segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Véi, na boa...

Foto: Globoesporte.com
José, @zenascimento

Aristóteles, na Política, cita o homem como animal social, capaz de articular o logos. Esse logos não se refere à inteligência, mas à FALA, à capacidade do homem em explicitar organizadamente seus pensamentos e sentimentos. Através dos tempos, o ser humano desenvolveu inúmeros tipos de expressões para realizar essa tarefa.


Talvez fruto do seu “filtro” kantiano, vamos dizer assim – algo próximo do “cada um faz a sua realidade”; talvez por causa da sua necessidade de dar ordem ao caos da realidade em si mesma. Porque, fora da nossa cabeça, tudo é caos. Ou, ainda, talvez porque a sistematização dos seus movimentos mentais torna seu pensamento mais facilmente compreensível que as meras expressões espontâneas, corporais. Seja como for, é na fala, ou, melhor dizendo, na linguagem em geral (fala e escrita) que o homem torna FÁTICO aquilo que pensa e sente. E um bom exemplo disso são as expressões de frustração.

A despeito dos sotaques e entonações, e das dificuldades que um texto como este pode apresentar à compreensão, algumas expressões conseguem denotar precisamente esse tipo de emoção. Como não compreender um PUTZ bem expresso? Mas não um mero PUTZ: aquele PUTZ mais comprido, aquele U esticado, quase uma vaia: PUTZ que na verdade é PUUUUUUUTZ. Normalmente, há um gesto que a acompanha. Um movimento de braço, um meneio de cabeça ou mesmo o seu pender desorientado à frente.

Como fizeram, acompanhemos, os torcedores do Internacional, no sábado. O time vencia o líder ao contrário do campeonato, Atlético-GO, fora de casa, e tudo parecia estar dando certo. Mas daí o Adriano, do Dragão, chutou, a bola bateu no pé de um, na cara de outro, o Muriel tava indo e PUTZ, gol. Daí, depois, bola na área do Inter, “alguém tiraaaa” PUTZ, gol de novo. Não contente, o colorado do sul ainda proporcionou o GRANDE MOMENTO PUTZ™ do dia: Márcio bateu o tiro de meta, a defesa colorada se embananou, Luciano – que havia entrado no lugar do amarelado e incoerente MAHATMA GANDHI –  fechou pra dentro da grande área e liquidou a fatura em 3-1 pro lanterna. O sábado ainda reservou mais dois momentos PUTZ: o gol da Portuguesa no empate (1-1) com o Corinthians – Marcelo Cordeiro bateu a falta, a bola foi indo, indo, “vai Cássio”, Cássio não foi e PUTZ; e o gol anulado de Liédson, que seria o da vitória do Flamengo sobre o Cruzeiro (ficaram no 1-1).

No domingo, tivemos vários PUTZes. O Vasco, por exemplo. Tomou dois gols do Miralles (parênteses: VIU, TORCEDOR DO SANTOS: A TROCA NEM FOI TÃO RUIM ASSIM. Fecha parênteses), perdeu pro peixe (2-0) e foi ultrapassado pelo São Paulo. O tricolor entrou no G4 após a vitória contra o rebaixado Figueirense. No Couto Pereira, o Coritiba ganhou do Bahia (2-1), e agora os baianos é que “putz, somos o primeiro fora da zona”.

No entanto, nem só de PUTZ vive o homem. O ser humano tem essa necessidade de afirmação, um negócio meio bizarro que é bonitinho quando a gente é criança – “ai que lindo, nenê cheio de personalidade”, mas que vira, via de regra, uma chatice quando somos adultos. E nessa loucura, de dizer que não, NÃO, nisso do “querer se afirmar”, o processo histórico das micro-populações desencadeia uma série de expressões mais específicas, as gírias. Algumas delas têm formas completas e, vamos considerar dessa forma, RESUMIDAS, mas podem ser utilizadas da mesma maneira que nossa expressão anterior. Senão vejamos.

O Palmeiras havia tido um lance de perigo aos 11 minutos do primeiro tempo. Dois minutos depois, o Náutico chega no ataque e AH, VÉI... Placar final, Timbu 1-0. Já a Ponte Preta começou surpreendendo a tudo e a todos. O pessoal nem tinha botado a bunda nas cadeiras de São Januário e o Luan já tava metendo um golaço, arrancando um AH VÉI fraquinho da torcida do Flu – afinal, no início do jogo o tricolor estava a NOVE pontos do vice.

Mas ninguém, nenhum outro torcedor expressou-se desta forma mais que o torcedor gremista. Em algum momento de desgosto, poderíamos sugerir a mudança do nome da entidade para AH VÉI FOOTBALL PORTO ALEGRENSE. Começou de tarde. O Sport ganhava do Atlético Mineiro e ficava tudo azul pro Grêmio seguir na segunda colocação. Daí o Cuca botou o Leonardo em campo e GOL. Não satisfeito, nos acréscimos o Leonardo foi lá e AH, VÉI... Virada do Galo sobre o Leão da Ilha, no Independência (2-1).

No Olímpico, o Botafogo cozinhava (ahn, ahn, ahn) o jogo, mas o Grêmio achou um gol. O Léo Gago (beijo, El) mandou um foguete que, VÉÉÉÉÉI, golaço, “olha a curva que essa bola faz”. Nessas alturas o Flu já tinha empatado num pênalti MANDRAKE, mas ok, ainda eram sete pontos, já era. Só que, depois de outro lance mágico, eles viraram. Tudo voltava aos nove pontos, AH, VÉI, já era mesmo. Pelo menos o Grêmio ficaria em segundo. Já tá acabando, olha ali, três minutos de acréscimo, quarta tem o confronto direto com o Flu, de repente dá pra ganhDERRUBA ELE, CARAS, NÃO DEIXA CHUT... AH, VÉI... AH, VÉI, NA BOA. NA BOA.

Troféu NA CRISTA DA ONDA: Não teve nenhum 0x0 na rodada.
Troféu VÉI, NA BOA: Pro Grêmio, né?! Puta que pariu.



Nenhum comentário: