quinta-feira, 28 de junho de 2012

Fomos campeões: França 1984


Foto: L'Equipe
Felipe Portes, @portesovic
De São Paulo-SP

Tipicamente conhecida pelo seu hábito de vencer competições em casa (Eurocopa em 1984 e Copa de 1998), a França montou o primeiro de seus lendários esquadrões com Michel Platini, Jean Tigana, Maxime Bossis, Alain Giresse, Luis Fernandez e Bernard Lacombe. Sabendo da necessidade de se impor, Les Bleus  iniciaram a campanha contra a Dinamarca.

Era uma formação com a cara do futebol local. Estilo cadenciado, progressão lenta e fortíssima no contragolpe. O controle que a França exercia sobre os adversários foi algo notável durante a edição de 84 da Euro. 

Diante de um rival focado em permanecer na defensiva, les bleus passaram maus bocados para vazar a retaguarda danesa, comandada por Morten Olsen. A geração escandinava estava em transição. Outrora liderados pelo gênio Allan Simonsen, os torcedores viam em Michael Laudrup, Preben Elkjaer e Frank Arnesen uma esperança de dias melhores para uma seleção que nunca foi lá muito forte. 

Demolidora em fases anteriores, a dona da casa teve de se contentar com um mero 1-0, gol de Platini aos 78. Por pouco ou não, os dois pontos seriam importantes para a classificação e contra um dos oponentes mais difíceis da chave, o jeito era comemorar. 

Platini destroçou a Bélgica, finalista quatro anos antes (UEFA)
Toda a frustração pelo placar murcho da estreia foi dizimada no segundo compromisso francês pelo certame. A Bélgica, com grande parte do elenco derrotado na final de 80, reforçada por Enzo Scifo, Nico Claesen e René Verheyen. Mesmo demonstrando mais maturidade, os belgas foram vítimas de um atropelamento em La Beaujoire, Nantes. Com nova exibição impecável por parte de Platini, Jean Marie Pfaff foi obrigado a buscar a bola no fundo das redes em cinco oportunidades. Três delas em chutes do inspirado camisa 10 da Juventus. Fernandez e Giresse fecharam a conta e decretaram a classificação.

Novamente alterado, o regulamento consistia em semifinais envolvendo os dois vencedores de cada uma das chaves. A Dinamarca, no afã de remar para se recuperar da derrota inaugural, também fez 5-0 na Iugoslávia. Klaus Berggreen, Arnesen (duas vezes), Elkjaer e Jan Lauridsen foram os responsáveis pelo naufrágio dos eslavos, que contavam com nada mais nada menos que Srecko Katanec, astro da Sampdoria, que à época jogava pelo Olimpija Ljubljana. Dragan Stojkovic, ainda em início de carreira. 

Para o encerramento da fase de grupos, a França enfrentaria a já eliminada Iugoslávia para engordar o seu saldo e calibrar a pontaria para as semifinais. Com um pouco mais de dificuldade e sem alguns titulares, coube a Platini mais uma vez brilhar como a estrela maior da companhia. Mais três gols, barba, cabelo e bigode. Stojkovic e Milos Sestic diminuíram e encerraram menos envergonhados a sua participação. 3-2,  restando apenas dois jogos para o título

Platini, sempre ele, classificou Les Bleus para a final Foto: UEFA
Pela outra chave, Espanha e Portugal avançavam e deixavam a Alemanha Ocidental eSi Romênia pelo caminho. Os confrontos das semifinais envolveriam lusos e franceses, espanhóis e dinamarqueses. No Vélodrome, em Marseille, o duelo foi elétrico entre os homens de bigode e o pessoal do petit-gateau. Dominante, a dona da casa tratou de se lançar ao ataque para intimidar os portugueses. Com 24 minutos, Jean-François Domergue abriu o placar numa cobrança de falta quase supersônica no alto da meta de Bento. 

Rui Jordão foi o destaque lusitano na partida. Seu brilho apareceu pela primeira vez aos 74, em cruzamento de Fernando Chalana. O atacante do Sporting tocou de cabeça e venceu Joël Bats para empatar o duelo. O equilíbrio fez com que o placar persistisse até a prorrogação, onde grandes emoções estavam reservadas. Passados 98 minutos, oito da primeira etapa do tempo extra, novamente Jordão ferveu a caçarola francesa. Chalana achou o companheiro livre e cruzou da direita. Rui pegou de primeira e acertou o ângulo, numa pintura de gol. 2-1. 

Domergue não entregou os pontos e em lance chorado, empatou outra vez a peleja, completando ofensiva de Tigana e em brilhante proteção do arqueiro Bento. 2-2. Tigana, endiabrado, desceu sozinho pela direita e passou bola rasteira para alguém que já havia feito chover: Platini. Entre o goleiro rival e três zagueiros, o capitão francês acertou um pequeno espaço livre para sacramentar a vitória dos mandantes. 3-2 e fim de papo.

Camacho tenta desarmar Giresse na final (Foto: UEFA)
Arconada e o frango
Não foi tudo tão fácil na final contra a Espanha, que bateu a Dinamarca na outra semifinal. 20 anos após sua primeira conquista, os ibéricos queriam o bicampeonato fora de casa. Seguros e favoritos, Les bleus partiram destemidos para o embate final daquela Eurocopa. Devidamente ocupados os assentos e arquibancadas do Parc des Princes, a imponente dona da casa contava com todo o apoio da torcida local para seu primeiro título internacional.

45 minutos levando pressão da Fúria bastaram para que a conversa no vestiário azul fosse mais séria. Platini ainda não havia se apresentado para o confronto, colocando em xeque a real importância de seus oito tentos anteriores. 12 minutos depois, o maestro teve a oportunidade numa falta próxima à área espanhola. Batendo rasteiro e no canto do guarda metas Luis Arconada, contou com a eventualidade de um frangaço. A bola resvalou no peito do goleiro, escapou dos braços e bateu na trave antes de entrar. Primeiro passo concluído.

Quando todos imaginavam que a despedida daquela edição seria um magro 1-0 graças a Arconada, Bruno Bellone disparou na esquerda e assim que invadiu a área roja tocou com finesse para encobrir o malfadado guarda redes hispânico. Já adentrando os acréscimos, a festa francesa era garantida em Paris. Com contribuição bombástica de seu camisa 10, finalmente a taça Henry Delaunay ficou em casa. 14 anos depois da conquista, outro camisa 10 carregaria a bandeira de sua nação no topo do futebol mundial. Mas essa é outra história. Em 1984, Platini foi a Eurocopa, e a Eurocopa foi Platini.

Foto: UEFA
França: Bats, Battiston (Amoros), Bossis, Le Roux, Domergue, Tigana, Platini, Fernandez, Giresse, Lacombe (Genghini) e Bellone. Téc: Michel Hidalgo

Espanha: Arconada, Urquiaga, Salva, Gallego, Camacho, Alberto, Señor, Muñoz, López, Santillana e Carrasco. Téc: Miguel Muñoz Mozún

Campanha: Cinco jogos, cinco vitórias. 14 gols marcados, quatro sofridos.

Jogos: 
Fase de grupos
França 1-0 Dinamarca
França 5-0 Bélgica
França 3-2 Iugoslávia

Semifinal
França 3-2 Portugal

Final - 27 de junho de 1984, Paris - Parc des Princes
França 2-0 Espanha


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