sábado, 6 de outubro de 2012

O amante

Foto: D24am
Para muitos, o conceito de vida adulta perfeita é aquela que você alcança seus objetivos profissionais e pessoais, sem se perder no caminho. Pode parecer distante (e é mesmo), mas para Renato Portaluppi, a década de 1980 foi um marco tanto na sua carreira quanto no seu estilo de vida, motivando milhares de pseudo-galãs Brasil afora a testar seu poder de conquista com as belas (nem sempre) moças, deslumbradas pelos seus príncipes encantados.

Renato nasceu em Guaporé em 1962 e viveu em Bento Gonçalves, jogando no Esportivo até ser contratado pelo Grêmio, em 1982. Virou referência no tricolor de forma rápida, na página mais gloriosa da equipe porto-alegrense. Se integrando do dia para a noite com a geração que venceu o Brasileirão de 81, foi crucial na campanha do vice nacional em 82 (derrota para o Flamengo de Zico) e a partir daí, escreveu uma grande história no Olímpico, dentro de campo. 

Para alguns gremistas, como o colega Ivan Capelli (@ivancapelli), ele tem sim grande papel como atleta, mas não se portou como verdadeiro ídolo. "Eu o resumiria como um grande ator. É referência por ter dado grandes títulos ao clube, mas nunca teve identificação real com o Grêmio. Foi um baita jogador, e só", comenta Ivan. 

Por outro lado, nosso ilustre José prefere lembrar de Renato nos grandes momentos da década de 80. "Ele andando calmamente, de costas, afastando-se de uma confusão, mostrando, com os dedos: "2-1" prum uruguaio qualquer do Peñarol, na final da Libertadores. Depois, em Tóquio, correndo com os braços abertos e mandando beijos para a torcida". Naquele dia, marcou dois gols contra o Hamburgo, fazendo do Imortal o campeão mundial de 83. (José chorou durante o relato)

Em 1983 veio a conquista da Taça Libertadores, em cima do Peñarol. Colocando o Grêmio no mapa dos gigantes sul-americanos, o atacante levou a massa azul de Porto Alegre à loucura com as suas jogadas que quase sempre resultavam em gol. Seu ou dos companheiros. Em especial no confronto contra os carboneros, José também tem algo bem vivo a contar. "Antes da confusão, ele estava na lateral, cercado por dois uruguaios e fez uma embaixadinha. Mandou um bago pra dentro da área, daí o César entra com tudo e É GOL, PORRA! É GOL, CARALHO, É GOL, É GOL, É GOL". 

Amava a bola e a bola o amava também. Por trás dos dribles, dos gols e da juventude, o garoto de Guaporé agora era homem, entrando em contato com os prazeres de ser gente grande. Sem dar satisfação a ninguém, virou estrela nacional e constantemente era entrevistado por repórteres não menos encantadas com as suas palavras e o seu jeito liso de tratar as donzelas do seu tempo. Com a fala carregada de clichês e pinta de ator global, era invejado por vários outros homens que desconheciam a fórmula do sucesso de Renato entre as mulheres, em dias que elas transbordavam sensualidade.

Criticado pela mídia especializada (em futebol), foi posto em dúvida diversas vezes em paralelos com sua vida extracampo. Perguntavam se o estilo despojado não estava afetando o jogador Renato. Não que ele precisasse provar algo, mas ainda tinha uma longa estrada pela frente. Negociado com o Flamengo em 1987, foi envolvido em uma polêmica durante o mundial de 1986, ao ser cortado por Telê Santana por indisciplina na preparação para o torneio. Quatro anos depois, na Itália, pouco participou e apenas entrou em campo contra a Argentina, que marcou a eliminação brasileira da competição.

A vida carioca foi a constatação de que ele estava no lugar certo, perto das praias, de Ipanema e do mar. Melhor jogador do Brasileirão de 87, colaborou diretamente para o tetracampeonato rubronegro, dando indícios de que seria uma bela história de amor com a equipe da Gávea. Cobiçado pela Roma, dizia sempre que perguntado sobre a transferência, que preferia permanecer no Flamengo. 

Perdido na noite romana, Renato passou em branco pela equipe giallorossa e retornou ao Fla, onde ficaria até 1991, antes de novo romance com o Grêmio. A relação entre os dois estava desgastada e ele preferiu aceitar uma proposta do Botafogo, onde protagonizou uma polêmica com os amigos que estavam no rubronegro. Após perder a primeira partida da decisão do Brasileiro de 1992, o ponta direita apareceu em um churrasco organizado pelos atletas flamenguistas no dia seguinte. Afastado do Glorioso, tentou a sorte no Cruzeiro. 

Era difícil se adaptar em algum lugar que não fosse o Rio, e no tempo em que esteve em Minas, ganhou um campeonato mineiro e uma Supercopa Libertadores na Raposa, durante o ano de 92. Integrante da SeleGalo, em 94, que reunia craques como Neto, Luis Carlos Winck, Éder e Adilson, fracassou em levar o Atlético a algum lugar e bagunçou o coreto, sem ser punido pelo técnico e amigo Valdir Espinosa. Era quase o dono do time, que naufragou em vaidades.

O auge de Renato já era uma simples memória e em 1995 voltou ao Rio para o seu último momento de glória. Sem a forma de outrora, mas com a mesma marra e lisura, deu ao Fluminense um título carioca, marcado por um gol de barriga contra o Flamengo. Contudo, no ano seguinte a campanha no Brasileiro foi desastrosa e o tricolor amargou seu primeiro rebaixamento. 

Encerrou seu ciclo profissional em 1999, pelo Bangu, depois de ter jogado uma vez mais pelo Flamengo, em 1997. Daí em diante, virou Renato Portaluppi, pai de família e treinador. Sem esquecer seus tempos de galã e garotão, continuava aparecendo diante das câmeras com o seu óculos escuro característico e as respostas afiadas, na ponta da língua. Provocador, é um dos últimos dissidentes da irreverência dentro do futebol. 

Exemplo de grande jogador e fanfarrão, jamais conseguiu apagar a imagem de baladeiro, muito embora nunca saísse nas capas de jornal em manchetes sobre atraso ou falta em treinos, como alguns outros sucessores falharam em evitar. Renato talvez nunca tenha sido o grande amor das torcidas por onde passou. Seria mais justo o colocar como o amante, o que não diminui sua importância. O atleta foi incontestável, já o homem, só o tempo irá dizer. Em terra de privações, moralismos e hipocrisias, Portaluppi foi rei entre os que não deviam nada a ninguém, postura que muitos de nós tentamos adotar sem sucesso.

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