terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Quando o Bernabéu forjou um Forest maior que o Hamburg

Foto: UEFA
Se já era difícil de acreditar que o Nottingham Forest foi campeão europeu dois anos após o acesso na Inglaterra, como reagir ao bicampeonato diante do Hamburg na Copa dos Campeões? O fenômeno tem um grande e falastrão responsável: Brian Clough.

Você já deve ter lido alguma coisa sobre Brian Clough, um dos treinadores mais respeitados e controversos que o mundo já viu. Não fosse por Clough, Derby County e Nottingham Forest continuariam sendo equipes modestas e sem nenhum diferencial em sua história. Se os dois podem ostentar títulos ingleses, Clough pode ter sua memória diretamente ligada ao sucesso dos dois rivais. 

Em suma, Clough transformou o Forest num clube vitorioso e uma das principais forças da Inglaterra em pouquíssimo tempo. Na sua segunda temporada, conquistou o acesso à primeira divisão. No ano seguinte, conquistou o título na elite e um ano depois foi coroado campeão europeu em cima do Malmö. De 1975 a 1979 houve uma mudança radical de patamar nos Reds. Ao lado do seu assistente Peter Taylor, Brian ganhou fama não só pelo sucesso como treinador, mas também pelas polêmicas e declarações ácidas sobre o futebol no seu país.

Imagine um José Mourinho mais provocador e ácido. Pois é, este era Brian Clough, que comprava brigas como quem comprava o pãozinho de cada dia para o café da manhã. Dentro de campo, alguma força estranha fazia com que os times treinados por ele tivessem um algo a mais na hora das decisões. E dentro da Inglaterra, o grande adversário do Forest não era só um grande time, mas sim o maior Liverpool de toda a história. 

Era uma vez um time pequeno que crescia em campo
A saga europeia do Forest começou em 79, quando venceram o Malmö por 1 a 0, gol de John Robertson. Já que se tratava de um time de pouca expressão, não importava para a torcida se o placar fosse magro, apenas interessava a glória e a consagração. Pois um ano depois de derrotar os suecos, os alemães do Hamburg foram as vítimas de mais uma história incrível protagonizada pelos heróis de Nottingham.

Defender um título continental naqueles tempos era uma missão que os gigantes tiravam de letra. Real Madrid, Ajax e Bayern conseguiram vencer em campanhas seguintes, a mesma façanha alcançada pelo Forest em 1980, ainda que suando frio. O velho clichê sobre a dificuldade de se manter no topo ser bem maior do que propriamente alcançá-lo, serviu como mantra para Clough e Taylor, que nunca foram grandes mestres táticos ou revolucionários no esporte. O grande trunfo de Cloughie era extrair o máximo de cada atleta, o que pode ser visto no elenco do Forest, sem nenhuma grande estrela. A motivação levou aquele time muito longe.

O'Neill escapa da marcação de Memering
Foto: BBC
A primeira vez do Hamburg ensinou muito
No Santiago Bernabéu, a noite de 28 de maio de 1980 reservava um duelo entre o forte Hamburg e os defensores da taça, que se diziam em melhor preparo em relação ao ano anterior. Mentalmente, os jogadores do Forest realmente pareciam mais prontos para o combate, sem aquela tensão do ineditismo. Do outro lado, os estreantes em decisão do HSV traziam nomes como Kevin Keegan, Manfred Kaltz e Horst Hrubesch, figurinhas carimbadas no cenário internacional. Entretanto, aquela decisão em solo espanhol não era uma mera questão de relevância, e sim de quem podia mais. 

Mantendo praticamente a mesma base do time campeão em 79, o Forest tinha o goleirão Peter Shilton, o lateral Viv Anderson, os meias John McGovern e Martin O'Neill, sem falar no perigoso atacante John Robertson. Todos já bem entrosados dos anos anteriores em que o clube ainda engatinhava na segunda divisão. Cerca de 50 mil pessoas lotaram as arquibancadas para acompanhar o espetáculo. Seria a consagração de um novo campeão ou a defesa bem sucedida do vencedor de 79? 

Era difícil adivinhar quem tinha a simpatia da torcida presente. O Hamburg bem que tentou usar o fator do uniforme todo em branco para conquistar os madridistas, mas quem se deu bem foi o lado vermelho. De início, a pressão alemã na defesa do Forest quase resultou em gol. Sufocados pelo mar de atacantes atrás da bola já na saída, os ingleses tiveram de levar o jogo para a lateral, usando o recurso do balão.

Sem nada a perder, o Hamburg amassou o Forest durante um bom tempo na primeira etapa. Não tinha piedade pelas laterais e nem com dribles pelo meio, encurtando a distância até a meta defendida por Shilton. O primeiro lance de impacto veio com um chutaço de Magath, numa falta, onde o goleiro inglês espalmou para o lado.

Foto: Daily Mail
Robertson, o pé do bicampeonato
O Forest respondeu com uma arrancada de Anderson pela direita. O lateral achou Birtles na ala, mas o chute em diagonal saiu pelo lado do gol dos alemães. Novo contragolpe inglês, com Robertson, na intermediária esquerda. Ele dribla Kaltz para dentro e tenta acionar Birtles, encostado na área e marcado de perto por um defensor. Birtles só escora e devolve para Robertson, que tira a bola antes da chegada de Keegan e chuta rasteiro no canto. Kargus ainda tocou com os dedos na pelota antes dela morrer nas redes.

