domingo, 12 de agosto de 2012

Mundo paralelo

Foto: Graphics hunt
Como grande maioria dos garotos brasileiros (não que eu ostente essa nacionalidade por aí hoje em dia), até meus quinze anos sonhava em ser jogador. Era -e continuo sendo- muito magrinho, sem muita força e sempre que dizia aos familiares que queria seguir no futebol, ouvia a mesma coisa. "Mas menino, com essas canelinhas de sabiá você não vai longe. Estuda primeiro, depois pensa nisso". Impaciente e inconformado, aturei isso ano após ano.

Na escola, nunca era escolhido. Uma panelinha era formada na classe entre aqueles brutamontes, e eu, desprestigiado e andando com a parcela nerd nunca tinha chance. Só se alguém faltasse ou sofresse alguma lesão. Nunca foi o caso. Muitas vezes obrigado a jogar com as meninas, me senti como aquele reserva esquecido, um Pedro Carmona sem Ajax, um Zizao sem a nacionalidade chinesa e o marketing. 

Só devo ter jogado em campeonatos escolares duas vezes em todo o ensino fundamental e médio, sempre passando vergonha ou nem tocando na bola. Algum dia de sorte durante uma aula vaga, quem sabe eu conseguisse jogar contra outra sala, outros garotos. Num desses marquei seis gols e começaram a me olhar diferente. Não que isso me fizesse ser considerado como opção. A minha única esperança de ser relevante em campo era (continua sendo) no prédio, onde cada parte da quadra de areia, cheia de pedras e cercada por um muro de pedregulhos afiados é lugar comum na minha mente. 

Em 2005, um episódio engraçado. Montamos um time B só com a parte desfavorecida da classe. Nenhum tinha perfil atlético. Eu era saudável, mas para quem via de fora sofria sério risco de me machucar em qualquer dividida. Ainda sim peitamos a desconfiança no segundo ano e entramos no Interclasse. Tomamos um vareio da sétima série, da oitava e acreditem, só conseguimos nos divertir mesmo contra a nossa própria classe, quando perdemos por um gol no final, graças a falha de comunicação minha com o Pedro, goleiro na ocasião. E ainda sim, não me considerava ruim, só azarado e sem chances. (Discurso corriqueiro entre os esquenta banco).

Me lembro bem que no primeiro jogo dessa competição, sonhei que tinha levado uma bolada no rosto e caia quase desmaiado no chão de concreto da escola. Para o meu desgosto, no dia seguinte aconteceu exatamente a mesma coisa. Desarmei um ataque e afastei mal a bola, de carrinho. O atacante adversário não se incomodou em chutar forte bem na minha cara. Desnorteado, fui de cabeça no solo, para desespero da professora. Pensaram que eu havia desmaiado, mas três segundos depois já ria e dizia que estava tudo bem. No fim da tarde me lembrei do sonho. Seguindo o desastre, perdemos as três partidas e dei duas furadas vergonhosas na lateral. 

Persistência
Mal nos estudos, tentei me inscrever numa escolinha perto de onde eu estudava. Desloquei a clavícula duas semanas depois e teimoso, fui prestar uma das aulas grátis que o São Caetano oferecia. Ainda com restrições físicas, entrei num coletivo com a molecada. Calçando minha chuteira de Totti, ostentando um cabelo longo e uma tiara (é, lamento, mas eu achava bacana), entrei no gramado sintético determinado a mostrar serviço. 

Fiz dois gols em três lances e me choquei ao entrar numa dividida com um garoto que tinha próteses nas pernas. Uma delas caiu com a colisão e ao me virar, assustei com a imagem do menino recolocando a peça no lugar. Sem a ajuda do meu velho para bancar a escolinha, me desiludi um pouco. Com talento pra me lesionar na hora errada, tornei a me machucar no ombro e aí foi que vi que talvez não estivesse percorrendo o caminho certo. Pensei numa faculdade, cheguei ao jornalismo e bem, cá estamos. 

O que mais me marcou esse tempo inteiro além da frustração é a memória dos sonhos que tive. Em cada semana era o artilheiro em algum time. Me recordo perfeitamente de um que eu vestia a camisa da Internazionale. Tabelei com Javier Zanetti e levei um carrinho criminoso de Simone Loria, então no Siena. Não entendi por que raios eu, romanista convicto, vestiria o manto nerazzurri. Em outro, entrei em campo e me emocionei durante o hino... italiano ao lado de Fabio Cannavaro, Alessandro Nesta, Gennaro Gattuso e Gianluigi Buffon. Logo que foi iniciado o jogo, acordei. 

Em várias outras ocasiões, vesti a camisa do Palmeiras e vibrava com a torcida ensandecida no Palestra Itália, ganhei Brasileirões, Libertadores e clássicos regionais, às vezes até marcando gols antes do apito final, ou acompanhando tudo do banco de reservas. Até hoje ainda me pego invadindo o mundo o qual tentei pertencer, mais porque sou apaixonado do que qualquer tentativa de ser importante, fundamentalmente. 

A questão de escolher viver do futebol, ainda que com palavras ao invés de chutes e cabeçadas, me parece ter sido uma sábia decisão. Sempre fico próximo ao que me mantém motivado, apaixonado e com o brilho nos olhos. 

Pouco me importa se na realidade nunca consegui sair da quadra de areia do prédio ou dos vexames escolares. Me restam as fantasias e lembranças de algo que não aconteceria, mas que no faz de conta era tão encantador quanto. Foi bom ter sido assim. Não sei como reagiria às cobranças de torcedores e diretores. Não sei se teria jogado pelo meu Palmeiras, pela minha Roma ou até mesmo pelo Partizan. Tudo isso pertence a um mundo paralelo em que as minhas limitações nunca fizeram diferença e eu pude ser um dos grandes.

Nos meus sonhos, isso será sempre incontestável. E não há ninguém que possa desmerecer essa magia. Amanhã vou acordar, machucado no pé e com pressa pra ir à aula. Motivado da mesma forma, sabendo que dou passos rumo ao que busco ser na vida real. Sentindo falta de gritarem meu nome nas arquibancadas, naquele duelo contra aquele time que nunca existiu...

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