sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Schumacher não estava na bola, para o azar de Battiston

Foto: L'equipe
Durante a batalha da semifinal do Mundial de 82, França e Alemanha fizeram um dos duelos mais dramáticos da história das Copas. Nele, um empate no tempo normal em 1 a 1 forçou a prorrogação, onde as duas equipes jogaram 30 minutos de um filme de suspense.

A Alemanha já estava acostumada a disputar prorrogações mais interessantes do que confrontos no tempo normal. Se apenas olharmos para aquele lendário jogo contra a Itália nas semifinais de 70, no México, essa tese já serviria de base para provar que na hora que os músculos não respondem mais, o coração alemão também sabe ditar o ritmo. 

Se passaram 12 anos desde aquela loucura do 4-3 no Estádio Azteca. A Alemanha estava outra vez em uma semifinal de Copa do Mundo, para enfrentar a França em Sevilla. Do lado francês, uma geração brilhante. O famoso meio campo composto por Jean Tigana, Alain Giresse e Michel Platini estava com tudo. Com um futebol envolvente, Les Bleus foram grandes rivais para a poderosa Alemanha.

Foto: Old School Panini
No segundo tempo, o placar marcava 1 a 1, gols de Littbarski e Platini, de pênalti. Aos cinco minutos da etapa complementar, o meia Bernard Genghini saiu para dar lugar a Patrick Battiston, defensor que até então defendia o Saint-Étienne. O técnico Michel Hidalgo precisava encontrar alguma forma de barrar o poderio ofensivo de Klaus Fischer e Uli Stielike. 

A cada ofensiva, o jogo apresentava contornos de puro drama. Duas equipes muito talentosas, que não fugiam do combate. Com a bola ou sem ela, os adversários deram o máximo para tentar a vitória. Alguns mais, outros menos, estavam dispostos a dar o sangue pela vaga na final. Não Schumacher, o goleiro alemão.
Foto: Bild
Em campo por apenas cinco minutos, Battiston recebeu um passe perfeito de Platini, na frente da grande área. O zagueirão tenta tocar por cima do goleiro, erra a finalização e sem ter muito tempo para outro reflexo além do chute, leva uma trombada assombrosa de Schumacher, que saiu e virou o quadril em direção ao francês. Instantaneamente, Battiston vai ao chão e cai de cara. Até chega a se virar, mas não consegue fazer nenhum movimento além de deixar a sua mão esquerda cair, antes de ficar inconsciente. O árbitro Charles Corver não apitou falta.

De imediato, os franceses ficaram revoltados com a entrada de Schumacher. A revolta virou preocupação quando viram que Battiston estava totalmente vencido no gramado. Desmaiado, Patrick foi retirado de maca e a partida ficou paralisada por alguns minutos. Schumacher seguiu normalmente para cobrar o tiro de meta, sem demonstrar muita compaixão no lance. 

Foto: Imortais do futebol
A imagem mais chocante é a de Platini, que se aproximou do colega na maca e ficou com uma expressão de pânico no rosto. "Pensei que ele tinha morrido. Não tinha pulso e estava pálido", contou Platini. Ainda assim, a semifinal continuou, contrariando protestos de Tigana e Giresse, que gesticulavam sobre o absurdo que era seguir após um lance tão chocante. Battiston perdeu dois dentes, sofreu concussão cerebral e rompeu uma vértebra com o choque e Schumacher.

Movida pela vingança, a França resolveu decidir suas diferenças na bola. Abriu 3 a 1 no placar e estava disposta a castigar os alemães da pior forma possível: com uma goleada. Impulsionados por quase todos os torcedores nas bancadas, a seleção francesa esteve perto de garantir a vaga na final com Trésor e Giresse. Vindo do banco, Rummenigge começou a reação alemã. O craque estava no banco após um surto de problemas estomacais que prejudicou grande parte do plantel germânico. Poupado por Jupp Derwall, Rummenigge foi chamado às pressas, pouco antes do terceiro gol francês. 

Klaus Fischer, lendário atacante do Schalke, empatou e levou a partida para os penais. A Alemanha venceu por 5 a 4 e avançou para encarar a Itália, revivendo aquele encontro de 70. Mas desta vez, não contava com a simpatia de quase ninguém que tinha visto aquele absurdo de Schumacher contra Battiston. Anos depois, o goleiro confessou que não sabia o que fazer nos instantes que sucederam a saída de Battiston. 

O perdão de Battiston, em 83
Foto: Old School Panini
Não queria se aproximar do adversário caído, pois temia ser agredido pelos franceses, cheios de fúria. Também não queria ficar parado e então quicou a bola no chão até uma definição por parte dos árbitros. Ele nunca foi tão vaiado em toda a sua carreira. Toda vez que era acionado, a torcida gritava de forma hostil. A explicação de Harald é de que ele realmente achou que estava na bola e se virou para não acertar os joelhos em Patrick, o que teria sido consideravelmente pior.

Mesmo com a gravidade do lance, o goleiro mantém a posição de que não teria feito diferente. Em 1983, os dois se reencontraram e Battiston perdoou Schumacher pelo ocorrido. Mas vá dizer isso ao resto da França, que em 82 considerava que o arqueiro era mais detestado que Hitler no país, de acordo com pesquisa feita por um jornal local.



Felipe Portes ainda é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol. 

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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