Perder sim, se entregar, jamais
Se alguém pensou que o gol sofrido fosse assustar o Hamburg, se enganou. Os germânicos não se acanharam em tentar igualar o marcador e foram ao combate, como se espera de um verdadeiro concorrente ao título. Um contra ataque veloz deixou Reimann sozinho na direita. O atacante recebeu passe de Magath o outro lado da área, segurou e girou em direção ao gol de Shilton. Com um novo passe, achou Kaltz chegando de trás para o arremate. Kaltz acertou um zagueiro e a bola ainda pererecou até chegar em Milewski, que carimbou Shilton. Impedido para pegar o rebote, Reimann mandou para as redes, mas o bandeirinha anulou o gol numa decisão acertada.

Daí em diante, o jogo foi todo do Hamburg, que aproveitou a posse de bola superior para controlar o adversário. A defesa do Forest precisou trabalhar demais para conter o ímpeto de Magath, Memering e Reimann, infernais a cada lance. Keegan não ficava atrás e em uma jogada, matou no peito e ajeitou para Milewski, que novamente bateu forte para forçar Shilton a evitar o empate. Foi uma questão de sobrevivência aguentar a pressão e manter o resultado. A disposição do HSV para encostar na área e deixar os zagueiros em estado de alerta era impressionante.

 Reimann divide com Lloyd e leva a pior
Foto: Daily Mail
Apresentando um estilo solto e com passes mais inteligentes do que a média, o Hamburg quase sempre saía em condição de finalizar após dois ou três toques. A sobra dos ataques também era uma carta na manga. Com a área lotada, os espaços para dribles ou finalizações ficaram restritos para Magath e seus companheiros. Nesse cenário era mais fácil rolar a bola para alguém que viesse da defesa, com força suficiente para romper o bloqueio. Esse homem era Kaltz, que deu uma pancada na trave de Shilton e saiu de cabeça baixa, provavelmente com aquela sensação de que nada iria adiantar naquela noite.

O segundo tempo marcou a entrada do homem de referência no ataque alemão. Hrubesch veio para a vaga de Hieronymus, meia apagado na partida. Com o tanque dentro da área, qualquer cruzamento pelo alto representava grande ameaça a Shilton. Mais preocupado em administrar o resultado, o Forest chegava pouco no campo adversário. Sempre da mesma forma: segurando a bola, pensando o drible, planejando o passe. Birtles até tentou chutar de fora da área, mas o remate saiu fraco. Em contrapartida, o Hamburg não fazia cerimônia para agredir. Nogly teve uma chance de ouro de frente para o gol dos ingleses, antes de tentar a sorte e acertar a perna de Anderson, que evitou o gol certo. Buljan pegou o rebote de um tremendo vacilo e Burns e chutou pra fora, sem goleiro.

O temido Hrubesch teve apenas uma boa oportunidade, quando em novo levantamento de Kaltz, pegou de primeira e acertou no meio do gol, para fácil defesa de Shilton. Estava tudo tão resolvido, apesar do sufoco, que não seria nenhuma surpresa que o Forest ampliasse a vantagem. O meio campo estava vazio, os ingleses estavam apenas afastando o perigo, quando Birtles recebeu uma bola e partiu no mano a mano contra Nogly. O camisa 9 dos Reds resolveu se livrar do marcador antes de sair para o último duelo contra Kargus, deu uma caneta no capitão adversário e antes que pudesse estudar as possibilidades de um chute por cobertura, teve sua carteira batida por Kaltz, que voltou lá da frente para o desarme. O mesmo Nogly saiu jogando e evitou o pior.

Peter Taylor e Brian Clough (Foto: A Football Archive)
O último abraço de título
Logo após o apito final, o que se viu foi um Clough contido, mas abraçado com Peter Taylor e parabenizando todos os membros da comissão técnica. Naquele momento, ele entrava para a história como um dos únicos treinadores a exibir duas taças europeias em sua galeria. Venceu mais duas Copas da Liga pelo Forest, antes de se aposentar em 1993.

A parceria com Taylor se encerrou em 1982, quando Peter abandonou o esporte. Meses depois, o ex-assistente voltou ao Derby como técnico e teve várias brigas públicas com Brian, entre elas uma envolvendo a contratação de John Robertson, que jogava sob o comando de Clough no Forest. Até a morte de Taylor, em 1990, os dois não se perdoaram pelos conflitos ao longo da década de 80.



Nottingham Forest 1-0 Hamburg
28 de maio de 1980, Santiago Bernabéu - Madrid
Final da Copa dos Campeões da Europa
Forest: Shilton, Lloyd, Gray (Gunn), Anderson, Burns, Bowyer, McGovern, O'Neill, Bowyer, Birtles, Mills (O'Hare) e Robertson. Técnico: Brian Clough
Hamburg: Kargus, Kaltz, Nogly, Jakobs, Buljan, Hieronymus (Hrubesch), Milewski, Memering, Magath, Keegan e Reimann. Técnico: Branko Zebec

Felipe Portes ainda é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football. Work-a-holic, come, bebe e respira futebol. 

"O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.

No twitter, @portesovic.

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