terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dignidade

Foto: IBN live





Sediada na Polônia e na Ucrânia, a última edição da Eurocopa teve dois campeões. A Espanha, que conseguiu defender o título com sucesso, e os próprios ucranianos, que puderam ter a honra de sediar um evento dessa magnitude após tanto tempo e tantos traumas.

Primeiramente, o feito de se classificar às quartas de final na Copa de 2006 automaticamente colocou essa geração como a mais gloriosa do país, reconhecido como nação independente em 1991. Comandados pelo gênio Andriy Shevchenko e sua tropa galopante composta por Anatoliy Tymoschyuk, Oleg Gusev, Ruslan Rotan, Andriy Yarmolenko e Andriy Pyatov, a seleção soviética não deixou sua torcida desapontada.

Apesar dos três pontos e a eliminação na primeira fase, a vitória contra a Suécia, de virada foi o ponto alto para o time da casa, que viu o estádio Olímpico de Kiev transbordar com os dois gols de Shevchenko, já em contagem regressiva para a aposentadoria. Não bastasse só o fato do maior ícone do futebol local estar dando adeus, ele quis (e conseguiu) dar uma última alegria ao seu povo do jeito que sabia melhor.

Indo às redes era a forma que Sheva encontrava de invocar o espírito guerreiro que demonstrou ao longo de seus anos de carreira. Já com idade avançada e sofrendo com lesões, o capitão teve de dar espaço aos outros operários do plantel, que não se entregaram em nenhum momento da competição. A vitória inaugural contra os escandinavos alavancou as chances ucranianas de seguir na Euro. Usaram da melhor forma possível o apoio da presença fanática nas arquibancadas.

Sem a presença do capitão no duelo contra a França, a destemida camisa amarela segurou o empate contra Les Bleus, esquecendo de sua evidente diferença técnica. Jéremy Menez e Yohann Cabaye fizeram os gols visitantes logo após o intervalo, furando o forte bloqueio defensivo. Era demais pedir que Oleg Blokhin armasse seu esquema de forma ofensiva apenas sendo empurrado pela motivação. Ainda sim, a garra demonstrada pelos onze locais na Donbass Arena era visível. 

O capítulo final de uma história que não teve o final feliz aconteceu novamente na Donbass Arena, em Donetsk. A síntese foi a mesma. Jogo amarrado, pressão inglesa com contragolpes da Ucrânia, que não conseguia balançar as redes de Joe Hart, bem colocado na meta e determinado a sair de campo sem ser vazado. Nem todo o poder bélico (em campo) da equipe mandante seria suficiente. Wayne Rooney sacramentou a despedida com um gol de cabeça, em falha da marcação.

Atenta, ao contrário da defesa ucraniana, a retaguarda composta por John Terry e Joleon Lescott impediu por duas vezes o empate, tirando a bola em cima da linha e para o desespero de Yarmolenko e Marko Devic, os únicos homens a vencer Hart em campo. Simples e tragicamente, era o destino dos soviéticos saírem do certame sem ter o gostinho de ver o seu maior ícone tornar a marcar. 

Restando vinte minutos para o apito final, Shevchenko entrou em campo pela última vez. Encerrando um ciclo da forma mais amarga que um ídolo merecia ter. Impotente contra os principais adversários do dia, a defesa inglesa, a muralha Hart e o tempo, impiedoso tempo, Andriy não teve o consolo de uma última partida eliminatória na fase seguinte. Ao fim daquela noite, no entanto, ganhou um motivo para sorrir. Ovacionado pelos presentes no estádio (e por milhões de admiradores pela TV), o eterno capitão recebeu seu último aplauso como estrela do show. 

Não haveria bravura dentro de cada um dos jogadores ucranianos que fossem reverter a derrota, o triste adeus. Cercados por cachecóis, palmas e bandeiras, os heróis deixaram o campo para cair nos braços do povo. O povo que os apoiou e que soube reconhecer o lado honroso da eliminação. Pois se há algo que é mais forte que a decepção ou o insucesso, é a sensação de dignidade, de saber que fez o melhor. 

Cobertos por um lençol de orgulho, os ucranianos saíram de cena e perderam a companhia de um gênio. O ponto final de um verão inesquecível. Que poderia muito bem ter terminado como em 2006 ou melhor. Nos sonhos deles, essa possibilidade nunca poderá ser negada ou contestada. 

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