segunda-feira, 18 de junho de 2012

Grandes jogos: Argentina-Brasil 1946

Foto: Baú do futebol
Tiago de Melo Gomes, @melogtiago
De Recife-PE
No dia 10 de fevereiro de 1946 Brasil e Argentina fizeram um dos confrontos mais lembrados do longo histórico de partidas entre as duas seleções. A partida, válida pelo Sul-Americano (como então se denominava a Copa América) daquele ano, terminou com uma vitória da Argentina por 2 a 0, dois gols de Méndez. Mas o que menos se lembra é da partida em si.

No Brasil a história normalmente é contada como se essa partida fosse um desdobramento do confronto entre as duas equipes no final do ano anterior pela Copa América. A partida, disputada em São Januário, foi marcada por muita violência. Quem levou a pior foi o zagueiro argentino Battagliero, que fraturou a perna numa dividida com Ademir Menezes. Não há imagens do lance, mas no Brasil se assegura que o lance foi involuntário.

A partida de 1946, no Monumental de Nuñez é encarada por aqui como uma vingança planejada pelos argentinos. Nessa versão, tudo teria descambado de vez quando, aos 28 minutos, Jair da Rosa Pinto, também acidentalmente, quebrou a perna do zagueiro Salomón. A partir daí teria começado uma briga generalizada em que os argentinos massacraram os brasileiros, que teriam em Chico Aramburu o grande herói da briga.

Sempre segundo a versão brasileira da história, ao fim da briga a equipe brasileira estava amedrontada e temendo pela própria vida. Sem clima para jogar futebol, o Brasil teria apenas assistido a Argentina jogar e fazer os gols que quis. Em suma, o que se conta por aqui é que não houve futebol, apenas violência argentina contra um pobre e indefeso time do Brasil.

É difícil avaliar adequadamente a situação, pois não se conhece imagens em movimento das duas partidas, e em geral a história é contada por pessoas que não estavam no Monumental de Nuñez. Mas há coisas que merecem ser revistas nessa história.


Foto: Futebol e cia. ltda
A primeira: é difícil acreditar que os jogadores brasileiros tenham sido apenas vítimas da violência argentina. Afinal, o saldo final das duas partidas foi de duas pernas argentinas fraturadas por jogadores brasileiros. A versão argentina é exatamente oposta. Nela o Brasil bateu sem piedade nos vizinhos na partida de São Januário, e ainda teve a coragem de quebrar Salomón dentro do Monumental de Nuñez. Para os argentinos, a vitória naquela partida simplesmente refletiu a superioridade da albiceleste daqueles anos.

O argumento argentino levanta uma questão importante. Naquela ocasião o Brasil tinha um time muito interessante, já com muitos jogadores que atuariam em 1950. O ataque era avassalador: Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas, Jair e Chico (com Ademir Menezes no banco). Aquela seleção poderia enfrentar qualquer outra de igual para igual. Menos a Argentina.

Naquele momento os vizinhos tinham a melhor geração de sua história. Era o auge da “maquina” do River Plate, com o lendário ataque formado por Muñoz, Moreno (para muitos daquele tempo, o melhor jogador da história do país), Pedernera, Labruna e Lostau. No Boca Juniors estava Mario “Atomico” Boyé. No San Lorenzo atuava o genial ponteiro Rinaldo Pontoni. No Huracán havia o artilheiro Norberto “Tucho” Méndez, autor dos dois gols da partida.

Eram tantos grandes jogadores que o River podia se dar ao luxo de emprestar Di Stefano, então com 20 anos, para o Huracán. E no Brasil daquele tempo, abundavam jogadores argentinos que, sem espaço em seu país, vinham para nosso país e reforçavam as grandes equipes daqui. Se jogadores argentinos medianos se destacavam por aqui, fica difícil sustentar que naquele encontro do Monumental de Nuñez a violência argentina possa ser a única explicação para nossa derrota.

E isso não deveria ser novidade, já que argentinos e uruguaios foram melhores que os brasileiros em quase todos os momentos da primeira metade do século XX. Nesses países o futebol chegou mais cedo e se desenvolveu muito antes do que por aqui. Os uruguaios haviam vencido duas Olimpíadas e um mundial, e viriam a vencer o próximo, em 1950. Em duas dessas competições (Olimpíada de 1928 e Mundial de 1930) o título veio em finais disputadíssimas contra os argentinos.

Os historiadores do futebol brasileiro adoram criar justificativas para explicar um fato que, objetivamente, é incontestável: na primeira metade do século XX o futebol brasileiro não teve qualquer destaque internacional. Teve como maior feito chegar em uma semifinal de mundial, algo que naqueles anos EUA e Suécia também conseguiram. Por isso não surpreende que o artilheiro argentino Pancho Varallo tenha declarado, sobre o mundial de 1930: “os melhores times eram Argentina e Uruguai. Dizem que o Brasil estava lá mas nem me lembro. Só importavam Argentina e Uruguai”.

Assim, a partida de 1946 poderia ser vista por outro prisma. Como lembrança de um tempo em que éramos fregueses (ou “hijos”, como dizem os argentinos) dos vizinhos do Rio da Prata. E o enorme esforço para superá-los certamente foi essencial para o crescimento do futebol brasileiro. Derrotas como aquela mostraram aos brasileiros que ainda havia muito a evoluir.

Argentina: Vacca, Salomón (Marante) e Sobrero; Fonda, Strembel (Ongaro) e Pescia; De la Mata, Méndez, Pedernera, Labruna e Loustau.

Brasil: Luiz Borracha, Domingos da Guía e Norival; Zezé, Danilo e Jaime (Rui); Tesourinha (Lima), Zizinho (Ademir), Heleno de Freitas, Jair e Chico.

Gols: Méndez aos 38 do 1º tempo e aos 10 do 2º.

Expulsões: De la Mata e Chico, aos 28 do 1º tempo.

*Agradeço a meu amigo Esteban Bekerman, @egerbek, historiador e jornalista esportivo argentino, pela ficha técnica da partida.

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