terça-feira, 16 de outubro de 2012

O maestro

Foto: Quattro Tratti
Ele marcou a história do futebol brasileiro e fez parte de um dos times mais fabulosos de Brasil,  Internacional e da Roma. Ícone do esporte nos anos 80, Falcão foi a classe e a maestria no meio-campo


Num dia qualquer, a criança que cresceu ao lado da bola estava no Estádio Sarriá, em Barcelona, num jogo de Copa do Mundo. Os filmes da infância e da vida doce ficaram distantes, enquanto o adulto tinha de lidar com a responsabilidade de dar o melhor para levar o seu país a mais um título mundial. Nem se doando ao máximo foi possível. Nove anos antes, a revelação do Internacional sonhava com aquele dia, que infelizmente não transcorreu como na fantasia, dele e dos milhões de brasileiros que foram castigados por Paolo Rossi.

Paulo Roberto nasceu e aprendeu em Abelardo Luz-SC a dar seus primeiros passos e primeiros toques na bola. Em 1973 estreou pelo Inter e dois anos depois já conduzia a equipe ao tricampeonato nacional. No Beira Rio, traçou uma incrível façanha de levar o clube gaúcho a ser o primeiro a conquistar três vezes o Brasileirão. A proeza só foi igualada pelo São Paulo, em 2008. 

Pelo Colorado, mostrou que poderia ser importante, marcando vários gols, ainda que como meia de origem. Poucos tinham a classe, a técnica e a inteligência de Falcão para decidir o rumo de uma jogada. Rei e maestro de um futebol de força, ele passava leve pelos gramados, carregando a bola e distribuindo como um operário. Sabia transitar entre o mundo dos mortais e dos intocáveis. Anos depois, sua legião de fãs ainda comemora os maiores lances, os dias gloriosos que não hão de ser esquecidos por quem presenciou a magia do atleta.


Maior craque do Inter, vestiu a camisa vermelha até 1980, depois da derrota na final da Libertadores perante o Nacional. De partida para a Roma, encontrou num time equilibrado o lugar perfeito para se encaixar. Qualquer dúvida sobre o seu desenvolvimento como estrela internacional foi derrubada com o título da Serie A em 1982-83 e a caminhada até a final da Copa dos Campeões no ano seguinte contra o Liverpool. Naquela oportunidade, Falcão se contundiu pouco antes da decisão e pouco participou do maior quase romanista de todos, se recusando a bater um dos penais.

De Paulo Roberto a Rei de Roma, ganhou o afeto da torcida giallorossa da mesma forma como havia feito antes com a colorada. Nesse meio tempo também galgou uma vaga no coração dos que viam na seleção brasileira uma grande esperança. Peça chave em um dos esquadrões mais memoráveis do Brasil em Copas, desfilou com Zico, Cerezo e Sócrates um dos meio campos mais geniais que o esporte já viu. Sem perder para nenhum deles em importância ou talento, Falcão era um desses que fazia o futebol parecer coisa de criança.

Marcado por ser um elo essencial na meia cancha verde e amarela na Espanha em 1982, Falcão não esquecia a paixão nem ao comemorar os seus gols. Sofreu com o dia 5 de julho, onde os comandados de Telê Santana fizeram tudo certo, mas ainda sim viram Paolo Rossi ir além do possível, além do reversível. Mais do que as glórias,

Rivalizando com gênios da década de 1980, foi concorrente de Michel Platini numa Itália recheada de grandes nomes, colocando a Roma entre os maiores do país, lugar de onde nunca mais saiu. Em cinco anos no Olimpico, teve seu auge e sua decadência após uma série de lesões e divergências com a diretoria romanista. De volta para o Brasil em 1985, assinou com o São Paulo para encerrar sua carreira com a dignidade que sempre lhe acompanhou desde os tempos de Porto Alegre. Levantando o Campeonato Paulista de 1986, deu sua última volta olímpica no Morumbi, já deslocado como volante em virtude de sua idade e forma física.

Pergunte a qualquer cidadão que assistia futebol na década de 1980 qual é o jogador mais completo que esteve em atividade no Brasil naquele período. A maioria massacrante deverá apontar Zico (com extrema justiça, diga-se), e os que fugirão a essa regra dirão que foi Falcão. Dada a circunstância que o Galinho de Quintino era quase um extraterrestre com a bola nos pés, é necessário que se reconheça que o ex-colorado, romanista e tricolor foi um ícone de alto nível, uma referência para todo e qualquer volante que se meta a querer fazer mais do que simplesmente proteger a zaga e organizar as saídas de jogo.

Nessa terça-feira, que por acaso marca o aniversário dele, fica registrada a homenagem a um dos maiores jogadores que já passou por nossas terras. Vida longa ao Rei de Roma, ao Divino (não confundir com Da Guia), o volante que jogava de terno, gravata, chapéu e mocassim.

2 comentários:

Rogério Cunha disse...

"No Beira Rio, traçou uma incrível façanha de levar o clube gaúcho a ser o primeiro a conquistar três vezes consecutivas o Brasileirão."

Aquele Inter era mesmo um grande time, mas 1975-1976-1979 NÃO são "três vezes consecutivas", certo? Quem ganhou três vezes consecutivas o Brasileiro foi o técnico Rubens Minelli, mas em 1977 ele já estava no São Paulo. Abraços!

Felipe Portes disse...

HAHAHA, poxa, tem razão. Eu confundi as informações. O consecutivo de fato era só do Minelli. Obrigado pela correção, Rogério. Grande abraço.