sexta-feira, 5 de outubro de 2012

TF História: A escola do Newell's Old Boys

Foto: Elciudadanoweb
Tiago Melo, @melogtiago 

Quando se pensa em uma fase vitoriosa do Newell’s Old Boys, a referência obrigatória é o período em que Marcelo Bielsa comandou a equipe. Nada mais natural: foram dois títulos nacionais, um vice de Libertadores, vários jogadores de alto nível revelados e uma forma vertiginosa de jogar que marcou época e fez escola.

Mas Bielsa não teve de montar sua equipe no vazio. Sua chegada ao posto de treinador da Lepra coincidiu com uma outra era vitoriosa no clube. Em 1988 o Newell’s foi campeão argentino e vice campeão da Libertadores. A grande peculiaridade: com os onze titulares e toda a comissão técnica revelada em casa.

O grande responsável pela façanha talvez tenha sido Jose “Piojo” Yudica, treinador histórico do futebol argentino. Um dos maiores técnicos da história de seu país, e que certamente só não é mais conhecido e lembrado por ter realizado suas grandes façanhas comandando equipes pequenas.

Yudica era um atacante, revelado pelo Newell’s, com passagem pelo Boca Juniors, Estudiantes, Vélez, Platense e outras equipes, chegando a defender a Argentina nas Olimpíadas de 1952. Mas seus grandes momentos foram como treinador. Inicialmente levou o Quilmes a seu primeiro e único título profissional, em 1978.

Após devolver o San Lorenzo à primeira divisão, El Piojo foi para o Argentinos Juniors. Fez com que o Bicho jogasse um futebol vistoso e envolvente, levantando um campeonato nacional e a Libertadores de 1985. E em 1987 chegou ao clube do seu coração: o Newell’s.

A equipe rosarina tinha bons jogadores. Alguns (Dezotti, Almirón, Sensini) chegaram a construir carreira na seleção argentina, jogando mundiais pela albiceleste. Tanto que o Newell’s havia sido vice-campeão em 1987. Pouco adiantou: como o campeão havia sido o arqui-inimigo Rosário Central, o vice havia sido um completo desastre.

Desgastado pela perda do título para o rival e por desavenças com os barras do clube, o treinador Jorge Solari pediu o boné. Yudica utilizou a mesma base do ano anterior, mas promoveu novos jogadores da base, incluindo nomes como Gabriel Batistuta e Abel Balbo, atletas que não marcariam época com a camisa do Newell's, mas também seriam astros da seleção nacional e no futebol europeu.

O resultado foi avassalador. O Newell’s se sagrou campeão nacional de 1988 com duas rodadas de antecedência ao aplicar um incrível 6 a 1 no Independiente. Terminou o campeonato com 68 gols a favor, sofrendo apenas 21. Yudica se transformava no primeiro comandante a conquistar o campeonato argentino por três equipes diferentes (Americo Gallego chegaria a mesma marca em 2004 ao vencer o campeonato pelo próprio Newell’s; antes havia chegado lá com River Plate e Independiente).

Mas havia ainda a Libertadores daquele ano, disputada com um regulamento absurdo. O Newell’s não fez uma campanha de destaque, mas as quatro vitórias, quatro empates e quatro derrotas o classificaram para as semifinais, graças às bizarrices da fórmula do torneio. Nas semifinais os leprosos foram incontestáveis, despachando o San Lorenzo com duas vitórias: 1 a 0 em Rosário e 2 a 1 em Buenos Aires. Pela primeira vez na história uma equipe do interior argentino chegava a uma final continental.

Mas o adversário seria o duríssimo Nacional. Treinada pelo lendário Roberto Fleitas, a equipe uruguaia era repleta de jogadores talentosos e experientes, como Hugo de León. Em Rosário o Newell’s se impôs por 1 a 0, gol de Gabrich. Mas em Montevidéu o Bolso rapidamente reverteu a desvantagem. Vargas e Ostolazza marcaram já no primeiro tempo, enquanto De León converteu um pênalti já nos quinze minutos finais para liquidar a fatura.

A curiosidade inacreditável é a seguinte: a Conmebol determinou que o saldo de gols seria válido como critério de desempate, mas apenas após se jogar uma prorrogação. Ou seja, tendo vencido por 1 a 0 em casa e perdido por 3 a 0 fora, o Newell’s ainda tinha a chance de ser campeão, caso revertesse a desvantagem na prorrogação. O que não aconteceu, já que o placar se manteve, e os rosarinos tiveram de amargar o vice.

Chegava ao fim o auge daquela equipe. Em 1989 o Newell’s fez uma campanha irregular no campeonato local, ainda que nos play-offs tenha avançado até as semifinais. Em 1990 os leprosos não passaram do 12º lugar. Jose Yudica deixou a agremiação, e para seu lugar veio Marcelo Bielsa, que levaria o nome do NOB ainda mais longe.

A equipe que conseguiu grandes feitos contando apenas com jogadores e membros da comissão técnica formados em casa, tinha como base: Scoponi, Franco, Theiler (Basualdo), Sensini e Pautasso; Llop, Rossi (Lopez) e Martino; Alfaro, Batistuta e Dezotti (Almirón).

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