terça-feira, 14 de agosto de 2012

O preço que se paga às vezes é alto demais

Foto: Superesportes





O futebol está ficando previsível. Não arrisco usar a palavra "chato", pois vez ou outra acontece uma coisa fantástica, um golaço, um time pequeno sendo campeão, entre essas coisas inesperadas que fazem a gente descer do pedestal da amargura e abrir um sorriso, dizendo "como não amar esse esporte?". 

Ainda sim, estão querendo estragar o meu esporte favorito. Esses almofadinhas e seus petrodólares, petroeuros e petrolibras não medem esforços para desequilibrar ligas mundo afora, contratando baciadas de estrelas internacionais em busca de títulos e a tão desejada grandeza, que já começou guerras e gerou discórdia. Mas calma, não é tão dramática assim a situação, veja bem.

O Paris Saint-Germain é desde sua criação um dos principais nomes do futebol francês. Na década de 1990, conseguiu alcançar seu auge de forma digna e com a força de craques como Raí, Leonardo, Youri Djorkaeff, Bruno N´Gotty, entre outros que vieram depois. Tudo isso sem extravagâncias financeiras. Passando por uma fase terrível que quase culminou no seu rebaixamento durante a década de 2000, o PSG foi se reerguendo aos poucos até que em 2011 foi vendido a um grupo de investimento do Catar, o QIA (Qatar Investment Authority). Começou aí uma era de fartura e torra torra, conduta que vem se tornando cada vez mais corriqueira no cenário europeu.

A contratação de Leonardo como diretor esportivo foi um sinal de visão, já que o brasileiro por anos fez excelente trabalho no Milan, antes de ser queimado na fogueira das vaidades milanistas como treinador, cargo que também tentou exercer na rival Inter, sem sucesso. Voltando ao seu posto natural após a aposentadoria como atleta, o carioca de Niterói dita quem chega e quem sai na equipe. E é aí que começa a configurar o problema que é o centro deste post. 

Tudo começou a desandar em 2011-12 quando a diretoria parisiense torrou cerca de 106 milhões de euros em 13 atletas. O mais caro deles foi Javier Pastore, ícone argentino do Palermo, o qual custou 42M aos saudáveis cofres franceses (ou catarianos). Thiago Motta, Alex, Maxwell, Diego Lugano, Roman Le Crom, Salvatore Sirigu, Blaise Matuidi, Jéremy Ménez, Mohamed Sissoko, Milan Bisevac, Kevin Gameiro e Nicolas Douchez desembarcaram no Parc des Princes durante a temporada. Se você acha muito, espere até o fim do próximo parágrafo.

Perdendo o título francês para o simpático Montpellier por três pontos, o pessoal do QIA se enfezou e entrou de sola outra vez no mercado. Só nesta janela de verão, que fecha em setembro, o clube da cidade-luz investiu 140 milhões de dinheiros em Lucas, Zlatan Ibrahimovic, Thiago Silva, Marco Verratti e Ezequiel Lavezzi. Diga-se de passagem, 63 milhões destes 140 foram para o Milan, com as vendas de Thiago (42M) e Ibra (21M). Outros 40M foram para o São Paulo, com a negociação de Lucas, que ninguém entendeu como estava valendo isso tudo sem ter feito nada grandioso aqui por essas bandas. 

Aí vocês vão dizer que é recalque, que ele é uma promessa. Certo. Mas que promessa no mundo sai por essa bagatela sem ter nenhum título no currículo além de uma Copa São Paulo e um Sul-americano sub-20? É loucura, é megalomania e é perigoso. O argumento que mais pintou sobre o assunto e com o qual eu concordo plenamente é que com essa ação, o PSG inflacionou completamente o mercado e agora qualquer Joãozinho, Paolo, Theodore ou Andrés que pintarem por aí, não saem por menos de 20 milhões. Bom para o tricolor paulista, que se desfez de uma promessa que ainda não se cumpriu e levou uma baita recompensa por isso.

É o preço que se paga pela ambição, pela caçada incessante à glória internacional que deveria ter acontecido no ano passado na Liga Europa. A eliminação precoce na primeira fase foi um belo balde de água fria. Em quesito nacional então, a corda deve estar ainda mais apertada no pescoço dos responsáveis. 

A prática de queimar o cascalho, o tutu, a bufunfa, iniciada pelo Chelsea lá em 2002 é abominável. Equipes que não tem história ou base para montar aos poucos um plantel de sucesso recorrem aos intermináveis cifrões de magnatas obscuros para colocar seu nome entre o dos grandes campeões. Nessa onda já temos Málaga, Racing Santander, Zaragoza, West Ham e até a Roma.

Bem como os senhores devem saber, grandeza não se compra. A única vantagem (se é que podemos usar esse termo) nesses casos é a troca de poder nas ligas europeias. O Manchester City, por exemplo, outro que é adepto de uma farra financeira, demorou cerca de três anos para levantar o seu título abocanhado por astros como Sérgio Agüero, Mario Balotelli e David Silva, que por sua vez foram financiados pelo Abu Dhabi United Group. Derrubaram apenas o maior rival, o Manchester United (percebam a ironia), que levantou a Premier League quatro vezes em seis anos.

Fato é que o ônus é muito maior do que o bônus para todos os outros times da Ligue 1, que já sofriam com o baixo orçamento. Se já estava difícil, que dirá agora, com esse mar de verdinhas a favor dos parisienses. É preciso repetir que grandeza não se compra, mas esse é um tema para outra conversa. Por agora, fica a impressão de que as taças condicionam o rótulo de pequeno ou gigante. Não é uma questão tão trivial assim. Como diria Humberto Gessinger, o preço que se paga às vezes é alto demais... 

Em tempo: na estreia do BOULLEAUZÃO, o todo podero$o PSG empatou com o Lorient por 2-2 neste sábado. Não fossem os dois gols de Ibra no fim, a justiça da bola iria cobrar caro pela irresponsabilidade financeira.

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