sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O maior palmeirense

1990: Seu Obson, eu, Mariane e Priscilla
Na barriga da mãe, o nenê mal sabe chutar e já tem um time para torcer. Mesmo que ainda não tenha nome, já se sabe que ele será flamenguista, santista, corintiano, ou no caso, palmeirense 

Na primeira foto do bebê vestido, sem aquela cafonice de retrato dele peladão na banheira pra quem quiser ver, a camisa verde e branca já estava presente na vida da criança.

Carregando-a no colo, o pai exibe um sorriso de quem sabe que seu desejo será atendido: meu filho será tão apaixonado quanto eu. Dessa forma, Seu Obson passou os meus primeiros anos de vida de um dos seus herdeiros o educando como pessoa e palestrino. A janela do quarto ainda ostenta um adesivo do periquito alviverde. Na festinha de aniversário, o tema do Palmeiras, com todos os pratinhos, garfos em verde e branco, chapéus do mascote e mini jogadores em cima do bolo. A mãe, servindo os amigos presentes na sala, e o pai orgulhoso conversando com a parentada. Dizia que o seu moleque já sabia cantar "verdão eô, verdão eô".

Na televisão, os gols da rodada que costumavam assistir juntos. Em determinado gol do Corinthians, o pequeno vira e comenta: que golaço! Espantado, o pai rapidamente acoberta a observação e esclarece: Filho, gol deles a gente não pode comemorar. A leve repreensão abriu um mundo na cabeça de tigela do menino. O mundo da rivalidade.

As poucas cenas que restaram da primeira visita ao Palestra Itália, estão bem vivas. Dão conta de que no dia 14 de novembro de 1993, dois adultos e um garotinho foram à arquibancada do Jardim Suspenso para acompanhar Palmeiras x Fluminense. O avô, que também carregava grande afeição pelo Fluminense, ficava atento ao seu inseparável radinho de pilhas. A pipoca acabou rápido, assim como o encanto daquele embate, 2-1 para o time da casa, para a alegria do baixinho.

Todos os domingos tinham um gosto especial. A página de esportes do jornal por anos foi o beabá do futebol para o menino, que escalava de Velloso a Evair, dando os seus pitacos sobre quem poderia estar em campo ou não. Era corneteiro desde pequeno. Em família, todo clássico virava cabo de guerra. Os tios corintianos e tricolores brincavam sobre a suposta má escolha do pirralho, que recorria ao seu velho: Pai, eles disseram que o Palmeiras não vai ganhar nada esse ano! Heroico, ele respondia: Nada disso, filho, deixa chegar o próximo jogo contra eles e você vai ver o ferro que vão tomar!

Seu Obson ensinou aquela criança a acreditar sempre no time, até quando ele mesmo não o fazia. De Mancuso a Cesar Sampaio, de Luizão até Oséas. O amor herdado era tanto que o franzino jogava futebol no prédio como se fizesse parte do elenco alviverde, todo uniformizado. Viram o Paulista de 1996, a Copa do Brasil e a Mercosul de 1998, a Libertadores de 1999, o Rio São Paulo 2000 e a Série B em 2003. Nem mesmo a queda para a Segundona afetou aquele sentimento. Na estreia da B, contra o Brasiliense, se reuniram pra acompanhar aquele 1-1 sofrido, com gol de um certo Vágner.

Passou-se o tempo e eles começaram a conversar sobre o que estava errado no clube. Antes era só um monólogo, hoje é conversa de boteco. Em nenhum momento o pai permitiu que sua cria deixasse a fé palestrina de lado. Foi-se a infância, o avô, a Parmalat, a era de vacas gordas, um casamento, várias namoradas, a noiva (que já fez questão de voltar), o ensino médio, um pedaço de faculdade, a inocência e uma fila de doze anos na vida de ambos.

Aqui estamos, juntos e palmeirenses, como não poderia ser diferente, pai. Há de passar muita coisa nos próximos anos, decepções, glórias e riso, mas a gente não. As cores da nossa camisa nunca vão desbotar e eu espero que você ainda fique muito tempo comigo, com a Mariane e os meninos pra que nós possamos discutir sobre envelhecer, crescer e até mesmo ser pai, quando for minha vez, ser alguém. Alguém que eu nunca seria sem o teu empurrão, tuas broncas e tua força. Sei que a gente sofre com o Palmeiras, mas sempre valeu muito a pena.

[11 de julho de 2012] 
Enquanto isso, antes da decisão na Copa do Brasil, toca o telefone na casa do velho. As crianças gritam e pulam pela sala, querem falar também. Ele pergunta como estão as coisas e a resposta vem em forma de pergunta, que só poderia ser uma naquele dia. Tenso, o filho pergunta: Será que é hoje que a gente ganha?

[24 de agosto de 2012]
Olha para o quarto, levanta da cama e olha o pôster na parede logo acima da sua cabeça. É, ganhamos...

Um comentário:

Anônimo disse...

Essas lagrimas que insistem em descer dos olhos , são parte tristes pela lembrança do seu Edison , lá no Palestra com o coração dividido , e feliz por testemunhar a primeira visita do neto querido pra ver o Verdão que venceu , apesar do Sorato , em sua homenagem , e de alegria por ver em que belo ser humano , que belissima pessoa se transformou aquele pirralhinho louro ... o Felipe .

Obson de Almeida