quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Uma dupla de ataque saída dos quadrinhos

Robin (Kevin Keegan) e Batman (John Toshack)
Foto: A Football Archive
Quem nunca teve uma dupla fenomenal de ataque no time? Os brasileiros sempre vão lembrar da incrível parceria de Romário e Ronaldo em 97, outros vão citar Romário e Bebeto, Henry e Bergkamp, Puskas e Di Stéfano, Edmundo e Evair, Romário e Edmundo. Na era mais gloriosa do Liverpool, quem dava o tom da música era a dupla John Toshack e Kevin Keegan.

A construção do timaço do Liverpool que dominou a Inglaterra e a Europa nos anos 70 passa pelos pés de Kevin Keegan e John Toshack, parceiros de ataque do time treinado por Bill Shankly. No período em que os dois estiveram defendendo os Reds, de 70 a 77, foram três títulos ingleses, um da Copa dos Campeões, dois da Copa UEFA e uma Copa da Liga inglesa. Ainda assim, a façanha do Morcegão e o menino prodígio foi superada por outro duo dinâmico formado por Dennis Pimentinha e o Mr.Bigode. 

Tudo começou para Batman e Robin em 1970, quando Toshack foi contratado pelos Reds após cinco anos no Cardiff City. Ele já tinha certa reputação como homem de referência no ataque, muito pelo seu porte físico e posicionamento dentro da área. Um ano depois, Shankly pediu a contratação de Keegan, que estava no Scunthorpe, com 20 anos. Poucos imaginariam que ao unir os dois, o Liverpool se tornaria a principal força no país.

Os resultados não demoraram a aparecer: além de tirar o Leeds do topo do campeonato, os Reds também ergueram a taça da Copa UEFA pela primeira vez, ao derrotarem o Borussia M'gladbach na decisão em 73. Mal sabiam os alemães que a freguesia ainda duraria por anos. Sempre que os dois se enfrentavam, o Liverpool vencia. Keegan foi às redes duas vezes na partida de ida, em Anfield, que terminou por 3 a 0. Na volta, Heynckes descontou com outro doblete, mas o resultado não serviu para os Potros.

Enquanto Keegan se notabilizava como o menor, porém mais talentoso da dupla, Toshack servia de garçom e fazia dos seus gols quando necessário. A média do par era semelhante, apesar do baixinho atuar mais: o galês passou oito anos no clube e fez 96 em 247 jogos; King Kev anotou 100 em pouco mais de 300. O entrosamento resultava quase sempre em gols, o Liverpool não saía de campo sem marcar quando a dupla dinâmica era escalada. Assim como nas grandes pancadarias de Batman e Robin, cada um tinha a sua função. Entre os BANG, KABLANG, POW, SOC, Toshack ganhava tudo pelo alto e escorava para Keegan finalizar. 

Foto: Daily Mail
Os seis anos de parceria terminaram em 77, quando Keegan partiu para o Hamburg, vendido por £500 mil. O último título da dupla foi a Copa dos Campeões da Europa, justamente contra quem? O M'Gladbach, por 3 a 1, no Olimpico de Roma. Nenhum dos dois marcou, já que McDermott, Smith e Neal se encarregaram da tarefa de afundar mais uma vez os alemães.

A importância de Toshack e Keegan é enorme em Liverpool, especialmente pelo fato dos dois terem sido cruciais no fim do jejum de sete anos sem títulos do clube. O campeonato inglês de 73 foi a primeira de muitas competições vencidas por aquele que foi o predecessor da equipe treinada por Bob Paisley que contava com Kenny Dalglish e Ian Rush. Da mesma forma, com um grandalhão e outro baixinho, o Liverpool voou alto para conquistar a Europa mais três vezes. Dalglish, aliás, chegou do Celtic para ser o substituto de Keegan, mantendo o mesmo estilo rápido, habilidoso e goleador. 

Com a saída de Keegan em 77, Toshack partiu no começo de 1978 para o Swansea, onde ficou até 84 como jogador-treinador antes de sua aposentadoria. Seu parceiro retornou do Hamburg em 80, passou pelo Southampton e pelo Newcastle antes de pendurar as chuteiras em 84. E os livros de história dão conta de lembrar que o auge de ambos foi em Anfield, naquela década onde tudo deu certo para os Reds.

Na bat-caverna de Toshack, a fantasia de goleador fica exposta em algum quadro ou compartimento secreto, relembrando os tempos de juventude e de trabalho ao lado do prodígio Keegan. 

Felipe Portes ainda é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol. 

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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