quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Baseado em fatos reais

Foto: Placar
CENA 01 – EXTERNA. CAMPINHO DE CHÃO BATIDO. TARDE.
Sob o sol escaldante de Santa Cruz de La Sierra, MARCELINHO cai ao tentar driblar o goleiro. A bola vai rolando para a linha lateral, mas é recuperada por um jogador do mesmo time, que a devolve para o meio da área, onde MARCELINHO, ainda sentado, dispara um foguete em direção ao gol. A bola bate no travessão e sai.

CENA 02 – INTERNA. ESCRITÓRIO. ENTARDECER
JOSÉ está sentando em frente a um computador, programa de edição de textos aberto, cursor piscando na entrada do parágrafo. Cotovelo direito apoiado, mão no queixo, enquanto os dedos da mão esquerda batem freneticamente na mesa. Ele olha fixamente para a tela em branco.

CENA 03 – EXT. ESTÁDIO COUTO PEREIRA. NOITE.
EVERTON, do Coritiba, ginga pra lá e pra cá na frente de GILBERTO, dentro da pequena área do Grêmio, e chuta sem chances para MARCELO. Do outro lado do campo, KLÉBER apenas observa enquanto os jogadores de branco comemoram. [Passagem de tempo] KLÉBER entra correndo na área do Coritiba e é derrubado por PEREIRA NEGRO LINDO. Pênalti. Gol. [Passagem de tempo] Em ataque do Coritiba, NALDO, que substituiu GILBERTO, escorrega e deixa a jogada correr até que ROBERTO, mancando, estica a perna e coloca a bola pro fundo do gol de MARCELO.

CENA 04 – INT. SALA DE ESTAR 1. NOITE.
TOGO dedilha, em seu violão, notas de amor ao Botafogo. Sua família, espalhada por outros cômodos da casa, o incentiva a continuar.

CENA 05 – INT. SALA DE ESTAR 2. NOITE
JOSÉ se senta e acompanha NALDO ficar repentinamente cego ao não enxergar ANDERSON dando condição de jogo ao PEREIRA NEGRO LINDO, que então passa a não ser tão lindo ao cabecear livre e marcar o terceiro gol do Coritiba. JOSÉ blasfema contra todas as gerações passadas e futuras de NALDO, o cachorro de JOSÉ se assusta e sai cambaleante escorregando pelo corredor. JOSÉ tuita impropérios. [Passagem de tempo] Grêmio perde gols. JOSÉ blasfema ainda mais.

CENA 06 – INT. SALA DE ESTAR 1. NOITE
TOGO acompanha a reação do Coritiba e pensa que o Botafogo pode fazer o mesmo mais tarde, contra o Palmeiras. Seus dedos correm pelas cordas do violão, a melodia começa a tomar forma, e ele pensa, na sua superstição de torcedor, que ela talvez possa dar sorte (?) ao time da estrela solitária.

CENA 07 – EXT. ESTÁDIO COUTO PEREIRA. NOITE
KLÉBER vê a bola passar a milímetros de seu pé, quando esperava que o outro jogador do Grêmio chutasse a gol. MARCELINHO, que vinha logo atrás, entra na área. A bola rola para a lateral do campo, mas KLÉBER se recupera, consegue alcançá-la e a joga na área. MARCELINHO a disputa, sem sucesso, e sai da área novamente. SOUZA, do Grêmio, chuta de qualquer maneira de volta pra área.

CENA 08 – INT. SALA DE ESTAR 2. NOITE
JOSÉ blasfema.
[JOSÉ]
CHUTA ESSA MERDA!

CENA 09 – EXT. ESTÁDIO COUTO PEREIRA. NOITE
MARCELINHO, que está quase sentado na pequena área, encaixa um chute mascado como as folhas de coca de Santa Cruz de La Sierra. ESCUDERO, do Coritiba, levanta o braço, aquele sinal claro de quem indica que estava dando condições no lance. VANDERLEI também estica o braço, mas não alcança nada. Gol. MARCELINHO, em chamas, corre até o gandula, pega uma bola e dispara em direção ao centro do campo. Ninguém havia explicado a ele as regras do campeonato.

CENA 10 – INT. SALA DE ESTAR 1. NOITE
Visivelmente emocionado com o jogo que acabara de ver, TOGO decide tornar público seu amor pelo Botafogo.

CENA 11 – EXT. ESTÁDIO ENGENHÃO. NOITE
Começa Palmeiras e Botafogo. [Passagem de tempo] Gol dos alvinegros.

CENA 12 – TRANSMISSÃO DA GRANDE IMPRENSA
[NARRADOR]
Que bonito, vamos à participação do telespectador.
[VÍDEO]
TOGO, de Mossoró, RN, canta “e ninguém cala esse nosso am...”
[NARRADOR]
OLHA O PATRIK, GOOOOOOOOOOOOOL DO PALMEIRAAS.

CENA 13 – INT. SALA DE ESTAR 1. NOITE
TOGO, que sorria, vai entristecendo, entrando em um estado quase catatônico, de infinita incredulidade.

CENA 14 – INTERNA. ESCRITÓRIO. MADRUGADA
JOSÉ está sentando em frente a um computador, digitando, as letras aparecendo freneticamente. Aproxima-se da tela, e então se pode ler o seguinte: “Esta quarta-feira passada foi, senhores, a noite mais simbólica já vivida pelos brasileiros na história da Copa Sul-Americana (mesmo que Figueirense ou Atlético-GO avancem à fase internacional da competição, na quinta). Em Curitiba, diante do Coxa, o Grêmio comeu o gol que o Pereira marcou, mas foi salvo pelo CACIQUE SENTADO Marcelo Moreno, que marcou o tento salvador – desculpa, El – já no apagar dos refletores. Foi o suficiente para regurgitar das gargantas gaúchas os gritos de IMORTAL e GOL CACETE, TAMO CLASSIFICADO, PORRA. Emoções inesperadas. 

No Rio de Janeiro, de onde não se esperava muita coisa (uma vez que o Palmeiras de Felipão já havia feito seu escore padrão de copas™, 2-0), o folclore soou forte e, sob o céu da quarta-feira, fomos estapeados pelo poder da mística TEM COISA QUE SÓ ACONTECE COM O BOTAFOGO. A estrela solitária novamente apagou-se, mesmo na vitória de 3-1 sobre os de PARQUE ANTÁRCTICA. Não sem luta, não sem insistência, não sem bolas na área como se não houvesse amanhã, mas também não sem a ZICA – sempre ela – com a qual nos acostumamos a rotular o Botafogo. Pois todos se lembrarão deste jogo por dois motivos: primeiro, porque o Botafogo jogou como nunca, mas perdeu como sempre; segundo, e mais importante, porque tomou um gol do internauta, do seu próprio internauta, pela primeira vez na história das transmissões televisivas.

Penso, amigos, que esta rodada daria um roteiro de filme. Talvez um curta-metragem sobre um pequeno boliviano sentado e sobre um rapaz de apelido africano. Algo entre o emocionante, o clichê e o bizarro.”

SOBE O LETREIRO
Troféu QUANDO VAMOS PRA BALEIA da rodada: Marcelo Martins Boliviano Negro Lindo Moreno me abraça. Só não concorda quem é colorado ou é o El;
Troféu MAS HEIN?!: São Paulo 2x0 Bahia. Quando vocês pensaram em ver o jogo, OPS FOI ONTEM.

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.
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