sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A tucanização do futebol como conhecemos

Muralha: apelido do flamenguista é exceção entre netinhos da vovó
(Foto: OGOL.com)
Nessa semana, tenho falado insistentemente sobre as facetas do futebol moderno, ainda que nas entrelinhas. Estamos em meio a uma baderna no "fair play" financeiro, contratações astronômicas, novos direitos de transmissão e a chiadeira contra a globalização do esporte foram os temas recorrentes aqui na TF, entre outros mimimis que citarei ao longo dos próximos posts

Entre várias modalidades de chorume em relação ao futebol, podemos notar que há o reflexo de um certo retrocesso ideológico a que grande parte de nós está sujeito. Veja bem, atualmente a nudez não é aceita ou vista como era em 1993. A franqueza não é mais tão respeitada como em 1989, as pessoas agora são bombardeadas por ter opiniões divergentes, mas antes que esse texto vire uma análise sociológica ou comportamental, eu completo: até os apelidos dos jogadores entraram nessa onda de tucanização. 

Numa era de preconceitos velados e hipocrisia (ok, esse foi o último clichê), os Escurinhos, Azeitonas, Biro Biros, Tesourinhas, Chinesinhos, Pintinhos, Barbirotos e Violas estão se aproximando da extinção. Agora não surgem mais alcunhas como no passado. Muito por causa do conservadorismo e pelos malditos agentes que induzem seus clientes a adotarem nomes polidos, para que o suposto craque "emplaque" no mercado. Visto que hoje o atleta não é só um simples humano e sim uma ferramenta de propaganda, a irreverência está desaparecendo aos poucos.

Em meados da década passada, especialistas afirmavam que Ricardo Izecson dos Santos Leite soaria mais promissor se fosse chamado de "Kaká". Diziam que não iria a lugar algum se fosse "Cacá", quanto mais Ricardo, Ricardinho, Rick. Enfim...

Fico pensando onde raios foi parar a criatividade de quem esbarra com essa molecada nas peneiras Brasil afora. Tão fácil quanto chamar fulano por um nome de estrela internacional como Thuram (conheço pelo menos três), Eto´o, Henry, Makelelê, é só pegar o registro do garoto e pronto. Caio Silva, Pedro Santos, Anderson Pereira, dá até aflição. A melhor dessas alcunhas de famosos é a de Balotelli, do Araguaína-TO. Pode muito bem ser tendência. Se trata de um fenômeno interessante que vai crescendo aqui por essas bandas, contrastando com o marasmo dos nomes compostos citados acima.

Recentemente, o São Paulo promoveu o menino João Schmidt ao time profissional. Seria algo normal se pouco tempo depois não fosse revelado que ele era conhecido como "Jão". Qual é o problema com esse apelido? Estou ficando velho demais ou se Jão jogasse feito Lucas iria ser esquecido porque se chama assim?

As tucanadas não param por aí. Impossível não lembrar de Bruno Octávio (nome de mordomo), João Vitor, Rodrigo Caio (coisa mai rica da vó! - abraços ao amigo Gui Pinheiro, @gui_pinheiro), Maikon Leite (por sorte tem K), e Fellype Gabriel (a numeróloga disse que dois L e um Y alavancariam a carreira do botafoguense). No passado, Babau, Paulão, Caio Cambalhota, Beto Fuscão, Coalhada e Palhinha cairiam na graça do público, que ainda aprecia carisma dessa espécie, não esse bundamolismo nominal que tomou conta.

Que volte o apelido arte, moleque, de raíz, Azeitona y me voy (abraços ao irmão Arthur Chrispin, @achrispin). Irreversivelmente, caminhamos para a burocratização de uma vertente que sempre foi muito divertida no futebol. Esperamos que isso não seja o primeiro passo de uma tucanada e que os jogadores não cheguem ao ponto de praticar o esporte de terno e gravata, ou pior: de sapatênis.

Em tempo: A Copa São Paulo de juniores sempre tem grandes atrações e já revelou talentos como Muralha, Negueba, Douglas Tanque, Valdívia (Rondonópolis), e os incríveis Morcego e Bactéria, do Santos-PB. Há salvação para a tucanização futebolística?

Adendo: Como bem observa o ilustre Ricardo Henriques, o famoso @calhau, o Santa Cruz tenta mudar o nome de Flavio Caça-Rato para Flavio Recife, claramente tentando neutralizar um dos mais geniais apelidos que surgiram nos últimos anos. Por favor, não deixem que isso aconteça.

4 comentários:

Anônimo disse...

O do Santos é Felipe Anderson, acho que você quis dizer Fellype Gabriel do Botafogo. E o Morcego e Bactéria são do Santos-PB, não do -AP.

Felipe Portes disse...

Ok, agradeço pela correção, já acertei no texto.

Grande abraço,
Felipe.

Anônimo disse...

Lembrando que o Carpegiani mudou o "Dentinho" pra "Bruno Bonfim" quando ele subiu pro profissional. Futebol diminuiu e voltou o Dentinho...

Philippe Dutra disse...

O São Paulo mudou o Marcelinho para Lucas, proibindo o cara de usar o apelido. O Tricolor mudou também o nome do Bruno Cortês, que virou Cortez. Por que? Não tenho ideia, difícil entender qual é a diferença. Sobre o Lucas, fácil entender, era irritante ter um atleta com um apelido que lembra um ídol ode um dos maiores rivais.