de forma heróica, bloqueando todas as tentativas por parte de Marco Van Basten, Bergkamp e Bryan Roy. Nas penalidades, o goleiro ainda pegou um pênalti pelos pés de Van Basten. Restou a Christofte converter o último tiro e colocar os daneses em sua primeira final na história.

Foto: UEFA
Mandante na finalíssima realizada no Ullevi, em Goteburgo, a destemida Dinamarca se preparava para enfrentar a Alemanha, que derrotou a Suécia num elétrico 3-2 pela outra semifinal. Levando em conta o aproveitamento germânico em decisões, o professor Moller-Nielsen usou todos os agentes motivacionais possíveis para convencer os seus pupilos de que era sim possível obter êxito naquela memorável noite de 26 de julho de 1992.

Numa descida de Povlsen, Jürgen Köhler desarmou sem falta o meia e partiu para afastar a bola de qualquer perigo. O que ele não esperava era a chegada de Vilfort, que roubou sorrateiramente a posse de Andreas Brehme para carregar até a linha de fundo. O passe para trás encontrou Jensen, que acertou um petardo no alto de Bodo Illgner. 1-0. 

Schmeichel então passou a se comportar como um robô debaixo das traves dinamarquesas. Em tentativas de Stefan Effenberg, Jürgen Klinsmann, Matthias Sammer, o guarda metas defendeu até pensamento. A pressão germânica persistiu sem resultado e de tanto desperdiçar as chances, Vilfort fechou a conta se desvencilhando de dois marcadores e arrematando, quando a bola beijou a trave e venceu Illgner novamente. Os azarões venciam, tiravam a sorte grande. E provaram que mais uma vez, os mais fracos também tem chance. Inexplicavelmente, uma imensa parcela de pessoas não entende ou parece não apreciar um esporte que permite esse tipo de surpresa...

Laudrup com a taça Henry Delaunay
(Foto: Yotufutbol)
Dinamarca: Schmeichel, Sivebaek (Christiansen), Nielsen, Olsen, Christofte, Jensen, Povlsen, Brian Laudrup, Piechnik, Larsen e Vilfort. Téc: Moller-Nielsen

Alemanha: Illgner, Reuter, Brehme, Köhler, Buchwald, Hässler, Riedle, Helmer, Sammer (Doll), Effenberg (Thom) e Klinsmann. Téc: Berti Vogts

Campanha: Cinco jogos, duas vitórias, dois empates e uma derrota. Seis gols marcados, quatro sofridos.

Jogos
Fase de grupos
Dinamarca 0-0 Inglaterra
Suécia 1-0 Dinamarca
Dinamarca 2-1 França

Semifinal
Dinamarca 2-2 Holanda (5-4 nos pênaltis)

Final - 26 de julho de 1992, Goteburgo - Ullevi
Dinamarca 2-0 Alemanha


Um comentário:

Anônimo disse...

a seleção alemã, exceto Mathias Summer , era previsivel ...time burocratico ...